Chegando à casa

Trip Start Aug 21, 2008
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Trip End Ongoing


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Flag of Angola  ,
Saturday, March 28, 2009

A tarde já se despedia e quando assim é, as perspectivas de avançar convenientemente são anorécticas. Ainda assim e para que não ficasse com uma má ideia do meu próprio país quando tivesse de o comparar com os outros, as boleias apareceram umas atrás das outras. Até os carros que vinham no outro sentido paravam para me dar dois dedos de conversa. O primeiro dread parou para me levar uns escassos 400 metros e logo a seguir, antes mesmo perder de vista a minha última boleia, apareceu uma pickup Mitsubishi em gás, que parou assim que me viu esticar o polegar. Tinha 5 chineses lá dentro e eles nem se deram ao trabalho de baixar a janela para cumprimentar, me fizeram só o sinal para subir na quintal da jipi. Andámos bwé por essa estrada enlameada, vimos carros que por lá ficaram, tentámos caminhos alternativos que corriam a um escasso metro das pipelines da Total, passámos mal em alguns troços e quando eles finalmente me depositaram desculpando-se "amigo hoji fical aqui", eu agradeci imenso. Olhando para frente vi camiões virados para Luanda. Apressei o passo, sem chinelos e enterrando-me várias vezes quase até aos joelhos na lama, tentei apanhar os camiões e quando me aproximei perguntei se tinham um lugar. Todos responderam negativamente e depois todos começaram a berrar a chamarem-se uns aos outros "ehhhh xê vem ver Jêzuis". Um deles estava enterrado e eu disse que se mudassem de ideias me agarravam "lá frente". Mas a noite caía pesada empurrando o Sol para atrás daquela linha que parece sempre "já ali atrás do monte" e eu sei que de noite o mais sensato é parar e dormir. No entanto, algo me dizia que um daqueles camiões havia de ter piedade e apanhar-me caso continuassem para Luanda, por isso andei, andei e já a noite ia cerradíssima quando cheguei ao Tombe, uma aldeia com a rua principal toda iluminada graças a um gerador que "o governo" vem abastecer todos os dias. Aqui fui assediado por duas velhas bêbedas que queriam catar-me alguns kwanzas para mais kapuka, ou outro tipo de prenda que eu lhes pudesse produzir de dentro da minha mochilona. Desembaracei-me delas já um pouco impaciente e avancei até a escuridão, onde descobri que afinal, sem luz, corria o risco de tomar um banho de lama e assim sendo encostei-me à berma da primeira casa que encontrei, sem no entanto entrar. Foram transeuntes que me viram ali sentado que anunciaram aos donos da casa que tinha ali um estrangeiro e estes depois de me ouvirem com alguma curiosidade me disseram que se eu me cansasse de esperar que podia entrar e dormir ali. Três dos cinco camiões passaram sem parar, os outros dois nunca vieram e eu acabei por aceitar o convite, estava estafado. Por pouco não me arrependi. Os rapazes eram, para além de outras coisas, os padeiros da aldeia e nesse dia não tinha havido pão, o que implicava que eles teriam de ficar a trabalhar a noite toda para satisfazer a procura do dia seguinte. Até aqui não tem maka. A maka foi que, uns minutos depois de eu entrar, chegou um dread com uma bateria enorme e um boombox dos anos 80 que colocou na esteira que tinham acabado de me oferecer para me esticar mas que fui lento demais a ocupar. O rádio ligou-se e a música, estranhíssima, parecia querer rebentar com os tweeters. Que barulheira na aldeia, era a primeira vez que via um ambiente tão tranquilo ser brutalizado daquela maneira, mas revoltante mesmo, do estilo o velho Fritzl que insistentemente violentou a própria filha durante 24 anos e lhe fez 7 filhos-netos. Desse tipo. Mas porra, eles pareciam radiantes, como se tivessem tomado uma droga qualquer, muita cafeína com pau de Cabinda, estavam completamente lançados para uma noite de amassar e meter na fornaça. E a música, a música parecia uma interminável peça tocada pela orquestra do exército congolês, um cd inteiro, lembrava uma sessão de improviso ordenado que foi cortado em faixas, de tal maneira que nem nos dávamos conta que as faixas iam mudando. A verdade é que eu adormeci a escassos 4 metros desse rádio com mais meia dúzia de putos curiosos que ficaram ali a olhar para mim como se eu tivesse acabado de chegar de Plutão. Eventualmente houve uma pausa, tréguas... até as 5 da manhã, depois recomeçou a sessão de tortura. Levantei-me, arrumei as bikuatas, despedi o pessoal e depois fui uns metros mais à frente despedir-me do filho do Soba com quem tinha tido uma conversa interessantíssima na noite anterior. Contou-me sobre os seus sonhos e aspirações e contou-me sobre os anos da guerra quando a aldeia dele foi tomada pela UNITA durante uns tempos. Falou-me de como funciona o sistema do sobado e sinceramente fiquei com uma impressão totalmente oposta ao meu anterior preconceito; parece-me um sistema infinitamente mais democrático que o nosso parlamentar. Verdade seja dita, é mais fácil ser democrático com um grupo mais pequeno, razão pela qual (uma das) eu acho que deveríamos começar a preocupar-nos em fazer uma revisão a esse organigrama do poder que não consegue mais do que formar castas; uma kambada de gatunos que nunca têm de sair a rua e confrontar-se frente à frente com a miséria que causam a todos esses infelizes Zés Ninguém, os receptáculos directos da incompetência de quem nunca tem de prestar contas, que arcam invariavelmente com os danos colaterais inerentes da missão suprema de se criar uma classe média e uma burguesia, a mesma burguesia que esses mesmos senhores combateram há não muitos anos atrás... nojentos!
Mal saí, acompanhado pelo Soba, passou um camião que parou. Lá dentro ia um motorista mangolê e... um dos chineses que iam na Mitsubishi do dia anterior. Avançaram-me para caraças e depois brotei um pouco a butes, com muita alegria minha de poder respirar um pouco daquele ar do Zaire. Não muito tempo depois um camião parou e propôs-se levar-me até ao entroncamento onde virando à esquerda vamos para Mbanza Congo e à direita seguimos o percurso para Luanda. O camião era um dos dois que ficou a faltar na contagem do dia anterior, tinham decidido ficar lá por trás para descansar e, assim que me viram, cataram o artista. Chegados ao entroncamento, o próprio motorista desceu para ir apalavrar a próxima boleia com o veículo da rádio nacional que encontrámos virado para Luanda. O motorista ofereceu resistência, mas os radialistas que vieram logo atrás convidaram-me imediatamente para seguir com eles. Chegados ao Nzetu, saiu a primeira entrevista, seguida de convite para lá dormir caso não conseguisse avançar mais. Mas ainda era cedo, claro que eu ia conseguir, o meu plano era mostrar àqueles que disseram que ia levar no mínimo 5 dias até Luanda que não teria de passar mais de uma noite no caminho. E assim foi, depois de andar bastante sob aquela soalheira que nos faz sentir em banho-maria, apareceu uma carrinha sul coreana com dois polícias que me pediram o passaporte e finalmente me mandaram subir na quintal da jipi. Atrás iam outros 3 passageiros irradiando um optimismo quase irritante de tão ingénuo, prevendo a chegada à Luanda para as 18h30. Seriam já 16 e estávamos a mais ou menos 200 km. Como se não bastasse o estado da estrada, começou a cair uma chuva altamente inoportuna e fomos invadidos por moscas tsé-tsé que nos ferraram feio. Nos últimos dias (desde o Congo) já tinha passado muito mal em quintais de jipe e muitas foram as vezes que pensei em pedir para parar e me deixar já ali que queria dormir e continuaria de outra forma mais tarde, logo se via. Foi também a primeira vez que uma chuva (ainda para mais torrencial), me apanhou desabrigado. De modo algo conveniente, tinha um banco de mota que partilhei com um dos passageiros e, grande fezada, uma lona que estava a cobrir as colunas do boda, mas que felizmente era suficientemente grande para nos cobrir também. Isso facilitou um pouco a viagem que nem por isso se tornou confortável, mas não pude deixar de contemplar o lado positivo e pensar que poderia ter sido bem pior. Entretanto também tinham uns jerricans de combustível que foram vertendo e mais com a chuva, acabou por impregnar a minha mochila, deixando um cheiro pestilento em toda a minha roupa e destruindo o livro do meu irmão "L'enfant noir" do Camara Laye, que aconselho vivamente a ti que acompanhaste o blog. O kota ainda ameaçou "epá a malta hoje vai dormir no Ambriz", mas para minha enorme alegria abandonou essa ideia e continuou directo até Luanda, onde chegámos por volta da 1h30 da matina. "Ahhh.. as 18h30 estamos lá".
 
O kota ou era maldoso, ou só insensato, vou dar-lhe o desconto por causa do sono (ele teve de parar umas 4 vezes para lavar a cara com água gelada, já no bom asfalto, depois da Barra do Dande, não estava a passar dos 40 kmh), ou terá sido o copo, que também adormeceu o seu co-piloto, a verdade é que, depois de uma viagem tão longa até Luanda, a única coisa que não se faz é abandonar o passageiro a 1h30 da matina no Sambizanga né? Eu ainda quis acreditar que era só manter o espírito positivo que vinha carregando até aqui, mas as probabilidades fizeram o seu jogo limpo e eu não terei feito 10 passos até que um grupo de jovens metesse uma conversa chata num tom agressivo. Continuei a andar, mas eles acompanharam-me, eram 5 e disseram as coisas do costume: "não faz muita confusão, se não queres morrer dá só tudo o que tens". "Claro que não vou fazer confusão e claro que vou dar tudo, mas aviso já que não é muito, só para não ficarem nervosos quando virem o que tenho". Tinha os 15 USD que me tinha dado o taxista em Cabinda (ele bem disse que podia vir a precisar deles) e mais uns trocos do kumbú que o Kelson me tinha dado. Arrancaram-me a bolsa e perdi alguns dos papéis com contactos do pessoal que encontrei no caminho. Isto tudo sem parar de andar; fui acompanhado até a saída do Sambila onde me disseram para meter a mochila no chão para revistarem. Antecipei-me anunciando que sabia qual seria a única coisa que lhes interessaria e extraí da mochila a máquina fotográfica e a pen drive (que eles encontraram). Isso satisfê-los e deixaram-me em paz. Logo que eles deram costas apareceram outros rapazes preocupados com a minha integridade física, pedindo desculpa pelo mau estar causado pelos outros e implorando que não fosse para casa essa noite, que podia encontrar outros bandidos no caminho, para dormir ali na casa de um deles e de manhã pela fresquinha voltava para a minha família. Aceitei e pensei que ia poder aproveitar para procurar o meu amigo Sacerdote que de certeza que ia mexer os seus pauzinhos para descobrir quem tinha levado os mambos. Voltando para trás, outro grupo meteu conversa e quando pedi a um deles que fosse chamar o Sacerdote e dizer-lhe que o amigo dele Mata-Frakuxz tinha chegado e queria lhe falar, o dread que estava a minha frente parou, começou a rir e perguntou "Mata-Frakuxz... Brigadeiro Mata Frakuxz?" Aí percebi a sensação do Bond...James Bond quando interpelado. O mano conhecia os meus sons, convidou-me a pitar qualquer cena e fomos procurar o Sacerdote. Nada feito, já devia estar a dormir. Combinámos para de manhã.
Assim que vi o Sacer e lhe contei o que se passou, tal como esperava, ele virou o Sambila do avesso até descobrir quem tinha feito aquilo e quando saí de lá ao meio dia e tal foi com a certeza que os mambos haveriam de voltar para a minha mão. Não me enganei, no dia seguinte recuperei a pen e a digital, com todas as fotos e mais algumas, os bandidos já tinham estreado a cena, sem perder tempo. Só me estragaram a foto de chegada, com a família, barbudo e imundo, mas epá, há coisas piores, tais como as que me aconteceram nos dias subsequentes a minha chegada: levei corte da minha dama de 9 anos, apanhei paludismo, escapei parar com alergia a um medicamento que acho que não se deu muito bem com o paracetamol e deixou-me o corpo todo inflamado, voltou-me a dor de dente mortal...

O que vale é que no meio de tanta perda, ganhei umas fotos dos ladrões que partilho aqui convosco.

Cheguei ao portão da minha casa no dia 1 de Março de 2009, 6 meses e 1 semana depois da partida. Gritei pela minha avó para que ela me viesse abrir e fundimo-nos num abraço de descompressão regado de lágrimas de uma alegria ímpar, as mesmas que chorei depois com a minha mãe quando falámos ao telefone, a alegria da família que a cada dia se perguntava onde estava, se estaria a comer, a beber, de saúde, sem azares de outra índole, uma alegria distinta e avassaladora. Estou em casa e dessa vez vim para ficar!
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Comments

immase
immase on

:)
Isto só comprova uma coisa... É dreda ser angolano!!!!

Valeu mesmo!

salvat3rra
salvat3rra on

lua
parabens man. Inspirado. A unica coisa constante no mundo e a mudanca, e o dia seguinte so existe para nos tornar mais fortes / n me lembro bem quem disse mas imagino q te devas sentir bem mais forte hj em relacao ao dia em q partiste.

Apanho te em Lda num dia destes pra cuspirmos juntos, jogar tenis, ou regurgitar frustracoes e ideias sobre a nossa Angola.

parabens bro.

Salvaterra

sindoka
sindoka on

parabéns!!
Luaty, Ikono.....epah estive a ler a ultima parte, e realmente só tenho a dizer: és um heroi....poe em livro, e faz-nos ( a mim pelo menos) 'delirar' como o Ryszard Kapuscinski em Ebano- Febre Africana (recomendo vivamente este precioso livro)....um grande abraço, mts parabéns e welcome to our land, a nossa banda..mts felicidades.....É DREDA SER ANGOLANO!!

pequenolino on

mto dread Ikonoklasta, ja xto a espera do book...lol

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