Batalha de Berlim

Trip Start Jan 15, 2011
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Trip End Dec 24, 2011


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Flag of Germany  , Berlin,
Tuesday, January 1, 2013

        Os carros vão passando nas estradas, o vento vai abanando os ramos das árvores e as pessoas seguem pelos passeios à conversa umas com as outras. O eléctrico faz soar a sua campainha e o vendedor de fruta anuncia o preço barato dos seus produtos frescos, acabadinhos de chegar. Pelas ruas de Berlim ouvem-se portanto os sons habituais de uma grande urbe, a música ambiente do dia-a-dia, nada de extraordinário. As pessoas fazem as suas vidas, despreocupadamente, nada faz supor que a situação se venha a mudar.
       Infelizmente, o inimigo nunca dorme. A paz da cidade é subitamente interrompida pela preparação para o ataque. Primeiro, algo timidamente, começam a ser lançados alguns rockets solitários que fazem aparecer no céu pequenos fios de luz, finalizando com um pequeno barulho. Com o passar dos dias, a intensidade do ataque vai aumentando, não só em termos de frequência mas também em volume. Por todo o lado vão-se agora ouvindo os sons característicos de projécteis a cortar o ar, aquele tipo de som que se assemelha a um assobio, tal é a velocidade do objecto. Os menos rápidos não se denunciam na subida, fazendo-o silenciosamente, mas largam subitamente clarões de luz que iluminam as fachadas dos prédios, rapidamente seguidos de um estrondo enorme que ecoa pela cidade fora e parece querer assinalar o escalar da violência do ataque. O cheiro a pólvora e munições gastas paira na atmosfera, que nem lembrança constante do perigo a que qualquer pessoa na rua se está a submeter, afinal de contas onde há fumo há fogo. Por vezes, um matraquear ressoa pelo ar, como que a indicar uma posição fortificada, onde é necessária uma maior concentração de fogo. Os foguetes de várias cores aterrorizam quem os vê, serão certamente mensagens em código entre as várias frentes inimigas, a acertarem os seus planos. Vivem-se momentos de expectativa, sente-se a tensão no ar, está tudo à espera do assalto final...

        Por fim, exactamente à meia-noite, começa a tão antecipada ofensiva. No instante em que o dia seguinte começa, a cidade entra em convulsão e para qualquer direcção que se olhe, milhares de objectos sobem céu acima, largando um rasto de luz e fumo. As explosões que causam, algumas dezenas de metros acima do horizonte de edifícios da cidade, pintam o céu de inúmeras cores e feitios. Algumas são brancas e caem que nem uma chuva de fogo sobre os habitantes desprotegidos, outras vão causando uma cadeia de outras explosões, uma artimanha para apanhar os mais desprevenidos, que achavam que safando-se do primeiro rebentamento estariam a salvo. Os berlinenses, desprezando a sua própria segurança, saem para rua para mirar o céu, na ignorância de quem não sabe melhor. Sobreviverá a cidade a esta noite fatídica?

       O cenário que vos descrevo poderia muito bem ter ocorrido em Abril de 1945 quando o exército russo chegou a Berlim, sedento de vingança. Poderia descrever a fase preparatória da ofensiva à capital do Terceiro Reich, o ataque de artilharia que precede a chegada dos tanques e da infantaria, mas de facto não o é. Por um lado, o que descrevo passou-se nos últimos dias de 2012, mais de sessenta anos depois do final da Segunda Guerra Mundial; por outro lado, eu não estava cá para presenciar tal batalha, e portanto não a poderia ter descrito tão eloquentemente.
       A descrição que fiz é nada mais nada menos do que o que se viveu em Berlim nos últimos dias do ano passado, na preparação alemã para o novo ano. As hostilidades foram oficialmente abertas no dia 28 de Dezembro com o início do período legal de venda de fogos-de-artifício e bombas de carnaval, proibidos no resto do ano. Nos últimos três dias do ano surgiu assim material explosivo em tudo o que era loja, com grandes placards a anunciar a sua venda, não fossem as pessoas esquecerem-se de que para começar bem o ano dá sorte explodir qualquer coisa. A população, por esta altura com quase um ano de falta de prática, decidiu não deixar nada ao acaso e foi treinando nos dias que precedem o Réveillon. Há que afinar a pontaria, estudar as tácticas de uso dos vários tipos de explosivos, enfim, um sem-fim de pormenores para garantir que se festeja em grande.
       Neste fim de ano o cenário foi portanto semelhante a uma autêntica batalha: onde antigamente se veriam tropas russas a atear uma bomba, vêem-se agora pais a ajudar as suas criancinhas a causar explosões. Os berros de raiva de quem lança uma granada para o inimigo foram substituídos pelos guinchos excitados que qualquer jovem emite quando tem a oportunidade de rebentar com alguma coisa. Os soviéticos queriam subjugar a capital alemã, os atacantes de hoje preferem assustar transeuntes. Houve rumores de autênticas batalhas campais para os lados de Neukölln, onde as pessoas se divertiram a apontar os seus foguetes não para o céu, mas sim uns contra os outros. Como que numa autêntica guerra civil, os edifícios de lados opostos da mesma rua iam-se atacando uns aos outros: reza a expressão que "a relva é mais verde do outro lado", logo há que queimá-la até que fique toda preta. Com o passar do tempo os rockets começaram finalmente a dirigir-se para o céu, mas apenas porque a pontaria foi piorando com o estado de embriaguez associado a esta noite tão especial, e apontar para o vizinho do 5º andar virou assim uma operação bem mais complicada. Pela noite fora e madrugada adentro, enquanto ainda havia arsenal para utilizar, os sons de foguetes e bombas foram-se ouvindo continuamente, como música ambiente de uma cidade em celebração. Mais tarde surgiram também as sirenes das ambulâncias, transportando os heróis que se metem na boca do lobo para prestar auxílio às casualidades de tanta violência...

        A paz regressou entretanto à cidade, agora na apatia do dia seguinte que qualquer grande festa causa. Ainda se ouvem foguetes ocasionais, provavelmente os que restaram da noite de fim de ano, ou de alguém que decidiu celebrar no fuso horário da ilha de Howland, 12 horas a menos do que Greenwhich (e o último local na Terra a receber um novo ano). Como despojos de guerra, as ruas encontram-se repletas de garrafas de champagne e caixas de foguetes. Como em qualquer outro feriado alemão, todas as lojas, centros comerciais, e supermercados se encontram fechados, não há sequer kebaps para salvar o habitante esfomeado. Há, felizmente, família com óptimos restos do jantar de Silvester e um bom filme para ver. Bom 2013 para todos!

Ps: para quem quiser ver como foi o espectacular foto de artifício em Berlim, com foguetes  na cidade inteira, 360º graus à volta, fica aqui o link.
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