Lagos, karaoke e animação em Berlim

Trip Start Jan 15, 2011
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Trip End Dec 24, 2011


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Tuesday, May 15, 2012

Eis-me chegado a Berlim, a cidade do Muro, que a dividiu durante quase 40 anos. É impossível falar nesta cidade sem esse triste episódio, mas como bom historiador-amador que sou, sinto-me na obrigação de dedicar muito mais tempo (e latim) a tal assunto. A História ficará assim para um futuro capítulo, e por agora partilho apenas algumas primeiras impressões que tive da capital germânica.
 
Têm-me perguntado "Porquê Berlim?" e a resposta é um pouco de sorte e algumas incógnitas. Cheguei a este sítio pela primeira vez no início do meu Interrail há 3 ou 4 anos, na minha primeira grande experiência no estrangeiro. Vi o que os turistas vêem habitualmente, conheci malta porreira e passeei de bicicleta. Logo nessa altura fiquei a pensar que, embora não tivesse amado Berlim na primeira visita, o faria à segunda. Sem saber bem porquê, fiquei desde logo com a impressão de que gostaria de morar aqui um dia. Findo o meu ano "sabático" (chamemos-lhe assim), estava na altura de encontrar um emprego estável e "sério" (chamemos-lhe assim), pelo que comecei à procura pela Europa fora. Em conversa com um amigo em Portugal, referi Berlim e o quanto gostaria de me mudar para lá. Por coincidência, este amigo tinha um outro amigo, também ele português e informático, a trabalhar na capital alemã. Uma conversa com ele, uns quantos emails para a empresa dele e uma entrevista mais tarde, e eis-me então a escrever-vos daqui!Por sorte, uma vez mais, possuo família em Berlim: a minha querida prima Lúcia, seguindo o seu dever para com a Pátria, vive cá há quase 3 anos, onde trabalha na Embaixada Portuguesa. O Gonçalo (marido fiel) veio com ela, e foi esta simpática gente que me recebeu de braços abertos, proporcionando-me óptimos jantares, boa companhia e um confortável abrigo ao final do dia. O lindo gato deles fez também questão de me receber de patas abertas, que usou para agarrar no meu chinelo enquanto o roía. A sorte do Kasimir é ser lindo, ter um pêlo fofo, e conseguir distrair os humanos com truques engraçados (como abrir portas fechadas saltando para a maçaneta), caso contrário a história seria dife... Ahh que gatinho tão bonito, toma lá o meu chinelo para brincar! Peço desculpa, voltei a distraír-me, onde ia eu?
 
Cheguei, aparentemente, no melhor fim-de-semana do ano, o tipo de dias pelos quais os alemães ficam o Inverno inteiro à espera. Enquanto que em Lisboa fazem uns meros 15º, em Berlim o sol brilha e os termómetros por pouco não atingem os 30º. Sendo um acontecimento raro, o povo já há muito aprendeu a tomar o maior partido da situação possível. Costumo dizer que na Alemanha se aproveita bem melhor o bom tempo do que em Portugal: para nós, o bom tempo serve quase exclusivamente para ir à praia. Se não estivermos perto de uma ou se o tempo não estiver muito bom, apenas bom, então parece que não há alternativa à Costa. Por cá, basta o sol brilhar um pouco para que os jardins se encham de gente que lê, se bronzeia (de bikinis, ou até sem roupa), joga às cartas, joga à bola, faz um piquenique, toca guitarra... Mais espantoso do que isto é a taxa de ocupação das esplanadas, quase sempre nos 100% num dia de sol. Por volta desta altura no ano, no início de Maio, começam também a surgir bares e esplanadas junto ao rio, com espreguiçadeiras que convidam ao ócio entre amigos. Os mais corajosos chegam a saltar para dentro desta água de aspecto dúbio, fruto de tanto tráfico fluvial dos barcos que levam os turistas a passear. De facto, só falta mesmo a areia para ser uma praia. Minto: não querendo ficar atrás dos primos do Sul da Europa, a areia de praia surge assim em diversos sítios no meio da cidade, junto ao canal ou num qualquer parque com uma rede de vólei de praia. Nos lagos naturais que rodeiam Berlim, a areia surge nas margens e a água  vira convidativa num dia de sol de Verão, sol este que queima até quem passou recentemente 2 semanas no Brasil. Felizmente que dias como este são raros, caso contrário os alemães não ganhariam para as despesas com creme-protectores solar.
 
Depois dos locais habituais, uma estadia em Berlim não estaria completa sem uma visita ao Mauerpark. Este descampado, fruto da antiga Faixa da Morte do Muro, funciona hoje em dia como a Feira da Ladra de Berlim. Ao domingo durante o dia, centenas de vendedores demonstram os seus produtos às milhares de pessoas que por lá passam. A organização é meio caótica, com bancas e vendedores em toda a parte e pequenos corredores pelo meio, e por lá vende-se tudo e mais alguma coisa: móveis, roupa (nova ou usada), t-shirts artísticas, quadros, quadros, fotografias e bicicletas (a maioria provavelmente roubada – e diz o senso comum do Kostya, de quem falarei não tarda, que ao comprar uma bicicleta rouba estamos a apoiar essa actividade, pelo que a nossa acabará roubada mais cedo ou mais tarde). Vendem-se discos de Vinyl e uniformes de polícias da antiga República Democrática Alemã (de Leste, portanto). Vêem-se sapatos, plantas, comes e bebes, peças para automóveis e guitarras, se fôr preciso tudo na mesma banca. E pessoas, muitas pessoas.O Kostya é o meu novo colega de casa, um russo que viveu também na Bulgária e passou algum tempo na Polónia e em Espanha, falando portanto as línguas correspondentes, além do inglês e do alemão (com muita inveja minha, portanto). Estuda a trabalha, mas ao domingo à tarde podemos vê-lo no Mauerpark a vender criações suas sob a forma de t-shirts que ele próprio pinta, com ideias e conceitos bastante engraçados. Um exemplo é a que ele tem com a frase "You stupid Kant" (assinada pelo Voltaire), ou um Napoleão com óculos 3D debaixo da frase "Je suis ein Berliner".

Mas o melhor mesmo do Mauerperk é o Karaoke. Num antigo anfiteatro público, daqueles com bancos de pedra e entregue aos elementos (ie. sem "tecto"), alguém teve a genial ideia de montar um Karaoke. Com uma localização tão boa e num sítio que por si só atrai já um vasto público, isto signfica que num domingo normal o cantor terá umas 500 pessoas a assistir. Isto talvez  intimidasse alguns de vós, mas o espírito aqui não é tentar ser o próximo vencedor dos "Ídolos" mas sim divertir-se e, se possível, divertir os outros. O público aplaude sempre, literalmente, aos altos berros (ouvido de longe parece que o Benfica acaba de marcar), pelo que os artistas perdem o medo e entregam-se ao momento, dançando, saltando e cantando bem ou menos mal. Vi uma francesa aos saltos a tocar uma air guitar (guitarra imaginária?),  agindo que nem estrela de Rock, e vi ainda 3 islandeses vestidos a rigor, com o que calculo que fosse o traje típico deles – uma camisola de lã com padrões tradicionais, calças com meias grossas por baixo, botas e luvas - que subiram ao palco e deram um Show enorme. Cantaram um "Can't Help Falling in Love with You" bem coreografado, com cada um a cantar primeiro sozinho, seguido dos três a cantarem em conjunto. Usaram sotaques engraçados, muita falsa (digo eu) emoção na voz e deram até as mãos na parte do "taaaake myyyy haaaand", claramente a exagerar no romanticismo para criar uma actuação cómica. O público, claro, foi ao rubro (parecia o Inferno da Luz) e aposto que muitos dos membros femininos da audiência ficaram com vontade de visitar os países nórdicos. Podem ver a actuação em http://www.youtube.com/watch?v=_QtFWg40SIc .
 
Mais ou menos na onda do Karaoke, ou seja, na onda das coisas que nos fazem fazer figuras meio ridículas à frente de outras pessoas, temos a "Roller Skate Disco Party" onde acabei com uns colegas numa quinta-feira à noite, depois do trabalho. Após umas cervejas seguimos então na direcção de Kreuzberg, o distrito alternativo de Berlim, com muitos bares, restaurantes, discotecas e animação nocturna e, depois de deambularmos um pouco pelas ruas, encontrámos a companhia de 2 jovens alemãs. Após um jantar animado, fomos então levados para para esta discoteca onde o tema era, como talvez já possam ter adivinhado, andar de patins e ouvir música dos anos 80. Parecia mesmo aquelas festas dos teenagers americanos dos anos 60 que se vêem nos filmes, onde as meninas estão todas de de saia e muito bem arranjadinhas, e chateadas porque o menino dos seus sonhos só quer é andar de patins em vez de beber sumo com ela. A média de idades, no nosso caso, era um pouco mais elevada (e aposto que havia até malta a beber cerveja em vez de sumo!) mas o espírito era o mesmo. Depois do momento de "choque" inicial, decidi (como sempre) juntar-me à festa, e fui por isso alugar um par de patins. Não falo dos patins em linha, com os quais tive alguma prática quando era miúdo (portanto, há uns 15 anos), mas dos patins clássicos, com 2 pares de rodas lado a lado, que acho que experimentei uma vez na minha vida (também há 15 anos). Com eles nos pés, no entanto, rapidamente perdi o medo e lá fui tentando dançar, o que se revelou bastante divertido. Caí muito poucas vezes (mas estive perto de o fazer muitas mais) enquanto que, ao som dos "Disco Hits", ia tentando imitar a outra malta que se notava logo estava habituada a estas andanças. Alguns eram mesmo excelentes, com uma fluidez incrível nos seus movimentos e incorporando até passos de break-dancing, fazendo um pino com uma mão no chão e a outra a agarrar uma perna, ou daquelas piruetas no chão, onde não se percebe muito bem onde estão os braços e as pernas, ou o que é que aquele braço está ali a fazer. Deram, uma vez mais, um belo Show, e eu fui portanto observando e tentando imitar os passos mais simples. Fiquei de facto espantado comigo mesmo com a facilidade com que me habituei a ter aquelas coisas nos pés, e a falta de medo de cair (cuja não-existência intrigou os colegas mais receosos) é facilmente explicada: depois de tantos meses a andar a alta velocidade entre árvores e a voar por cima de neve rija, o cérebro recusa-se a recear uma queda quando se está ali parado, apenas a tentar mexer os pés. É tudo uma questão de perspectiva!
 
Durante o dia, a emoção aparece também ao virar da esquina, como num destes sábados, quando se jogava no Estádio Olímpico a final da taça alemã, entre o Bayern de Munique e o Borussia de Dortmund. Segui então na direcção da praça principal da cidade, à espera de uma bom ambiente dos fãs da bola, mas o espírito era outra. Parece que neste sábado em particular se celebrava o dia mundial dos protestos (ou algo do género), pelo que toda a juventude revoltada decidiu sair à rua e protestar contra, ou a favor, de alguma coisa. O corteja da manisfestação chegou então à Alexanderplatz ao mesmo tempo que eu, com o tema anti capitalismo a vender claramente a luta intra-protestantes. Com música, discursos e partilha de folhetos informativos, a malta de esquerda lá se foi fazendo ouvir, por entre os restantes participantes que relembravam o público de outros males do nosso mundo. Havia os que estavam contra o uso de energia atómica e outros que reclamavam com os preços exorbitantes para as rendas de casas (vi jovens vestidos com uma tenda, calculo que a demostrarem que está tudo tão mal que precisam de levar a casa literalmente às costas). Houve quem surgisse em defesa dos direitos dos animais, a apoiar os pobres gregos e a sua debilitada economia, e e relembrar o Mundo de que necessitamos da floresta tropical para respirar, isto tudo no meio dos adeptos do futebol que também iam gritando palavras de ordem (num tema que, convenhamos, apela muito mais à maioria da população do que as árvores da Amazónia).
 
E assim se vai vivendo por Berlim, com os seus milhentos jardins, festas e actividades alternativas e novos amigos. Parece sempre haver que fazer, todos os dias e noites, e sinto-me bastante feliz por aqui estar a viver, num sítio tão interessante e onde sinto que não faltarão nunca coisas porreiras para fazer. O único problema parece ser o equilíbrio entre conhecer a cidade durante a noite ou durante o dia, já que ambos às vezes é difícil. Para que lado a balança pende, teremos que esperar para ver.
 
Tschüss,
Daniel

ps: peço desde já desculpa pela quantidade reduzida de fotos, tenho andando meio preguiçoso nessa parte...
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Comments

tia Nokas on

Adorei, como sempre, Dany
As tuas crónicas transportam-me para uma vivência que me dá saudades, .... de não a ter vivido. Quando lá dizes que estás contente, eu sinto a tua ânsia de viver em pleno. Acho que tens feito boas opções na tua vida, vivendo-a da maneira que entendes, sem dar nem pedir bitates !
Parabéns meu querido

blink0
blink0 on

Obrigado tia, acho que tu e a minha mãe são de facto as minhas única fãs! :-)

Paínho on

Como sempre bem na descrição dos locais. Como sempre feliz independentemente do local. Melhor só mesmo aquele em que estás. Boa narrativa, embora, e para fugir um pouco ao escritor ou actor tipicamente português, que tal fugirmos um pouco dos adjectivos menos próprios, como " gajo ", verbos como " chatear " ou pior, " lixar ou que se lixe. Que é isto? . Verbo, adverbio, adjectivo??Mesmo assim continuo o teu fã incondicional??
Bjs doces do teu paínho.

Mãe Mamã Carla on

PARABÉNS! Cada vez gosto mais da tua escrita! Mas concordo com o teu Paínho! E sou mesmo tu fã incondicional,mesmo que escrevas mal, o que não é mesmo o caso!
E como sou meia gata e gosto dos meus gatinhos (tu e a tua irmã), mando-te muitos beijinhos com muitas lambidelas, cheias de ronronares! Só tenho pena de não tos poder dar pessoalmente!

blink0
blink0 on

Pai: não usei "gajo" ou "lixar", e só usei "chatear" uma vez. Quem escreve mal és tu :D

Mãe: comporta-te que estás em pública, gata ;-) beijos

mari, a irmã on

como boa irmã que sou, nao li isto até ao fim (mas li o inicio, já é um começo - literalmente) - mas concordo com os teus pais (excepto na parte em que a tua mãe na mesma frase consegue chamar-nos de gatinhos e usar a expressão ronronar). Espero que estejas a gostar e espero que consigas pagar a minha ida até ai!!! muitos beijinhos, também gosto muito de ti

Araujo Pinto on

Parabéns Dani. Gostei muito. Continua.
Desejo as maiores felicidades com os melhores exitos profissionais e pessoais.
Um abraço

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