The Transiberean way in (#350, Car. 3, Seat 11)

Trip Start Jun 16, 2010
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Trip End Dec 31, 2012


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Where I stayed
Trans-siberean Train #350

Flag of Russia  , Nizjnij Novgorod,
Friday, June 18, 2010

(English below)

Acordo às nove horas, deveriam ser seis da manhã (o que se passou com o fuso horário do despertador)? Tinha planeado escrever. Não dá. Escrevo no transiberiano (de onde, efectivamente, vos escrevo agora, à passagem da hora #24 desde que comecei a viagem). Corrida ao supermercado. Saímos (eu e o Ian) do hostel, mas apenas após cumprir a tradição russa de estar sentados durante um minuto sempre que se vai em viagem (a reflectir sobre o que poderá estar esquecido. E resulta uma vez que me apercebi aqui que não ia dar para manter a mesma impulsividade a tirar fotografias: afinal a bateria que tenho, tinha de durar pelo menos os próximos quatro dias de viagem do transiberiano).


O tempo permite-me comprar:

-         três pacotes de bolachas (que, em relação aos planos iniciais de comprar algo para cozinhar no samovar – já lá vamos, e de andar perfeitamente nutrido durante tão longa viagem, representa um reverso,  substituído por um regime mais de hibernação / menor dispêndio de energia, perfeitamente suportável – e com quase tantos e tão variados nutrientes). São eles um pacote de waffers de morango, um pacote de bolachas que aparentemente são do tipo 'normal' e um pacote de bolachas de canela com uva-passa – gosto muito desta palavra); e

·         uma garrafa de água de dois litros. Agora perguntam (quase vos consigo ouvir...): "e será que não há nada de especial sobre esta garrafa de água?" Há, pois claro! Tem gás! Cá está! Quando eu pensava que tinha escolhido a cor da água certa (a azul clara, normalmente é sem gás), eis que, já no comboio, quase se dá a explosão da garrafa de dois litros que eu transportava.

A caminho do comboio transiberiano, de Moscovo até Irkutsk, numa viagem que dura 92 horas (na prática são 87 horas uma vez que há um lag horário de +5 horas face a Moscovo. Ou seja, chegando a Irkutsk, fico a +8 horas de Lisboa).








A primeira hora no transiberiano


As primeiras impressões a bordo do comboio #350 (os comboios são numerados de #1 a #900, por ordem decrescente de qualidade e conforto), 3ª classe (Platskart, carruagens sem compartimentos fechados, com camas 4+2 de cada lado do corredor), carruagem #3, lugar #11.

·         As carruagens da terceira classe são as primeiras do comboio ou seja, é necessário andar vários quilómetros para lá chegar, perto da locomotiva;

·         O comboio tem um ar antigo, não mais antigo que o nosso intercidades (e começam aqui as comparações). Por fora, a sujidade das janelas faz adivinhar um ambiente pesado, não muito limpo, velho por dentro. É uma aparência que em muito engana. Por trás da azafama e confusão das pessoas que vão partir em viagem, encontro, no interior, um comboio muito limpo, organizado e até convidativo a passar longas horas de descanso... e de convívio, mais isso;



·         Cada carruagem tem um corredor principal. Ao longo desse corredor, em nove tranches de seis camas (são 54 pessoas por carruagem), estão duas camas do lado esquerdo (uma por cima e outra ao nível de lugares sentados) e quatro camas do lado direito (duas por cima, frente a frente e duas por baixo, ao nível dos lugares sentados, também frente a frente). No inicio da viagem dão-nos dois jogos de lençóis e uma almofada com capa. Não esquecer o paninho que, ao que consta, é um grande suporte para a higiene dos locais. Os cobertores estão na última prateleira. A carruagem tem, em cada uma das extremidades, uma casa de banho (estamos a falar de 27 pessoas por casa de banho. Numa das extremidades há também um samovar: uma caldeira grande que fornece água quente (a 90 graus) a todos;

·         A paisagem. O verde é dominante, organizado em dois ou três layers: vegetação baixa seguido de uma parede de árvores altas com 7 ou 8 metros, algumas são pinheiros bravos e planície ao fundo. Avistam-se, também, aqui e ali, casas de madeira pequenas, lagos no meio do verde e muitos cabos de electricidade (parece que houve um upgrade das estruturas há uns anos atrás, não acompanhada pela remoção da estrutura antiga). Também se avistam pessoas muito esporadicamente (um pastor mais as suas cabras, foram das poucas excepções);

·          A banda sonora do comboio (sim, tem “música de elevador”): em peso, temos músicas dos festivais da Eurovisão, russas (com grande potencial, pelo menos, para alcançar finais). E reggaton... russo. O comboio tem um regulador do volume da música por cima de cada janela;

·         À minha volta, as famílias. Quase todas russas (aparentemente, pelo menos) e algumas orientais. Vêm-se famílias nucleares, com muitos miúdos, pai e filho ou babushka (‘avó’) e neta. Este é o principal meio de deslocação das famílias russas por todo o território. É um lower-budget, equivalente ao nosso inter-cidades. Nota-se, entre as pessoas, um grau de afectividade grande. Todos comunicam muito entre todos, sorriem, riem, jogam às cartas, aos jogos do telemóvel e fazem palavras cruzadas em comunidade, dois a dois. Passam o tempo como podem. Por vezes simplesmente contemplando a paisagem quase que olhando sem estar a ver. Quando nada disto serve, puxam o colchão para cima do bando e deitam-se;

·         À minha frente está sentado o Tim (11 anos) e o seu pai. O Tim sabe inglês, um pouco, o suficiente para eu perceber que vem de S. Petersburgo e que vai de férias com o pai para Ufa, a cerca de 1.200 km de Moscovo. Digo-lhe que sou de Portugal e, não percebendo bem por quê, o miúdo assume, a espaços, que tenho o nível intermédio de russo (por vezes fala comigo convictamente como se eu estivesse a perceber o que quer que seja). Simpático e tímido. O pai rapidamente vai dormir para a cama de cima. Peço-lhe para desenhar qualquer coisa no meu guest book (o caderno que trago, em branco – agora já não, para recolher algo das pessoas com quem me vou cruzando por estes dias). Desenha-me um cão (the dog, como assina), um gato (the cat), um elefante (the elephant) e dois comboios em paralelo, ao longo de uma linha. Desenha muito bem. Eu retribuo-lhe com o meu clássico cartoon surfer. Quando o pai acorda, socorro-me do phrase book do guia lonely planet Russia para comunicar. Este phrase book não está feito para conhecer ninguém, só para estar perdido ou aleijado ou com fome ou sem fome nenhuma simplesmente porque a refeição correu mal (“u me-nya ba-lit-zhe-lu-dak”, “i have a stomachache”). O pai fez-me um desenho do trajecto de férias que estavam a fazer e ainda me mostrou umas fotos em família;

·         A alimentação no Transiberiano (expecto a minha. Não falo mais de bolachas nem água com gás..embora gostasse...): Muita gente traz lancheira, sacos de plástico ou mesmo malas de viagem de comida. Na 3ª classe são poucas as pessoas que compram qualquer coisa às senhoras que vão passando por aqui com uma bandeja com alimentos e bebidas. Relativamente a alimentação:

o   Muita gente recorre ao samovar para ir buscar água para o chá ou simplesmente para beber ou aquecer comida pré-feita. Mas o que é mesmo popular por aqui é o all o’clock tea. Chá a toda a hora (sempre é hora de ponta para o samovar);

o   Agua com gás e sem gás. Agua quente;

o   Café solúvel;

o   Sopas em pó;

o   Pepino cru, muita gente a degustar isto;

o   Iogurtes líquidos, sólidos, de fruta;

o   Queijo e enchidos, no pão ou não;

o   Massas com carne (instantâneo, basta juntar a água quente do samovar);

o   Pevides (de girasol): o descasque transforma-se quase num desporto, por estes dias.

o   Batatas fritas (pringles ou outras) e outros pretzls;

o   Bolachas (não sou só eu. E oferecem comida quando estamos a olhar muito que nem o gato das botas);

Depois da primeira hora no transiberiano, vieram as seguintes, e mais pessoas e novas emoções.

Do meu lado esquerdo, uma miúda e a sua babushka (avó). Simpáticas, rejeitaram o meu pedido para ME tirar uma foto. Só acederam quando perceberam que não era a elas  (realmente, muita gente relutante em tirar uma foto. Mesmo assim consegui a minha com a responsável máxima da senhora que garante a “impecabilidade” da carruagem #3). Comunicam por sorrisos, inconsequentes uma vez que acabei de escrever num papel e em russo, quem é que estava a cantar (Eurovisão, música de fundo). A resposta foi um não muito acentuado. Só estava a tentar ser simpático e aprender um bocado.



Mais pessoas, para o meu compartimento open-space:

·         Duas senhoras Russas de meia-idade. Sorridentes. O que é que fazem a seguir? Dormir! Directo. É o que faço, não sem antes visitar a mítica casa-de-banho-única-de-carruagem-de-comboio-de-numeração-avançada-e-de-classe-que-não-é-uma-boa-classe.

A casa de banho da 3ª classe do comboio #350 durante uma viagem que dura 96 horas:

Remeto, mais uma vez, para a ferrovia portuguesa. Para o nosso inter-cidades. São 1,5 metros quadrados de espaço claustrofóbico, causado, em grande parte, pelo aroma ventilado pelas principais peças de hardware desse espaço e que obriga a que, a inalar alguma coisa, que seja pela boca. Alternativamente temos o exercício David Coperfieldiano que consiste em estar cerca de 9 minutos sem respirar enquanto se habita a casa de banho. O chão faz lembrar plantações de arroz: todo Molhado, com algumas ilhas de solo seco devido à irregularidade do soalho. Não se chamaria imundo, no entanto. Mas, ainda assim, há espaço suficiente para, assim pretendendo, não chegar a tocar em nenhum rebordo do tal hardware instalado: A sanita (where to flush it? Uma grande questão que me assombrou...mas ficou lá para trás, ao fundo do corredor. Mais tarde, noutra visita, reparei no pedal junto ao chão) e um lavatório mais espelho. O que confere aquele traço feng shui ao espaço é aquela janela, permanentemente aberta como se os vapores pudessem sufocar qualquer ser vivo lá dentro. Insectos? Nem vê-los! Foi uma visita fantástica. Amanhã há mais. No final disto, tenho de me lembrar, numa próxima vez, de não vir a este espaço mesmo antes do turno de limpeza. Confesso que a primeira impressão não foi a melhor precisamente por ter vindo depois de todas as outras 26 pessoas o terem feito. Quiçá várias vezes!



A 350ª SINFONÍA

Dou como encerrado o dia às 21 horas. Mesmo a tempo de entrar para um grande concerto da mais tranquilizante música clássica. Tudo isto aqui na carruagem, acreditam?

E tudo se dá quando começa a pairar no ar uma sonolência generalizada. A harmoniosa melodia arranca. Obués, Tubas, Trombones, reco-recos (incrível numa sinfonia, não é?) e os bem conhecidos e mais que muitos ‘Ronconcellos ‘, estão presentes esta noite.

Na abertura, um ‘ronconcello’ soprano, timidamente abre as hostes, iniciando a solo. A babushka, do outro lado do corredor, dá o mote. É seguido, sem demora, por um tenor muito ‘pavarottiano’ tanto no chilrear como na dimensão da carcaça, que passa rapidamente para a linha da frente, fazendo esquecer a simpática avozinha. A senhora à minha frente, na cama de cima, marca o compasso. O pé vai dando vigorosas guinadas, contagiada, certamente, pelo certame sonoro que se assiste por esta hora. Entretanto, a neta, Yulia de seu nome, tenta, sem sucesso, apaziguar o solo sua babushka, dando-lhe um pequeno encosto com a mão. Desarmada, a neta, sucumbe ao cansaço e inicia, também ela, uma melodia bem capaz de ombrear com o tenor de há pouco que agora dá sinais de estar acordado.

A pergunta: como se dorme no transiberiano? Não se dorme. Ou vai-se dormindo em tranches de 1, 2, 3 horas. Só espero é também ter contribuído para a sinfonia em algum ponto da noite. De barriga para cima, assim somos todos uns para os outros.

Lá fora nunca chega a anoitecer. Estou de frente para a janela (ao contrário de todos os outros), com a cabeça virada para o corredor (é a melhor maneira de descansar os olhos quando não tenho sono). O banco, que à noite é cama, tem exactamente a minha altura de comprimento.

E amanhã? Já se vê isso!

______________

(and now in english)



Woke up three hours later than expected! My clock was not adjusted for the Russian Time, so, it was rushing all morning. I really enjoyed my five minute last decent shower to take in a week! After that, I went, along with Ian, to the supermarket on our way to the station. I needed to buy some food and drinks for the following four transiberean days. Time pressure took me to take only three packs of cookies and two liters of gas water (damn, I should have picked the other bottle). Arrived to station in time. Made my way to the seat 11, car. 3 of the train #350. I land in the middle of some big russian families in a great local environment, just as I imagined. The train looks old and uncleaned from the outside but, in fact, first impressions mistake me and this is the perfect example. Sure the place is not big in space but it has a very neat look, with clean sheets and a pillow being delivered to us as the ticket is validated. From that point on it’s time to interact with the local environment. A father and his sun are sat in front of me. The boy speaks a little english and the father, very friendly, only manages to draw, in an improvised map, their holiday destinations and where they were headed. There is a boiler in each carriage, called samovar. Tea is very popular among the locals. One only need to get some boiling water out of the device (the only thing that’s free). The train has music, popular Russian music and some that reminds us of the glorious eurovision nights. People sleep every three/four hours, that’s how they kill time (when they are sick of eating, playing cards, solving sudokus or Cyrillic cross words. Another thing to discover (mandatory, of course) is the bathroom, the only one for 54 people: really tiny, not that cleaned and only bearable for really short periods of time! I got to bed at 9 pm. The night (always light in the outside) is not that quiet.. people tend to sleep really loud.
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