Cabinda

Trip Start Aug 21, 2008
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Trip End Ongoing


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Flag of Angola  ,
Friday, March 27, 2009

  A emoção ao ver aqueles uniformes brancos da imigração e ser cumprimentado "bô tarde" foi muita e difícil de verbalizar. Um sentimento estranho me percorreu da cabeça aos pés, sentimento que, como "cidadão do mundo", identifiquei como sendo a futilidade do patriotismo que me lavra a alma, o patriotismo do qual nenhum nível de educação ou diversidade na localização geográfica me conseguiu purgar. Essa sensação que não é necessariamente de superioridade, simplesmente de identificação com um conjunto de códigos que me tenho tentado habituar a negligenciar em prol de outros mais universais, de códigos humanos que nos unem em vez de nos diferenciar. Continuo a tentar descortinar melhor esse sentimento para melhor poder lidar com ele e para que, não se venha no futuro a tornar em algo mais desagradável do estilo um ultra nacionalismo hitleriano cego. Entretanto foi esse sentimento que me deu uma fraqueza nos joelhos, me obrigou a sentar, tirar a minha bandeira de Angola que tinha estado no fundo da mochila desde o início da minha viagem e, aproveitando o raro momento de solidão que tive para contemplar tudo o que tinha percorrido até pisar na minha terra, me encheu de comoção e uma miríade de complexas sensações que me obrigaram a verter algumas lágrimas. Imagino que seriam as mesmas que verteria um corredor de fundo que se prepara durante anos para uma prova mundial da qual sai vitorioso entre centenas de outros atletas.

Quando cheguei para me carimbarem o passaporte, tinha um jovem sentado no muro, um jovem que me lembrou muito de um colega que tive quando trabalhei como colaborador na LAC, um dos manos que trabalhava como técnico de som e que hoje é DJ. Esse mano, ouvindo a minha conversa com o chefe de posto propôs-se levar-me até Cabinda, a capital da província, que fica a mais ou menos 90 km da fronteira. O mwadié de seu nome Kelson, tinha vindo buscar carros que vieram pelo porto de Pointe Noire e que o padrasto dele vende em Cabinda. Foi num Mazda linhoso (já não tanto para o europeu que se desembaraçou dele) que arrancámos dali a todo o gás entre aclamações de "Jesus" ou "Bin Laden" em minha direcção. Levou-me a dormir no kubico dele onde vive com outros dois irmãos, conversámos bwé, deram-me pitéu e todos mambos. No dia seguinte fomos ver a situação do barco que fazia o trajecto Cabinda - Soyo pois não tinha a mínima vontade de ainda ter de encarar uma fronteira estrangeira depois de já ter pisado no meu país, muito menos quando essa fronteira seria a da RDC, um país com conflito decorrente. O problema é que o ferry, apesar de hiper novo (menos de um ano), estava já ancorado com uma avaria matracaica que o impossibilitava de se lançar em alto mar. Bwé bonito comprar as coisas, mas quando não sabemos operá-las nem temos pessoal qualificado para a manutenção, essas coisas tornam-se potenciais candidatas a ferro-velho antes da devida altura.

Fui então ver com os pescadores se alguma chata fazia o trajecto e a resposta foi positiva mas um coxe assustadora, isto porque a viagem levaria a volta de 10h, 4 das quais cortando por noite cerrada, ainda para mais em época de chuva e mares turbulentos. Eu não fiz 13000 km para vir correr riscos desnecessários a porta de casa. Lá terei eu de atravessar aqueles 30 km de RDC. Ou teria, se o Kelson não se tivesse oferecido para me meter no avião da TAAG até ao Soyo. Custo 4000 kzw. "Mas comé, não queres ir já até Luanda? O avião que te deixa no Soyo depois continua até lá". "Seria morrer de sede em frente ao mar mano, tenho de terminar esta viagem como me propus. Batotar aqui em casa ia deixar-me uma eterna sensação de incompletude". Mas obrigado pelo gesto mô irmão. Passei mais uma noite com os manos e às 7h20 da matina do dia seguinte o Kelson foi depositar-me no aeroporto, um aeroporto muito catita diga-se de passagem. O avião estava previsto para as 11h30, check-in as 9h30. Mesmo depois de eu ter falado com o kota da TAAG e ele me ter garantido que me conseguia o lugar, o Kelson não quis abandonar o posto enquanto não viu o dito cujo na minha mão e teve a certeza que eu iria embarcar. Granda mangas.

No aero ainda deu tempo para reunir um pessoal a volta de mim e contar pela enésima vez o meu percurso, o que me granjeou 15 USD da parte de um dos taxistas impressionados que ali aguardavam cliente. Claro que o avião só saiu dali as 15 e tal, mas no Soyo consegui logo uma boleia que me deixou no limite da cidade, aonde termina o asfalto. A aventura recomeça pela última vez. Luanda no horizonte
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