O Grande Zimbábue

Trip Start Oct 12, 2010
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Trip End Dec 31, 2012


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Flag of Zimbabwe  ,
Tuesday, October 26, 2010

Por Robson

Seguindo no Projeto 20°12', chegamos a um dia muito especial, além de cruzar pela primeira vez no Zimbábue o paralelo 20°12' Sul em 30°52' Leste, que deu origem a todo este projeto, visitaremos o sítio histórico que deu nome ao país.


 
Acordamos sem energia elétrica. Como todos os outros hotéis que conhecemos em Masvingo, o banho no que ficamos era de banheira. Mas não animamos de enchê-la. Então improvisamos. Carol e eu tomamos banho sem muita dificuldade, um ajudando o outro como podia, ficamos agachados e usamos a saboneteira para elevar a água quando necessário. 

Já o Guilherme, comprovou que é nos momentos de dificuldade que a criatividade realmente desperta no ser. Ele improvisou uma ducha com garrafas de água mineral que tínhamos no quarto. Encheu uma e outra: pronto! É só espremer! E... fiat dux (traduzindo para o português: 'fez-se a ducha')  :-)

Desci para trazer o carro, que estava em um estacionamento lateral do hotel, para um local onde fosse mais fácil arrumar as mochilas e malas. Quem estava na recepção? Precious. As escalas de trabalho na África não são usuais para nós. Não é raro ver o mesmo funcionário de manhã, de tarde e à noite. Cheguei no estacionamento e, surpresa! Surpresa boa. Nosso carro tinha acabado de ser lavado! Um cara estava lá com um balde, lavando todos os carros do estacionamento. Na hora que ele me viu abrindo o carro, se antecipou e entrou no carro na mesma hora para terminar o serviço, limpando por dentro. Eu sem entender muita coisa fiquei por ali acompanhando o serviço. Como eu estava demorando o Guilherme também chegou e disse que não havia encomendado o serviço. De qualquer forma foi estávamos precisando, foi em boa hora.

O Zimbábue já foi o celeiro da África e um dos países mais promissores do continente, mas após anos sucessivos de recessão, com uma hiperinflação que levou muita gente a emigrar do país, a situação econômica do país atualmente é só uma sombra do que já foi um dia. O nível de desemprego é alto. Imaginamos que esse lavador é um dos empreendedores que viu uma necessidade de mercado e aproveitou a oportunidade e assumindo o risco de fazer um serviço sem remuneração certa. O pior nessas situações de turista estrangeiro no país dos outros é que vc não tem a menor referência de quanto é justo pelo serviço no local. US$1? US$2? US$5? US$10? Discutimos o que seria justo e testamos. O lavador abriu um sorriso de orelha a orelha ao ver a recompensa pelo seu trabalho. Então, ficamos todos felizes!

Na hora de tirar o carro do estacionamento, manobramos com cuidado, um dentro e outro fora do carro guiando. Quando estávamos já em posição para sair, chegou o condutor do carro que estava atrás do nosso. Ele olhou a lateral do carro dele e nos acusou de ter batido. Falamos que não batemos e depois mostramos que não havia como amassar o carro dele com o nosso, naquele ponto, porque nosso parachoque era muito mais alto. O lavador que testemunhou nosso cuidado para manobrar o carro e ficou injuriado com a acusação, mas não se sentiu à vontade para se meter na discussão. Um funcionário do hotel que também estava por perto, também não tomou partido. Por fim o cara se convenceu que aquela discussão não ia dar em nada e foi embora. Nós também (com uma pulga atrás da orelha, porque afinal a gente nunca sabe "com que está falando"). 

Finalmente tiramos o carro do estacionamento e voltamos para 'resgatar' a Carol com as malas no Hall do hotel antes do café.

O café da manhã tinha algumas coisas além do tradicional café inglês. E praticamente tudo lá era embalado com filme de PVC. Já havia dito que o hotel era limpo, isso só reforçou. Nossos ovos e omeletes demoraram um pouco, aproveitamos para conversar com o garçon, que era bastante educado e solícito, e aprendemos algumas palavras novas e hábitos locais. Uma demonstração de educação é ao cumprimentar alguém. Da mesma forma que nós, eles cumprimentam com a mão direita, mas a mão esquerda também participa. O braço esquerdo cruza à frente do corpo e a mão esquerda apóia o antebraço, ou o cotovelo direito. Lendo assim pode não ser tão fácil de entender, mas quando me encontrar, me lembre que eu te mostro. Esse gesto também é utilizado quando se recebe alguma coisa de valor. Como dinheiro, ou um presente. Outra coisa, em um restaurante ou na casa de alguém, quando o garçon ou o anfitrião trazem a comida, é educado bater palmas duas vezes tá-tá.

Antes de sair do hotel, pedi para a Precious transmitir à gerente nossa boa impressão do hotel, principalmente no quesito limpeza, que para nós é fundamental. Ela fez questão de me levar à gerente para falar pessoalmente. A gerente me recebeu muito bem, se tivesse um tapete vermelho estenderia para mim. Pediu que sentasse, se interessou pela nossa viagem e ao final me deu seu cartão de visitas. Reclamar sempre é fácil, mas reconhecer o bom trabalho, apesar de 'difícil' é fundamental para estimular a manutenção do nível de serviços.

De volta à estrada. Quase em frente ao hotel, cruzando a linha férrea, havia um centro de visitantes do Grande Zimbábue, com um belo jacarandá florido em sua entrada. Curiosidade: O jacarandá é uma árvore originária do Brasil, mas muito comum no Zimbábue, sendo inclusive um dos símbolos das ruas capital Harare. Não havia muita informação no local e nem material impresso. Eles me ofereceram um livro de visitas para assinar, dizer de onde vim, quantas pessoas viajam comigo... Uma facilidade que havia lá era uma lista com os telefones de outras opções de hospedagem mais próximas ao Grande Zimbábue. Então essa dica fica para você que está lendo. Quando chegar lá, vá direto ao centro de informações para pedir orientação e contatar os hotéis e pousadas.
 
O Grande Zimbábue (Great Zimbabwe) é o local que emprestou seu nome ao país. Zimbabwe significa "Casa de pedra". 

Um pouquinho de História... No século 16 mercadores portugueses chegaram na região buscando riquezas e ouro. Eles esperavam encontrar as minas do rei Salomão e a misteiosa terra de Ophir. No século 19 os ingleses chegaram e o Zimbábue ficou sendo uma colônia até 1980 (juntamente com o vizinho do norte: Zâmbia), em um país que se chamava Rodésia. Quando da independência, os habitantes do sul da Rodésia buscaram algo que simbolizasse a liberdade do novo país e se voltaram para o Grande Zimbábue, uma construção portentosa que foi habitada por vários reis da tribo Shona de 1.100 a 1450 dC, quando eles eram 'livres' e os europeus ainda não haviam chegado. Os shona acabaram abandonando a área, mas resistiram como povo até o século 19, com um período de dissidência e outro de reunificação.

Chegamos por volta de 10:00 ao Grande Zimbábue. O dia estava friozinho, com um pouco de neblina e garoando. Nada parecido com o dia anterior, com aquele calor abafado até altas horas da madrugada. Uma família de macacos "nos esperava" na entrada do Parque.

Procedimentos de entrada de praxe, ingresso na mão, fomos ao ponto de reunião dos guias. Lá encontramos o Guia Steve. Mais um apaixonado por futebol brasileiro que não conseguiu segurar a língua e perguntou logo de cara: "Por que vocês não trouxeram o Ronaldo para a copa?". De bate-pronto respondemos que o técnico foi muito infeliz e que devia ter trazido o cara! E que todos nós ficamos desapontados. Estávamos no mesmo time! :-)

Além de nós, um outro casal que havia chegado mais cedo (aparentemente europeu) estava também estava explorando o local.   Não dava para ver muita coisa de longe e nem deixar as máquinas expostas por muito tempo por causa do tempo. Mas Steve era um cara animado, com muito conhecimento do local, nos levou inicialmente a um museu (onde era proibido tirar fotos), contou sobre o povo Shona, era um povo mercador, caçador e coletor, não plantavam e nem criavam gado, seus domínios íam desde o Índico até algum lugar mais a oeste dali. No museu estão expostos vestígios arqueológicos que indicavam comércio com chineses e árabes antes mesmo da chegada dos europeus. Existem maquetes educativas das construções, onde o guia explica como eram construídas as muralhas: A principal técnica usada na "pedreira" era o choque térmico para gerar pedras menores, que podiam ser talhadas em tijolos. Depois do controle de qualidade, as peças melhores ficavam do lado de fora e as de menor qualidade, no interior das muralhas . Ele mostrou também réplicas de estátuas de pássaros. Cada dinastia tinha uma estátua diferente, uma delas é a que hoje estampa a bandeira do país. Depois fomos explorar o local.

A visita começa com a subida de um morrinho para se chegar à construção que era ocupada pelo rei. Passagens estreitas dão acesso à construção. Uma estratégia de defesa para dificultar um eventual ataque inimigo, já que os soldados teriam que entrar um de cada vez.
 
Os Shona possuíam conhecimentos de astronomia e as estações do ano. Segundo o guia, os reis tinham uma dieta controlada e chegavam a viver 120-130 anos (TRUCO!). Segundo ele, com receitas a base de crocodilo e pimenta preparadas pelos curandeiros do reino. Mas a informação mais inusitada foi que o último rei tinha 250 esposas e cada uma tinha em média 10 filhos! Você acha sua vida em família complicada? Reveja seus conceitos! Ficamos muito curiosos para saber como era a rotina da família real... O Steeve falou algo sobre uma divisão das esposas seniores e juniores, mas não entramos em mais detalhes. A sorte é que ao que tudo indica, o conceito de herança era diferente para eles. Houve um tempo em que até mesmo na Europa, o homem pertencia à terra e não o contrário. Os Shona provavelmente viviam assim. Com a morte do rei, um outro ascendia, mas a vida continuava como dantes...

Em compensação Steve nos mostrou a pequena gruta onde o soberano passava o dia. Apesar do teto ser baixo, o lugar era aprazível. A temperatura se mantinha mais ou menos constante, no inverno o ar não ficava tão frio, no verão não ficava tão quente, além do que a vista é privilegiada e a acústica também é bacana, amplificando sons que vêm da parte baixa logo em frente. O rei ficava lá na gruta o dia todo, recebia alguns conselheiros, mercadores e, claro, suas esposas.

Depois descemos para outra construção, a Great Enclosure, que me pareceu maior que a anterior. Cercada por uma muralha alta, com espessura maior que um metro e toda feita de tijolos de pedra. A construção impressiona. Não dá para não comparar com Machu Picchu. Aliás, eles divulgam a região como a segunda maior construção de pedra da África, perdendo apenas para as pirâmides do Egito, mas acho que eles ganhariam mais adeptos se divulgassem a região como a "Machu Picchu da África". Pelo que entendemos, nesta construção ficavam as esposas e também era uma área de treinamento de mulheres comuns para as tarefas domésticas (uma espécie de curso para se tornar uma boa esposa), treinamento para as esposas do rei o servirem adequadamente e também havia uma ala masculina, onde os homens recebiam treinamento para o casamento e de arte militar. O povo habitava cabanas nas redondezas da área amuralhada.

Mais uma coisa que nos chamou a atenção foram os pés de Aloe vera (babosas). Enormes, quando comparadas aos existentes por aqui e com pelo menos 120 anos, mas podendo chegar a 350. Também foram um dos motivos que levaram ao abandono dos palácios. Segundo o Steve, elas começaram a desestabilizar as construções.

Fim do tour. Fizemos algum suspense e dissemos que daríamos ao Steve algo que ele provavelmente não esperava receber, mas já adiantamos que não era dinheiro. Era melhor que dinheiro! E entregamos a ele uma camisa da Seleção Brasileira! Seus olhos brilharam! Ao ver o número 9 estampado ele disse sem titubear: Luís Fabiano! Como conhecimento futebolístico não é nosso ponto forte, nos entreolhamos e, mesmo sem saber se ele estava certo, ratificamos que ele estava certo. E não é que estava mesmo? Se vc não lembra (ou não sabe mesmo) quem é Luís Fabiano, clique aqui. Por fim, Steeve nos desejou uma boa viagem e disse "voltem e tragam seus amigos em um dia de sol". Quem sabe...

Antes de seguir viagem fomos ao supermercado em Masvingo para recarregar a geladeira e o estoque de biscoitos, batatas fritas, macarrão, molho, frutas... Entramos no supermercado e parecia que estávamos em outro país! Carrinhos novos, ar condicionado, excelente iluminação, áreas amplas, grande variedade de itens e por fim uma coisa mais que incomum. Pagamos com cartão de crédito! Na hora mesmo não achamos nada demais, mas com o embargo que o país sofre, normalmente não é possível usar cartão de crédito internacional no país.

Seguimos viagem. Próxima parada: Matopo Hills, o lugar onde Cecil Rhodes, um inglês que era dos homens mais poderosos do mundo à sua época, pediu para passar a eternidade. 

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Siga nossos passos: 
Hotel: Chevron (Latitude 20°05' Sul e Longitude 30°50' Leste)
Restaurante: Pizza Inn, no Food Court Inn.
 
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Projeto 20°12'............................................Projeto 20º12' : Projeto 2012
www.projeto2012.com.br
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