Espírito natalino, parte 1

Trip Start Nov 14, 2007
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Wednesday, December 19, 2007

Papai Noel, velho batuta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo
Aquele porco capitalista!

Agora em Aracaju tive tempo de praticar alguns dos meus passatempos preferidos. Não consegui quem me hospedasse nem tinha amigos a encontrar, então ao descer na rodoviária escolhi mais ou menos a direção em que queria seguir, tomei um ônibus qualquer, desci num ponto qualquer e me pus a caminhar numa direção qualquer. Caminhei um bocado de tempo até decidir parar num shopping, para descansar no ar condicionado e acessar a internet para descobrir em que ponto da cidade eu estava. Vi que a zona onde há maior concentração de lugares para passar a noite ainda estava um tanto longe e considerei continuar a caminhada, mas acabei por decidir tomar um táxi. Pode ser que chegue o tempo de eu caminhar várias horas debaixo do sol portando carga, mas agora não - essa viagem ainda está no prelúdio.
Depois de encontrar onde dormir, passei o que restou do primeiro dia sem fazer nada além de descansar da caminhada e da longa viagem e fazer um reconhecimento do terreno próximo. Na manhã seguinte já me preparei para caminhar até o centro da cidade, sem ter muita idéia da distância que me separava de lá, mas ainda antes da hora do almoço fiz um intervalo num shopping e acabei sendo tragado pela livraria, que só me cuspiu de volta ao mundo real quando já era noite... Voltei direto à pousada, e foi muito bom fazer mais uns quarenta minutos de caminhada por lugares estranhos que, pelo movimento nulo dava uma idéia de madrugada. A cada vez eu gosto mais de fazer isso, e ainda tenho bem viva a lembrança do dia em que tive de caminhar uns 20 quilômetros entrando pela madrugada portuguesa - para mim é difícil encontrar prazeres maiores do que essa sensação inexplicável de se ter a estrada toda para si.
E afinal depois encontrei tempo e disposição para caminhar ao centro, mas foi um tanto decepcionante - cheguei rápido demais. Foi bom passear a esmo no centro de Aracaju, enfiar-me no meio das multidões e de vez em quando tropeçar numa construção histórica. Bom também conhecer o mercado (ainda que estivesse fechando quando cheguei a ele) - galinhas, cabras, gritaria - eu gosto dessa confusão, dá-me a impressão de que as pessoas são mais verdadeiras. Gostei muito também do rio Sergipe não ter suas margens em concreto, é ótimo caminhar na avenida com a selva de pedra de um lado e do outro a mata à beira-rio.
Foi uma pena estar tudo decorado para o natal. A decoração é bonita, claro, mas essa época é bastante irritante em certos pontos. Músicas imbecilizantes tocadas e cantadas em toda parte por crianças desafinadas; representações tão sem significado para a gente dessa região quanto renas, trenós e bonecos de neve; nas ruas comerciais, lojas de sapato tentando estimular o consumo: 'Ano novo tem que ter sapato novo. Sapatos, sapatos, sapaaaaatooooos!'; letreiros de ônibus que em vez de dizerem qual é a linha desejam boas festas, como se houvesse algum significado num desejo que não se sabe a quem se faz; todos correndo para comprar presentes a todos - uns porque querem presentear as pessoas, outros porque não querem ser os únicos a não presentear - todos querem ser muito generosos e amolecem os corações ao espírito natalino. Ou melhor, ao que acham que é espírito natalino, que o menino da manjedoura (coitado) fica sozinho ao pé do pinheiro, assistindo à deformação horrorosa que é todo o mundo achar que ser bonzinho no dia de natal expia todos os pecados de janeiro a novembro - compram-se brinquedos de plástico ou doam-se roupas velhas para as crianças menos favorecidas (alguns até se vestem de Papai Noel), contribui-se dinheiro a campanhas contra a fome e num passe de mágica a consciência fica limpíssima (até ouvi um homem que se faz de Papai Noel dos pobres dizer na televisão que esse era sempre o melhor dia do ano para ele). Não importa que as mesmas crianças precisem das mesmas doações nos anos seguintes, nem que passem fome durante o outono, o inverno e a primavera, o que importa é terminar o ano sendo generoso. Não interessa se não se dá atenção à família e aos amigos durante o ano inteiro, o interessante é vê-los rasgando embrulhos depois de comer o peru. As pessoas montam o presépio cheias de cuidados, mas no dia de reis devolvem-no a uma caixa poeirenta na prateleira mais alta do armário, junto com esse espírito que só vai reviver no final do ano seguinte.

E as histórias da barba continuam, em todos os lugares aonde fui aconteceu uma nova coisa engraçada até agora. Em Natal me chamaram de Lula (prêmio pela falta de criatividade - buuuuu!); em João Pessoa cruzei com uma menina desconhecida quando saía do banheiro do bar que parou para me ordenar que tirasse a barba; em Salvador (perdoem o anacronismo, falar assim do que ainda não aconteceu) serei interpelado por um argentino no bar de flamenco que me dirá que sou igual a Cortázar, o segundo maior escritor argentino em sua opinião. Passava por uma praça no centro de Aracaju e fui chamado por um cara que me perguntou se eu era mórmon, 'porque para ter uma barba dessas só pode ser por motivo religioso'. Quando neguei ter religião, aproveitou para me pedir uma informação - queria saber onde faziam ponto as prostitutas de Aracaju.
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Comments

anapdan
anapdan on

ótimo!
Henrique, adorei este novo texto. Um dos melhor até agora. Estou adorando acompanhar suas peripécias pelo Brasil... e de barba.
Beijocas
Ana

erikapessoa
erikapessoa on

Daqui há uns 10 anos....
...quem sabe ;-)

http://www.releituras.com/jcortazar_casa.asp

ganesha_v
ganesha_v on

Sapatos para suas caminhadas.
Eu gosto muito do serviço eficiente de acusação de atualização do blog... :)

Bem, beleza...eu nem vou dizer e antecipar aqui que alguns, né (H)...até se vestem de Papai Noel, nééeee...?

Sapato novo, vida nova! Sapatos novos para longas caminhadas. É, essa época é assim... O bom velhinho, ou mau, passou a ser capitalista demais. Não entendo mais, e nem quero entender e já tentei deixar de fazer parte, mas não resisto às vezes presentear alguém com algo feito por mim. É uma energia boa. Ou um livro.

Ser chamado de Lula é triste! Prefiro o pai-de-família. Engraçado como as pessoas associam a barba à religião. E logo contigo. Hehehe. Deve ficar no imaginário aquela coisa do Osama mesmo.
Beijo.

blanchedubois
blanchedubois on

Prelúdio do nosso estimado flâneur barbudo
Raposa felpuda:

Sua pelagem está realmente causando comoção por onde passa!Não é pra menos!Será que vc postaria uma foto por aqui pra termos noção da progressão da barba??? ( já tenho a impressão de ouvir um sonoro não...)

Esse post foi muito bom: reflexivo (bah, que novidade!) e muito apropriada escolha de vocábulos.Aparentemente vc está cada vez mais fluente, apesar do muxoxo inicial.

Bjs

Analu

rmusse
rmusse on

Papai Noel FDP
Henrique,
este post tá mais parecendo um manifesto contra o capitalismo - adorei! rsrsrs tenho a mesma sensaçao qdo vejo esses bonequinhos de neve feitos de isopor e imitaçao de neve nas arvores, sem cntar q pinheiro só se vê em dias de Natal ou Friburgo rsrsrsrsrsrs
Além do que essa loucura para compras é frenetica e irritante. No momento to vivendo uma corrida com planejamento de casamento (nao o meu!), q nao foge muito dessa loucura para agradar e aparentar o que nao se é o ano todo... rsrsrsrs
bjaoooo

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