Mandiocas Bravas - ensaio

Trip Start Nov 14, 2007
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Trip End Ongoing


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Wednesday, January 16, 2008

Antes de se chegar a algum lugar, é necessário chegar à metade do caminho. Porém, antes de se chegar à metade do caminho é necessário chegar à metade da metade, e antes à metade da metade da metade, e assim por diante infinitamente, o que prova que qualquer deslocamento é impossível.

Já tendo visto o que havia para ver no agreste alagoano, continuei o caminho para o oeste, rumo ao sertão. Queria chegar a Canindé de São Francisco, que fica em Sergipe, logo do outro lado do rio que faz a divisa com Alagoas, então fui à rodoviária de Palmeira dos Índios e perguntei como fazer para chegar lá... só que ninguém conhecia a cidade. Quando falei que era em Sergipe, apontaram-me um ônibus para Aracaju, que é na direção oposta. Acabei decidindo ir primeiro para Delmiro Gouveia, em Alagoas mesmo e de lá, que era bem perto, descobrir como chegar a Canindé.
Só que Delmiro já fica no sertão, e não é tão simples assim entrar no sertão, ou pelo menos não foi. Havia só dois ônibus diários para lá, um de manhã cedo e outro à noite (que não me  servia porque chegaria lá só de madrugada). Fui informado então de que poderia pegar um transporte alternativo até Santana do Ipanema e de lá outro para Delmiro. Lá fui eu, andar de novo da rodoviária, que ficava fora da cidade, até o centro, para poder pegar a van. Cheguei a Santana sem maiores problemas, desci na rodoviária e fui ver ônibus para Delmiro... um de manhã cedo e outro à noite, me deu uma estranha sensação de déjà vu. Piorou a sensação quando alguém lá disse que eu poderia chegar antes a meu destino se andasse x quilômetros pela estrada até outro ponto de transporte alternativo. Lá fui eu, para chegando lá descobrir que não havia transporte para Delmiro, eu teria de pegar um para Carié e de lá, sim, com certeza haveria o transporte que procuro. Para piorar, o pessoal que esperava transporte para Carié disse que só por milagre passaria algum antes do final da tarde...
Ficamos lá, esperando um milagre que acabou vindo. Só que era uma caminhonete que levava o pessoal na caçamba coberta, e mais pessoas do que cabiam ali. Sem problema, eu só queria chegar. Após uma viagem um tanto desconfortável, fui deixado com mais duas pessoas no meio do nada, à beira da estrada para esperar outra caminhonete... que veio tão cheia quanto a que acabara de nos deixar, mas ainda precisando abrigar nós três. Coubemos, e seguimos rumo a Inhapi, porque transporte para Delmiro de Carié não tinha, era preciso ir a Inhapi primeiro. Dessa vez havia na caçamba uma mulher que também queria ir a Delmiro, e depois de sermos deixados mais uma vez no meio do nada, conseguimos finalmente uma caminhonete para lá. A quarta que eu pegava no dia para percorrer uma distância relativamente curta, e vinha ainda mais cheia que a terceira. Dessa vez foi preciso que três pessoas fossem de pé, penduradas para fora. Minha mochila não coube dentro nem depois de vários truques mágicos, teve de ir em cima, mal amarrada por uma corda fina. Fui a viagem inteira só imaginando a que horas minha mochila ia se espatifar no chão e causar um acidente, mas esse era um dia de milagres - consegui chegar a Delmiro Gouveia com o dia já quase escurecendo, sem que morresse ninguém na estrada. Catei um lugar para ficar e na manhã seguinte tomei uma caminhonete para Canindé de São Francisco. Isso era o que eu pensava, porque quando chegou a Piranhas, na margem alagoana do rio, uma mulher perguntou se a caminhonete iria a Canindé e a resposta foi negativa. Lá fui eu de novo esperar à beira da estrada um transporte que, esse sim, finalmente me levou aonde eu queria ir.
Até entendi por quê ninguém a conhecia em Palmeira dos Índios, é minúscula a cidade. Nem tinha muito onde dormir, arranjei um pulgueiro qualquer e me dei por satisfeito por ter estabelecido um novo recorde de menor preço de pousada - sete reais por um cubículo com apenas o espaço suficiente para uma cama e um ventilador. Para uma noite só foi ótimo, um dia foi suficiente para dar uma espiada na usina hidrelétrica, na praia fluvial e fazer uma caminhada de dez quilômetros só na ida até chegar a um restaurante que cobrava caríssimo para passeios pelos cânions do rio, formados por causa da usina. É claro que decidi esnobar o passeio, mas pelo menos caminhei vinte quilômetros, passando uma boa parte por uma reserva de caatinga. Mas se eu soubesse que era tão longe, bem que teria ido de tênis e evitado que meus pés gritassem comigo no dia seguinte...
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Comments

ganesha_v
ganesha_v on

Título: Bóia-fria
Nossa, isso aqui está a todo vapor agora. Quase não dá nem tempo de ler um já tem outro. Engraçado que sempre que acabo de ler, sempre releio. Este agora li a primeira e na segunda, peguei meu mega mapa e fui acompanhando seus trajetos (só não achei Carié). Sinceramente, se você não dissesse que tinha estado nesses lugarejos, jamais saberia que exisiam. Há um tempo atrás quando olhava um mapa mais detalhado imaginava uma viagem que queria fazer por dentro dessas pequeninas cidades, descobrindo sua história e tal. E um amigo me disse que eu não ia encontrar nada, porque nada teriam. Bom, num ponto ele tem razão e você está confirmando isso. Por outro, a história vai se fazendo aos poucos e aí entra o planejamento desses lugares, etc.

Nesse seu post me veio um filme na cabeça: você com sua mega barba fazendo quase o papel de bóia-fria em cima de uma caminhonete (taí, mais um título, não fosse o mochilão)... rsrsrs...
Uma praia fluvial deve ser lindo! Eu também já vi uma!

babsy
babsy on

onde mesmo??
É, parece que esse blog encerrou definitivamente a fase 'cidades-que-a-gente-conhece', passou batido por 'cidades-que-eu-algum-dia-já-ouvi-falar' pra fase atual do... wtf??!

Acho que agora pra acompanhar seus roteiros nem mapa grande salva, só mesmo GPS ;)

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