Praia, Sol e Calor em Natal (mas não no Natal)

Trip Start Jan 15, 2011
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Trip End Dec 24, 2011


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Flag of Brazil  , State of Rio Grande do Norte,
Thursday, April 12, 2012

Em Natal, é Natal o ano inteiro. Como presente, temos sol, calor, praia e caipirinhas. Estamos em Abril, no que pelo Nordeste Brasileiro é o Outono, e os locais começam a queixar-se da descida das temperaturas. Que se desengane o leitor europeu, os padrões deles são diferentes dos nossos: fazem 30º durante o dia e nunca desce abaixo dos 20º à noite. É verdade que faz bastante vento e que por vezes chove (felizmente, só da parte da manhã), mas não deixa de ser tão bom como um verão nosso. Não se pode confiar em ninguém que, na previsão do tempo no telejornal, aconselha ao uso de casacos quando a temperatura mínima (de noite, portanto) "atinge" os 17º.
Talvez seja por isso que o Nordeste seja tão popular entre os estrangeiros. No embarque em Lisboa, reparei em muitos passaportes nórdicos, mas por cá vêem-se mais falantes de italiano e espanhol (tanto do outro lado da nossa fronteira como da América Latina). A praia de Pipa, por exemplo, a uns 80 quilómetros de Natal, é conhecida por ser terra de gringos. Curioso o uso da expressão espanhola para denominar os estrangeiros, já que é comum os habitantes locais tentarem falar comigo em espanhol. Parece que a maioria dos viajantes falam a língua de nuestros hermanos e assim, ao encontrarem um gringo, o agradecimento da parte deles seja um "gracias". Por outras palavras, o sotaque português é para eles tão diferente quanto o espanhol. Para dizer a verdade, só estando aqui é que me apercebi da quantidade de palavras diferentes entre nós e os primos brasileiros, que é de facto imensa. Alguém sabe o que é um criado-mudo? E um isopor? Há algumas palavras, como celular ou ônibus, que todos sabemos o que significam (devido a telenovelas ou imigrantes a viver em Portugal), mas outras sobre as quais não fazemos qualquer ideia. Se calhar já seria justificado um dicionário "Português-Brasileiro". Os defensores do Acordo Ortográfico que me perdoem, mas mesmo que escrevamos "criado-mudo" da mesma maneira, só os brasileiros saberão o que significa. E alguém que lhes vá explicar o significado de "algures". Se isto não demonstra duas línguas diferentes...

Mudando de assunto, a segurança (ou falta dela) é um assunto sempre na ordem do dia num país como o Brasil (uma nota para os escritores de Acordos: que tal um sobre a pronúncia correcta do "L", numa palavra como Brasil? É "le" – como nós dizemos – ou "U" – como os braziUeiros?). Toda a gente já ouviu falar das favelas, do crime, da violência, dos bandidos, do BOP(i) e da Cidade de Deus. A situação é concerteza pior nas grandes metrópoles como o Rio de Janeiro e São Paulo, mas em Natal o visitante sente-se seguro. Vêem-se sinais de que não é o sítio mais seguro do mundo (os terminais de multibanco, por exemplo, têm um limite no valor dos levantamentos à noite, para evitar assaltos), mas podem deixar-se as coisas na praia fora de vista por uns tempos e andar à noite pela cidade. Na zona de diversão nocturna da cidade não me ofereceram todos os tipos de substâncias tóxicas existentes, ao contrário do que acontece de todas as vezes que vou ao Bairro Alto. É verdade que, estando na zona turística, haja um maior controlo policial, mas exactamente por ser uma zona com turistas, não seria isto um atractivo para toda a bandidagem?
Vêem-se no entanto sinais de que as coisas não são exactamente como no Velho Continente: a maioria das casas e prédios têm vedações eléctricas, três fios colocados em cima dos muros e até do próprio portão de entrada, além de arame farpado de aspecto letal e espigões pontiagudos de ferro. A manutenção de uma caixa Multibando, por exemplo, que em Portugal terá a acompanhar um segurança meio distraído, idoso e/ou fora de forma, por cá é efectuada recorrendo a quatro seguranças (vulgo "bestas"), de olhos postos nos vários ângulos de aproximação e uma das mãos pousada sobre o cabo da arma, pronta a ser retirada a qualquer sinal de alarme. Posso admitir que fiquei com medo... de espirrar! As casas de praias, por exemplo, têm sempre muitos quartos, para que se junte um grupo grande. Isto ajudará não só à festa (à qual eles de facto são propensos) mas também a desmotivar os bandidos de assaltarem a casa pela calada da noite (segurança por números, portanto). A televisão só passa assaltos, assassínios, mortes e roubos, mas com uma nuance interessante: pelos vistos a perspectiva de uma longa sentença não desencoraja o suficiente, há que humilhar o bandido. Esta gente é assim mostrada, que nem animais enjaulados, logo após a apreensão e almejados, junto da força policial. Como já dizia o ditado, "vergonha é roubar e ser apanhado".

O que dá também medo é andar nas estradas por cá. Não que eles sejam doidos ao volante, como alguém tinha referido, mas têm algumas regras interessantes. Para começar, as passadeiras não são mais do que uns riscos no chão sem sentido nenhum. É verdade que se já estivermos a meio da mesma e um carro, que tiver mudado de direcção, nos vir pela frente, não nos atropela (não me atrevi a verificar se seria igual para carros que vinham de frente, sem terem virado). Mas é impensável alguém parar numa passadeira, o peão que espere. A partir das 10 da noite, por lei, não é obrigatório parar nos semáforos (o ganho em segurança compensa o aumento do risco de acidentes). Na verdade, o único doido ao volante era o nosso condutor. Tendo feito a sua vida toda em Natal, conhece bem as estradas e segue sem receio a alta velocidade, transpondo alguns obstáculos (leia-se condutores mais lentos) como piloto de Fórmula 1, mudando rapidamente de faixa, ou, quando isso não é possível, recorrendo ao sentido contrário ou à berma. Este jovem tem também uma interpretação própria da Lei da estrada. Pois, se toda a vida passou naquela estrada, não o vai deixar de fazer agora só porque apareceu um sinal a proibir o trânsito num dos sentidos. "Há espaço para os dois carros" e "alguém fez algo estúpido, continuarei dirigindo como sempre" são então os argumentos usados para justificar as contra-ordenações. Nem mais.

Falando em condução, é preciso referir uma das actividades preferidas dos gringos, os passeios de buggy. Trata-se daqueles jipes que andam pela areia, de pneus largos e normalmente sem capota, tudo a descoberto, no meio de dunas e camelos (o cenário desértico e a presença de turistas impõe a presença destes animais, como não podia deixar de ser). Na praia de Genipabu, a norte de Natal, é então possível fazer um destes passeios, com a vertente de serem "com ou sem emoção". Esta frase, que virou mesmo o lema daquela praia (como é visível ver nas t-shirts à venda com este slogan estampado), define então o tipo de passeio: o turista quer passear pelas dunas, alegre e descansadamente, "sem emoção"? Ou deseja ver como se guia a sério, numa aventura não recomendada a pessoas com problemas cardíacos? O vosso caro amigo escolheu, como não podia deixar de ser, a segunda opção. É de facto uma actividade excitante: o jipe é guiado por um profissional que usa os altos e baixos das dunas para assustar os passageiros e fazer disparar a adrenalina. Têm a técnica apurada, segundo notei: imaginando que o carro segue numa zona plana e que há uma duna que desce no lado esquerdo, o que o condutor faz é uma derrapagem para o lado direito, mesmo em cima da borda da duna, para de repente voltar à esquerda e descer então. A receita está então criada para a diversão, e o buggy vai então subindo e descendo dunas, usando também "paredes" de areia para derrapagens no topo da mesma, com o veículo quase de lado. O empreendedorismo da gente que se lembrou de que conduzir perigosamente entre dunas seria giro para os turistas não fica por aqui: a meio da tour, há a obrigatória paragem para fotos. Não apenas para que os passageiros tirem fotos à paisagem mas, mais importante ainda, para que tenham a oportunidade de comprar as fotos que os colaboradores da malta dos buggys tiraram, do topo de uma duna, de quando o veículo por lá passou a alta velocidade. Pára-se então junto de um toldo, literalmente no meio do deserto, onde uma senhora vai operando um computador portátil e mostrando as fotos acabadas de tirar. Por 20 reais (pouco mais de 8€) pode-se então adquirir um CD com as fotos, que se vieram a revelar de má qualidade, mas enfim, sempre é a recordação. "Mas como é que a bateria do portátil aguenta o dia todo, ali no meio do nada, será que vão trazendo baterias recarregadas?" pensa agora o perspicaz leitor, tal e qual como o perspicaz escritor pensou. Esta gente empreendedora não iria deixar que um  pormenor assim tão insignificante lhes estragasse o negócio: com uns cabos e umas ligações de aspecto duvidoso, o portátil é então ligado a uma bateria de um automóvel, que garante assim energia para potenciar o negócio a tarde inteira. Engenhoso!

É no entanto impossível de falar no Brasil sem referir as praias, o modo de vida relaxado, o sol e o calor. Como bom turista que sou, passei então bastante tempo na areia e na água do mar, e posso dizer que percebo a atracção dos estrangeiros de países mais frios a um sítio como Natal. Como bom escritor que sou, senti-me na obrigação de passar muito tempo dentro de água, de modo a conseguir descrever com exactidão a temperatura da mesma. O meu sentido de dever, aliás, não me permitiria outra coisa. Apercebi-me assim que a única maneira para descrever é dizer que a água "não tem" temperatura. Por outras palavras, parece que se adapta idealmente à nossa temperatura corporal, não parecendo nem fria nem quente. É simplesmente um prazer estar dentro dela: parece não fazer sentir qualquer sensação térmica, sente-se apenas o movimento da mesma junto da pele. É de facto a temperatura ideal.
Quanto à praia em si, pode no mínimo dizer-se que é animada. Os vendedores ambulantes aparecem às dezenas, atraídos pelo dinheiro do estrangeiro, e vende-se de tudo: picanha, côco gelado e milho assado, camarão e ostras, t-shirts e saias, caipirinhas e cerveja, tapetes e toalhas. Vende-se e/ou aluga-se música: um animado vendedor deambula com um carrinho de mão de onde sai música aos altos berros, num tipo de publicidade que é impossível de ignorar, vendendo CD's ou tocando o que o freguês queira ouvir. Esta gente, dedicada profissionalmente à vida na praia, desenvolveu inclusivé uma maneira de transportar os chinelos pela areia, sem ter que os agarrar: passa o pé inteiro para lá da alça, ficando com o chinelo seguro na perna, entre o tornozelo e o joelho.
Muitos dos que não trabalham na praia parecem arranjar empregos desnecessários: todas as caixas no supermercado têm um ajudante cuja função é empacotar as compras, e uma loja de electrónica que visitei tinha mais colaboradores por metro quadrado do que aparelhos electrónicos (e nem assim tantos clientes). Estes ao menos vão trabalhando, ao contrário dos construtores do novo estádio de Natal, que será palco de alguns dos jogos do Mundial de Futebol de 2014. A pouco mais de 2 anos do início da competição, do estádio vêem-se algumas colunas de betão. As balizas, é verdade, já estão colocadas no sítio, mas não me parece que isso satisfaça os inspectores da FIFA. O Blatter bem vai reclamando, mas com este clima e praias, quem é que vai querer trabalhar no Brasil?

O sol está prestes a pôr-se, aproveito os últimos raios e desfruto de um último mergulho. Despeço-me do Morro do Careca, dos chatos dos vendedores ambulantes e da sua música irritante, despeço-me das ondas que tentei surfar, do Sol, do calor. A próxima aventura é em Berlim, onde haverá certamente sol, mas não deste.

Aproveito para deixar um agradecimento aos amigos brasileiros que tão bem nos trataram e que nos fizeram sentir em casa. E, caso estejam a ler isto, peço desde já desculpa pelo vocabulário utilizado, talvez seja melhor mesmo procurarem o tal dicionário Português-Brasileiro. Para os amigos portugueses, fica a tradução: "criado-mudo" é a mesinha-de-cabeceira e "isopor" é esferovite.

Até mais,
Daniel
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Comments

Paínho on

Filhote, bem escrito, divertido e sobretudo bom sentido de observação. Exemplo será a barraca das fotografias, onde estive por diversas vezes e sempre me escapou o pormenor do carregamento do pc. A boa observação tb respeita às diversas vidas do dia-a-dia do Natal e do Barsiu. Sou fã e apoiante da tua escrita. Parabéns

Pai on

Muitas outras palavras próprias poderiam encher o por ti falado dicionário brasileiro-português que deveria mesmo ser feito. Aqui ficam mais dois exemplos da diferença:
Num jogo de futebol em Pt existem cantos, aqui escanteios,
Nas farmácias ou hospitais existem adesivos, pois aqui existem esparadrapos.
Quando quiseres mais traduções é só pedires. Bjs

blink0
blink0 on

Como falante de bom português e morador no Brasil, estás numa boa posição para escrever o dicionário. Fico à espera da edição alemã!

to on

tambem gostei Daniel!

sais mesmo a tua mae!!!!

Carlos Freitas on

Todo pessoal..muito divertido.Velhote tem que nadar..não sabe nadar,compra bóia!!abs

Ana Campos on

Olá Daniel, e perguntas tú, quem é esta, pois bem, também vou passar a ser tua fã, depois de ter lido tudo o que acabaste de escrever, acho que devias ser escritôr, tens muito jeito, bem, e quanto a mim, sou uma amiga do teu papá, já lá vão 30 anitos, não te lembras, mas nos benditos 29 de Junho, feriado em Sintra, juntavamos alguns amigos e amigas e lá iamos nós todos os anos para as piscinas da praia das Maçãs, também ia a Mariana, desejo que sejas muito feliz e parabêns pelo teu dom de escrita.

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