Sol no Mar Báltico

Trip Start Jan 15, 2011
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Trip End Dec 24, 2011


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Flag of Germany  , Mecklenburg-West Pomerania,
Monday, May 28, 2012

Quem diria que deixar uma garrafa de cerveja umas três ou quatro horas dentro da água do Mar Báltico não faria a bebida "estupidamente gelada"? Ou, dito de outra maneira, quem diria que a água no norte da Alemanha, no final do mês de Maio, está a uma temperatura bastante agradável para a pele humana, não servindo portanto para refrescar bebidas? Os portugueses que se desenganem, é mesmo possível fazer praia por estes lados.
 
Encontro-me perto de Wismar, a uns 250 quilómetros a noroeste de Berlim, e o sol de verão convida ao mergulho nas tais águas e ao relaxamento na areia (o que foi aliás muito prontamente feito por este vosso compatriota). O vento, infelizmente, parece ter sido tirado de um daqueles dias chatos dos nossos verões, onde não se pode estar descansado na toalha com tanta areia a voar (um dos chamados first-world problems). Felizmente, os meus novos amigos alemães estavam preparados e, já com as cervejas no "frigorífico", desde logo montaram um corta-vento imponente que serviu assim de barreira de protecção contra os elementos. Está certo que se faz praia por aqui, mas não se pode ignorar as condições atmosféricas adversas que estas latitudes causam.

Cheguei a esta estância balnear (chamemos-lhe assim) a convite da minha querida amiga Sarah, uma alemã que passou largos meses a viver em Lisboa (onde chegou até a ser minha vizinha, quando morou no prédio por trás do da minha avó nos meses em que vivi com ela). Tal como o fim-de-semana anterior, este foi também prolongado com um feriado à segunda-feira (e ainda dizem eles que nós portugueses é que somos uns mandriões). Com abrigo a dez minutos a pé da praia, a Sarah e alguns amigos organizaram-se e juntos marcharam rumo ao sol, água salgada e diversão. Por sorte, ela esteve em Portugal a semana passada e lembrou-se deste seu velho amigo, que muito alegremente aceitou o convite para se lhe juntar na casa onde passa os verões desde os catorze anos de idade. A História podia no entanto ter sido diferente: se lhe tivessem perguntado na altura, o que a pobre Sarah mais queria era fazer férias no parque de campismo como sempre havia feito, junto dos amigos, e não numa casa de praia. Numa decisão unilateral, os malvados pais acabaram por comprar a tal casa, deixando-a de rastos e, numa afronta final, ela foi obrigada a assinar por baixo, de maneira a contornar o limite de metros quadrados por proprietário. Entretanto os anos foram passando, as tendas, formigas, casas-de-banho partilhadas e restantes privilégios de acampar foram esquecidos, e a Sarah é hoje em dia a orgulhosa dona de meia casa na ilha Poel.

Esta zona situa-se na antiga DDR (RDA ou "República Democrática Alemã" em português), que de democrática tinha pouco, com eleições (quando as haviam) constantemente controladas para que ganhassem "os do costume". Ignorando a falta de liberdade nas áreas da política e da economia neste antigo país da esfera comunista, houve duas liberdades fundamentais que foram sendo salvaguardadas ao longo dos anos, como me conta a Sarah: a de praticar nudismo e a de dar nomes estranhos ao filhos, direitos considerados inalienáveis até mesmo nesta ditadura estalinista. Como exemplo temos os primos dela, com nomes nada típicos alemães como Jennifer ou Mandy, hoje em dia motivo de chacota de cada vez que ela os menciona. Na praia, os Ossies (os "de leste", termo algo pejorativo) costumavam andar todos nus, no que eu acho que é de facto o verdadeiro comunismo: ninguém tem fatos de banho de marca ou chinelos dos caros, anda tudo como veio ao mundo para que sejam todos iguais. Esta abordagem ignora no entanto as diferenças no que toca aos "atributos corporais", mas o Estado lá deve ter achado que seria difícil defender e implementar a igualdade a este nível, e deixou passar. De notar que, nos dias que correm, ainda se vêem naturistas não só nas praias mas também pelos jardins mesmo no centro de Berlim - se há os saudosistas que gostariam de ver o velho "paraíso dos trabalhadores" de volta, nada mudou para quem não perde a oportunidade de se despir em qualquer sítio.

Voltando à praia e ao fim-de-semana em si, juntei-me a este grupo animado de oito amigos que rapidamente me fizeram sentir bem-vindo, mesmo que por vezes a língua pusesse entraves (uma coisa é saber falar alemão, outra é entender o calão e discurso rápido dos falantes nativos). Acabado de chegar, puseram-me desde logo a jogar um jogo típico alemão chamado Kubb, onde as equipas se dispõem em duas linhas a cerca de dez metros de distância, viradas uma para a outra, com blocos de madeira aos pés de cada jogador e um bloco adicional no centro do terreno. O objectivo é derrubar os blocos dos adversários com um pedaço cilíndrico (também ele de madeira) que cada jogador possui e, no fim, derrubar o bloco do meio – este último, como se encontra bastante mais perto e seria portanto fácil de atingir em condições normais, tem que ser derrubado atirando o pau de costas, por entre as pernas. Este jogo é um pequeno exemplo do que eu já referi como sendo o aproveitamento que o povo alemão dá ao sol: basta brilhar para que milhentos jardins Alemanha fora se encham de gente a fazer piqueniques e a jogar este e muitos outros jogos, tais como frisbees ou boccia (já falo mais deste último).

Depois de uma manhã com um começo tardio (afinal de contas ninguém quer acordar cedo quando está de férias), o Mar Báltico esperava a dez agradáveis minutos de caminhada pelo campo e através de uma pequena floresta à beira-mar. A praia em si era agradável, com uma vista desafogada para ambos os lados, parecia que se estava na ponta de um qualquer cabo. A grande distância, do lado esquerdo, via-se terra na direcção de Lübeck e, para meu espanto, ainda mais longe viam-se uns pequenos riscos já perto do horizonte que a Sarah explicou serem turbinas de vento de um parque eólico offshore (ou seja, no meio do mar). Parece de facto ser uma ideia genial: se o vento na praia chateia um ou dois, no meio do mar sem obstáculos à volta chateia muitos mais (qual é mesmo o ditado que eu estou a tentar parafrasear aqui?)

A costa aqui é daquelas que, em maré baixa, faz com que a pessoa tenha pé durante umas quantas centenas de metros (literalmente), pelo que era preciso andar bastante para conseguir ter água pelo peito. Isso não me desmotivou já que fazia bastante calor e meti-me por isso rapidamente dentro de água. Como reza a frase de abertura deste texto, qual não foi o meu espanto quando me apercebi que até se estava bem dentro de água? Por lá fui brincando um pouco, juntamente com a maior parte do nosso grupo que, no segundo dia, lá perdeu o medo e se juntou a mim. Com bóias e bolas à disposição, a diversão estava garantida. 

Fora de água, sou desde já obrigado a admitir (com orgulho) que passei a maior parte do tempo simplesmente deitado na areia a apreciar o dia e sem fazer nada, já que o sol parecia estar no ponto certo, quando está agradável mas não muito forte, o ideal para quem como eu não liga muito a bronzes. Quando conseguia vencer a inércia, lá me juntava aos meus companheiros para um pouco de badminton ou um jogo de boccia. Este último jogo, que eu costumava jogar com a minha irmã e primos quando éramos mais novos, é bastante simples: atira-se a bola branca pequena para longe e cada jogador tem duas bolas grandes (de uma só cor) que atira de maneira a que fiquem o mais próximo possível da bola pequena, ganhando o jogador que de facto o conseguir. Joga-se normalmente sob relva ou areia, mas nós decidimos inovar: uma vez que as bolas flutuam, porque não usar a água como terreno de jogo? E porque não colocar a bola branca na fenda entre aquelas duas rochas? Qualquer sítio serve, e quando mais difícil, mais divertido é tentar lá chegar! Junta-se um miúdo alemão que delira com as nossas jogadas, e está feita a festa.
Quanto às noites, o programa não poderia ter sido mais simples nem mais agradável: sentar à volta da mesa a conversar, rir, beber uns copos, tocar guitarra, conversar e rir um pouco mais. Nada de especial, não houve grande festa, apenas amigos reunidos a rir e a cantar juntos. E não podia ter sabido melhor! Quando o frio se fazia sentir, a fogueira substituía a guitarra como o centro das atenções e, embora com menos barulho, a diversão continuava.

Chegada a segunda-feira, era tempo de arrumar, limpar, empacotar e nos pormos a andar. Com organização e espírito de entreajuda ficou tudo rapidamente pronto, e por volta das duas da tarde estávamos todos de partida. Foi por esta altura que me despedi do grupo e fui largado em Wismar, a cidade hanseática de onde um comboio me levaria de volta a Berlim. Como tinha algumas horas de sobra, aproveitei para visitar esta pacata vila e os seu porto. Uma vez que era feriado (algo  sagrado na Alemanha, onde a maior parte das lojas estão fechadas), a vila ficou ainda mais pacata, mas nem por isso tive tempo para me aborrecer. Comi uma bela sandes de peixe panado com molho de maionese e alho (comprada num barco atracado feito restaurante), sentei-me no porto a apreciar a beleza de um navio com alguns cem  anos de idade e deambulei um pouco pelas ruas, sem grande destino nem pressa de chegar. A cidade é de facto agradável de visitar por uma tarde: não quereria morar lá, mas gostei da sua pacatez e das fachadas coloridas, todas bem arranjadas, com um small-town feeling que apreciei.

E o fim das mini-férias chegou por fim, e com ele o momento de voltar ao mundo real. Em retrospectiva, acho que tive uma sorte tremenda, já que apanhei um fim-de-semana com um tempo espectacular e vi-me rodeado de gente simpática. Sinto que fiz, portanto, uma coisa muito alemã: aproveitar o sol ao máximo, viver sem saber se haverá neste verão mais dias como estes. Afinal de contas, devemos sempre aproveitar tudo ao máximo, não é verdade?

Tudo graças à Sarah, que merece um grande "danke" da minha parte!
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