Expedição 4 Pasos

Trip Start Jan 04, 2010
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Trip End Jan 25, 2010


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Flag of Brazil  , State of Sao Paulo,
Sunday, January 3, 2010

Meu caso de amor com a Argentina é antigo. Até hoje já estive neste País tão próximo e tão distante um bom bocado de vezes.

Fiz minha primeira viagem a Argentina em 1975, por obra e graça de meus pais. Fui no inverno, em uma excursão para a então desconhecida cidade de Esquel. Meu irmão deveria ter-me acompanhado, mas como seu desempenho escolar não era, digamos, "apropriado", acabei indo sozinho.

No vigor de meus 14 anos aprendi a esquiar em um par de dias e ganhei o carinhoso apelido de "Cabeza de Bagre" de meu instrutor Koko, quero crêer que pelo pouco respeito que demonstrei aos riscos do esporte. Após 7 dias na cidade estava certo de haver encontrado a melhor diversão do mundo ! Não hesitei em vender meu relógio digital, então uma novidade que havia ganho de minha Tia Rinalda poucos dias antes do embarque, ao garçom do restaurante do Hotel. Vender não foi própriamente o caso, troquei-o por uma semana de alimentação. Pedi ao guia da excursão que retornava com o grupo no domingo para avisar meus pais que eu somente retornaria na semana seguinte, com o grupo que ora chegava. E assim foi. Naqueles tempos de telefonemas internacionais quase impossíveis, não havia muito que meus pais pudessem fazer. Na volta ouvi poucas e boas, mas valeu a pena.

Desde então viajei por toda a Argentina, do Ushuaia no extremo sul à Quebrada de Humauaca no extremo norte, sempre encantado com a beleza natural do País e com o seu povo, alegre, prestativo e solidário. Mas não se enganem, nem todos os argentinos são iguais, em Buenos Aires a coisa toda muda de figura. Os Portenhos são uma espécie "diferente" de argentino, recebida com reservas até mesmo dentro de seu próprio País.

Meu amor pelas motocicletas é pouco mais antigo que minha admiração pela Argentina. Meu primeiro veículo à motor com duas rodas não foi exatamente uma moto, mas um ciclomotor muito em moda na cidade de São Paulo em meados dos anos 70, uma Moto Graziella, comprada na loja da Ultra Street no então único Shopping Center da cidade, o Iguatemi.

A partir desta "maravilha" da mecânica Italiana, que não deixou muitas saudades, nunca mais deixei de ter em minha garagem ao menos um veículo com duas rodas e um motor, exceto pelos 4 anos em que vivi na New England, onde o clima servero e as leis de trânsito duríssimas me afastaram do "crime".

Em 2002, em plena crise dos 40 apresentei o seguinte dilema que me atormentava a minha esposa: aos 40 todo homem arruma uma amante ou compra um "brinquedo", a escolha é sua. E foi assim que comprei minha primeira motocicleta "grande", uma XT-600 Zero Km. Com a XT começei a tomar gosto pelas estradas e pelas longas viagens. Com ela me aventurei pelo Sul do Brasil e pelos arredores da Mantiqueira e suas paisagens magníficas. Creio que neste processo de autodescobrimento o meu renascido entusiasmo pelo motociclismo tenha salvado o casamento de alguns bons amigos que também optaram pelo "brinquedo".

Em 2005 a valente XT-600 já estava pequena para minhas ambições e para minha imensa barriga que crescia, contínua e ininterruptamente, desde os tempos de minha pobre Graziella. Com pouco dinheiro e alguma determinação começei a pesquisar o mercado de motos pela Internet até encontrar a moto que me pareceu perfeita: uma BMW R1100RS ano 1993. Não tive dúvidas, levei minha XT-600 ao encontro do vendedor em São José do Rio Preto e voltei de lá montado na minha primeira BMW. Com menos de 100Km rodados na Beemer, como são carinhosamente chamadas as BMW, já havia tomado duas multas por excesso de velocidade. Minha vida nunca mais seria a mesma.

A compra da BMW foi consequência de uma motivação maior, com ela eu planejava fazer minha primeira viagem internacional de moto, lógicamente para minha querida Argentina. Meus planos logo contaminaram meu irmão caçula, que apesar de estar há muito anos sem andar de moto, não hesitou um segundo em comprar uma Yamaha XTZ-750, a venerada Super Ténéré. E assim partimos, juntos, para nossa primeira grande aventura motociclistica. Nosso objetivo era descer pelo interior do sul do Brasil, cruzar a fronteira por Chuí, prosseguir pela costa Uruguaia até Colônia del Sacramento, cruzar de BukeBus para Buenos Aires e de lá seguir para Bariloche, Puerto Montt, Santiago, Mendoza e etc. Partimos no dia 12/Nov/2005. Passados 7 dias e 4900Km, o cansaço e a imprudência colidiram com nossos planos e meu irmão acidentou-se de uma maneira absurda em Choele-Choel, uma poeirenta e insignificante cidade perdida no meio da Provincia de Rio Negro, a centenas de quilometros de lugar algum. Felizmente as consequencias do infortúnio foram mais materiais do que físicas, mas o par de muletas que meu irmão ganhou do médico do pronto-socorro foram determinantes: nossa aventura havia terminado. Não fosse pela solidariedade e bondade do povo argentino possivelmente nossas motocicletas ainda estariam lá, retidas pela malha burocrática luso-ibero-latino-americana que adora se enredar nas pessoas de bem e acima de tudo em suas propriedades.

Foi somente após esta minha primeira "quase-grande" viagem que me dei conta de que minha querida BMW não era adequada às minhas aspirações mais aventurescas. Sua suspensão de pequeno curso, pneus de perfil baixo, rodas de alumínio de 3 raios e posição esportiva de pilotagem eram totalmente inapropriadas a realidade da malha rodoviária da nossa querida América Latina.

Não sem muita dor no coração, decidi vender minha RS e comprar outra moto. Mas minha paixão pela marca alemã já estava instalada, a genial simplicidade de sua mecânica, sua ciclistica impecável e o motor vigoroso, de torque abundante estavam definitivamente tatuados em mim. Assim sendo o único caminho possível levou-me ao encontro de minha primeira R1100GS, ano/modelo 1997, comprada em Botucatu.

Sempre fui um péssimo comprador e um vendedor ainda pior. Aos meus amigos dou mil conselhos técnicos mas para mim reservo apenas a empolgação de uma criança numa loja de doces. Já na viagem de volta para casa minha nova GS demonstrou o desleixo de seus antigos donos com a sua manutenção. Uma inspeção mais cuidadosa de meu mecânico de confinça terminou em uma salgada conta de peças desgastadas a serem substituídas. Tudo bem pensei, ao menos agora eu sei que está tudo "novo".

Durante o ano de 2006 fiz várias viagens no Brasil com meu novo brinquedo. A cada curva, a cada ultrapassagem, meu amor e admiração pela engenharia alemã cresciam. Em 2007, com minha GS já pronta para qualquer batalha, voltei a planejar, juntamente com meu irmão, nossa segunda-primeira-grande viagem de moto; para a Argentina, claro.

Desta vez decidimos partir em Abril, quando o calor e as chuvas costumam dar uma trégua aos viajantes. Nosso objetivo era conheçer o Nororeste Argentino, cruzar os Andes para Chile pelo Paso de Jama até a iconica cidade de San Pedro de Atacama e de lá retornar pela Ruta Panamericana a Santiago, Mendoza e etc.. Este, no entanto, não era o plano traçado pela minha coluna lombar. Apenas 15 dias antes da data programada para o início da viagem minhas vértebras L-4-L5 lideraram um perverso motim que culminou com minha internação por 3 dias num hospital, uma conta de R$ 9000,00 (que não foi coberta pelo meu seguro saúde) e meses e meses de fisioterapia, RPG e exercícios até conseguir subir novamente numa moto. O ano de 2007 passou em branco em termos motociclísticos.

No início de 2008, já conseguindo enxergar o fim do túnel, começei a replanejar nossa primeira-terceira-grande viagem de moto. O Paso de Jama e San Pedro de Atacama continuavam nos planos, mas a troca de idéias, roteiros e experiências com diversos viajantes nos levaram a incluir no roteiro as cidades de Estero, Catamarca e o pouco conhecido Paso de San Francisco. Escolhemos o mês de Outubro para partir. Para minha tristeza, dessa vez meu irmão não poderia me acompanhar. Convidei dois grandes amigos de longa data para a empreitada e lá fomos nós.

Durante 15 dias conduzimos nossas amadas motocicletas por idescritíveis 8000Km de paisagens de beleza surreal. O Paso San Francisco e seus 480Km de percurso absolutamente deserto, cruzando as mais belas paisagens da La Puna a mais 4.800 m de altitude, mostrou-se como o ponto sublime da viagem. Foi a melhor viagem que fiz na vida !

De volta desta aventura, que ocorreu sem nenhum incidente maior que um pneu furado, começei a planejar minha próxima viagem; à Argentina, claro. E foi assim que chegamos aqui neste relato sobre minha segunda-grande-viagem de moto.

A idéia, ou melhor, o plano, é deixar o Brasil por Foz do Iguaçú, contornar o Paraguay por Missiones e seguir direto para Salta, a capital de fato do Noroeste Argentino. De Salta partiremos direto pela RN-51 subindo a La Puna até encontrar a famosa RN-40, que corta a Argentina de Norte a Sul, na cidade de San Antonio de Los Cobres. De lá seguiremos por 750Km de estradas secundárias de rípio (uma mistura traiçoeira de cascalho e areia) até a vila de Colchani no sul da Bolívia e às margens do grande salar de Uyuni, o maior do mundo com 140Km de extensão.

De Colchani partiremos rumo ao Chile, cruzando o altiplano por trilhas de rípio e areia e altitudes de até 5.000m. Neste trecho cruzaremos os desertos de Silioli e Dalí e algumas das paisagens mais desoldas e impressionantes do mundo ! Entraremos no Chile pelo Paso Cajón e de lá seguiremos por asfalto até a cidade de San Pedro de Atacama. Nosso próximo destino nos levará de volta à Argentina, pelo caminho menos usual, como é nossa preferência. Se as condições permitirem, cruzaremos os 400Km de rípio que separam San Pedro de Atacama de San Antonio de Los Cobres pelo Paso de Sico, um antigo e agora abandonado, caminho de ligação entre Argentina e Chile.

Em Los Cobres encontraremos novamente o leito da RN-40 que seguiremos desta vez para o Sul em direção ao Abra del Acai (o trecho rodoviário mais alto do mundo) e depois descendo gradativamente da La Puna com destino à cidade de Cafayate, uma agradável localidade fartamente provida de boas adegas e boa comida. De Cafayate partiremos para Fiambalá para cruzar, como fiz em 2008, o Paso San Francisco e cuja simples lembrança me emociona até hoje.

O cruzamento dos Pasos Andinos são sem dúvida alguma o ponto alto destas viagens. Muito embora cada local tenha seus atrativos e interesses, somente a beleza fria, desolada e grandiosa dos Pasos é capaz de marcar a alma de maneira permanente. Ao emergir do outro lado da cordilheira, aquela pessoa que inciou sua subida algumas horas passadas já não existe mais. É por isso mesmo que nesta minha segunda-grande viagem faremos estes cruzamentos, tanto quanto possível, quatro vezes para ser mais exato.

Deixando o San Francisco encontraremos no Chile a cidade de Copiapó e depois o balenário de La Serena e sua praias "magníficas". Após dois pernoites no Chile tomaremos o caminho de casa, pelo Paso de La Água Negra. Neste Paso, que cruza os Andes a impressionantes 5200 metros de altitude, a neve nunca derrete. O clima violento permite sua utilização apenas durante os 4 meses do verão, oportunidade única que não poderíamos deixar de aproveitar.

Após cruzar o Paso Água Negra tomaremos o caminho de casa passando por Córdoba, Santa Fé, Concórdia, Paso de Los Libres, Santa Maria, Ponta Grossa e finalmente São Paulo. Serão 10.000Km percorridos em 23 dias.

Apesar dos muito compromissos de fim de ano e férias conseguimos juntar um grupo grande de amigos. Iremos em 6 motos, 2 do Rio Grande do Sul (Marcelo e Glaucio) e mais 4 de São Paulo (eu, Rubens, Ricardo e Júlio). Espero que voltemos todos são e salvos e com a alma renovada. Boa viagem a todos !
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Comments

Douglas on

Grande Mac, Marcelo e demais amigos;
Estou certo de que o planejamento está perfeito e os intrumentos foram preparados a contento.
Vossa alma merece esse presente.
Boa viagem e desfrutem dessa oportunidade única.
Abraço carinhoso a todos
Douglas

Antonio Augusto Gonçalves on

Oi Marcelo ,
Vcs estão realizando um sonho não só seu , mas de várias pessoas .
Parabens pela organização e planejamento .
Uma espetacular viagem para vcs .
Estou acompanhando e torcendo pelo sucesso de todos
abrçs ,
Antonio

Ed Cotait on

Iaí, meu querido amigo MAC!
Achei aqui sem querer!
Mas, desejo a todo grupo de aventureiros uma grande jornada, repleta de alegrias e sonhos realizados!

Um grande abraço a todos!
Ed.

Leonardo Calvo on

Parabens pelas belas imagens e grandes aventuras. Esse é o espirito do Moto Aventura.
Convido a conhecer o blog www.fuidemoto.com

Abraços.

Leo.

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