O efeito alucinógeno de passar a aduana boliviana

Trip Start Dec 25, 2009
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Trip End Jan 07, 2010


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Flag of Bolivia  , Potosí,
Saturday, January 2, 2010

Nono dia de viagem
de San Pedro de Atacama, CH ao hotel no meio do nada, BO

    Acordamos cedo e fomos até a casa de um dos donos da agência "CordilleraTraveller", onde deixamos a caminhoneta guardada com parte de nossas coisas. Contratamos essa agência para fazer um passeio de quatro dias, indo até o Salar de Uyuni na Bolívia e retornando a San Pedro. Optamos por um passeio um pouco mais confortável do que o habitual: um veículo só para nós quatro, com o motorista e sem necessidade de cozinheira, pois ficaríamos nos hotéis da rede Tayka, ao invés de nos albergues. Assim, o guia ficaria  à nossa disposição e é mais confortável passar o dia inteiro no carro. As bagagens vão na parte de trás ao invés de amarradas no teto e há jantar e café da manhã nos  hotéis, quartos com banheiros privativos e banho quente. 
    Fomos de van até a aduana chilena para fazer a saída do país e, usando a mesma estrada inclinadíssima  pela qual havíamos chegado a San Pedro, fomos até a entrada da Bolívia, alguns km adiante e 2500 m acima de onde estávamos. Nos próximos quatro dias, estaríamos sempre acima dos 4500 m de altitude. Antes de ir, é aconselhável fazer uma pesquisa sobre os sintomas mais sérios do soroche (mal de altitude), pois algumas pessoas podem sofrer reações muito graves, como edema pulmonar ou cerebral. Estávamos atentos a isso.
    Quando chegamos à aduana boliviana, havia apenas dois agentes de imigração e muitos turistas, que formavam uma fila no lado de fora. Mesmo assim, passar um tempo ali não é um problema, porque a situação à volta da pequena casinha branca que serve de aduna é interessantíssima. Há pessoas de todas as partes do mundo, cobertas de poeira, algumas saindo da Bolívia e outras, como nós, chegando, todos conversando e trocando informações. As vans estão ali para transportar as pessoas entre as aduanas e os veículos 4x4, mais ao fundo, esperam os que vão rumo ao maior deserto de sal do mundo. Todos os veículos destinados ao Uyuni levam amarrados no teto, em galões, +/- 400 litros de gasolina pois até lá não há abastecimento, só natureza.
    Feita a imigração, fomos ao café da manhã servido pelas agências em mesas ao ar livre, no meio de viajantes, veículos e uma paisagem tão linda que a gente duvida do que vê.
    Fomos apresentados ao Jorge, que seria nosso motorista e guia. Ele providenciou a transferência de nossas coisas da van para o Toyota. Além da bagagem, levamos vários galões de água. Embora o pessoal da agência dissesse que não precisava, precisava sim: bebemos toda a água que eles enviaram para nós e toda a água que levamos também. O clima é muito seco.
  
   
    Finalmente, embarcamos no Toyota e seguimos viagem. Ali começava o passeio pelo Parque Nacional Eduardo Alvaroa e a suspeita de que a Bolívia é o país mais lindo do mundo.
    Impossível descrever a natureza selvagem desse lugar. Há uma sucessão de lagoas: algumas abrigam centenas de flamingos cor-de-rosa; uma é azul-turquesa e está ao pé do belíssimo vulcão Licancabur; outra é verde-esmeralda e reflete o céu como um espelho; outra apresenta vários tons inesperados de água (como bordô e amarelo) devido à presença de minerais à flor-da-terra e é cercada de lhamas mansinhas que deixam você chegar perto.Há um local chamado  "Deserto de Dali", porque parece uma imensa tela surrealista. Há um campo com dezenas de gêiseres sem muro de proteção, cercados de terra multicolorida a 4800 m de altitude e onde você sente faltar o oxigênio e a terra treme sob seus pés. Há um vale onde pedras imensas parecem árvores petrificadas. 
    Bom...ou nós realmente vimos tudo isso apenas no primeiro dia do passeio ou nos deram um chá de cogumelo bem forte na aduana boliviana. ;o)


    Em meio a toda essa beleza, havia algo muito estranho: uma cozinheira na parte de trás do nosso carro, junto da bagagem. Ué, o carro não seria apenas para nós e o motorista? Na primeira parada, em um albergue para o almoço, já havíamos percebido que o guia tinha levado a namorada, provavelmente pensando que não entenderíamos o que estava acontecendo e acreditaríamos ser uma cozinheira - totalmente desnecessária, no nosso caso. Como havíamos lido muito na internet a respeito da falta de profissionalismo desses motoristas, ao contratar o passeio em San Pedro perguntamos o que fazer em caso de problema durante a viagem e eles nos orientaram a passar uma mensagem via rádio e eles mandariam outro motorista (haveria um local com rádio disponível a cada dia da viagem). Meu marido "espinafrou" o guia em português (QUASE deu pena do coitado, o Alemão é muito bom nisso), meu cunhado e irmã ajudaram em espanhol e no final eu perguntei onde estava o rádio, porque comunicaríamos o fato à agência. Jorge informou que à noite, no hotel, haveria um rádio e ficou visivelmente preocupado. Nos serviu o almoço e saiu. Quando terminamos de comer (salsicha, coca-cola e bananas), Jorge veio conversar, pediu humildes desculpas, informou que deixaria a namorada ali. Suspeitamos inclusive que antes da discussão ele desviou parte de nossa comida, mas não havia o que fazer e embarcamos no veículo para prosseguir viagem. Foi aí que nosso guia resolveu virar um guia, atencioso e explicando tudo que havia pelo caminho (e havia muita coisa). 
    Ao final do dia, tínhamos que sair do parque e pagar uma taxa de visitação. Naquele mesmo dia, a taxa tinha sido aumentada pelo presidente Evo Morales em 300% e nem o guia tinha dinheiro nem nós tínhamos bolivianos, a moeda local. Finalmente, Jorge conseguiu trocar 50 dólares (nossos) em bolivianos, pagar as taxas devidas e nos liberar. O dinheiro seria ressarcido pela agência na cidade de Uyuni e realmente foi. Quando saímos da sede do parque, ainda havia uma grande quantidade de pessoas retidas na portaria.

    Já anoitecendo, chegamos ao Hotel Ojos del Salar, da rede Tayka. O hotel é bem grande, tem vários quartos e está no meio de nada. Nada mesmo: nem rede elétrica, nem povoado, só areia e a paisagem de delírio. A água vem de um manancial de deserto, a energia é solar e o sistema sanitário, bio degradável(?). Para completar o clima de universo paralelo do lugar, havia um único funcionário para atender o hotel, mas éramos poucos hóspedes, nós e um casal de alemães com duas crianças pequenas.
    Fomos conduzidos a nossos quartos. Havia muito espaço, cama de casal, lençóis de lã e um aquecedor grande acoplado a um botijão de gás. Tinha até banheira, mas a eletricidade e a água seriam desligados às 22h. Imediatamente Gerson encheu a banheira e ficou  ali mergulhado, respirando alegremente a umidade. 
    Meu marido e cunhado estavam sofrendo com a altitude. Minha irmã e eu, um pouco menos. Estávamos a 4700 m s.n.m.
    Pouco mais tarde, fomos jantar no restaurante do hotel  e comemos o que nos serviram (o recepcionista e camareiro era também cozinheiro e garçom). A comida, depois daquele dia de extremos, estava deliciosa: sopa de quinoa com frango e ervas e não lembro mais o quê. Até pedimos um vinho tinto boliviano para experimentar. Não era de todo mal...
    Um regenerado Jorge juntou-se a nós com cara de cachorro sem dono e decidimos que, apesar do início imperdoável do dia, ele tinha sido muito útil e prestativo e não valia a pena atrasar nossa programação e ficar ali esperando por outro guia. Continuaríamos com ele. Provou-se uma decisão acertada e tivemos um bom serviço e um guia que se esforçou muito para nos agradar até o final do passeio.
    
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