Caminhando sobre água

Trip Start Jan 15, 2011
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Trip End Dec 24, 2011


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Flag of Austria  , Austrian Alps,
Sunday, March 4, 2012

Ténis Nike não são definitivamente o calçado apropriado para atravessar um lago congelado e coberto de neve. Apercebo-me disto apenas quando chego à borda do mesmo, claro está. É, no entanto, tarde demais: a mente está decidida, os pés irão ter que sofrer para concretizar esta pequena aventura.
Tudo começou com o espanto, na chegada a Zell am See: o enorme lago está congelado! A côr que se espera ver, o azul ou verde da água, dá agora lugar a um imaculado branco, que se estende numa área enorme, como que um planalto perfeitamente liso. Em todo o seu redor elevam-se os Alpes austríacos, que dão à paisagem um impacto ainda maior, associando este espaço central com uma paz e tranquilidade que as irregulares montanhas não possuem. O efeito global, no entanto, é espectacular.
Andando pela orla do lado, sou confrontado com a presença de árvores no meio do mesmo, a centenas de metros da margem. Como é que pode existir por ali vegetação? Será que o lago é de pouca profundidade? Será que há línguas de terra lago adentro, de onde irrompem troncos e folhas, que interrompem assim a uniformidade da superfície? A resposta surge finalmente: as árvores demarcam um caminho, uma auto-estrada através do lago, onde é seguro caminhar. Observando melhor vejo ainda bancos de jardim, literalmente no meio do nada, de maneira a que os caminhantes possam descansar as pernas no meio da travessia: afinal de contas, o lago é mesmo muito grande.
A mente está então decidida, mas nos últimos passos em terra firme os avisos de "buracos no gelo" e as poças de água na superfície dão lugar à apreensão: e se o gelo se quebra e acabo dentro do lago? Os finlandeses fazem-no voluntariamente, mas têm as saunas (e as finlandesas, claro está) para os aquecerem depois. Eu não tenho vontade de o fazer. Avisto finalmente um vulto a iniciar a travessia num outro ramo do caminho. Se ele o faz, eu também posso! Dirigo-me para onde o trilho começa, desço até à superfície, meto um pé na neve... E não acontece nada. Repito: não me afundo, não estou dentro de água a tentar partir o gelo de baixo, como acontece sempre nos filmes. Estou agora com os dois pés fora de terra firma e ainda estou seco. Bom começo.
Vou assim andando, habituando-me ao solo. Nevou nos últimos dias, pelo que parte da caminhada é sobre neve, tal e qual como seria se me deslocasse numa montanha. A outra parte, no entanto, é composta de poças (na forma de passos de pessoas) com bastante água à mistura: evito estas últimas e tento andar sobre neve fresca, mas nem sempre é possível. No lado esquerdo do trilho está um outro, sem qualquer neve, ou seja, de um azul muito escuro e coberto com muita água. Sou obrigado a tomar uns passos cautelosos sobre esta superfície, mas a experiência não é nada interessante: sinto (e ouço) o gelo a rachar debaixo dos meus pés, vejo e água a deslocar-se conforme ponho o meu peso aqui ou ali, e começo agora a temer pela minha segurança: tem estado bastante quente nos últimos dias (por "bastante quente" leia-se "as temperaturas deixaram os graus negativos"), será que estes austríacos controlaram a camada de gelo ultimamente? "Esperemos que sim" é a única resposta que me ajuda neste momento, pelo que continuo, evitando o tal trilho sem neve e seguindo as pegadas à direita do mesmo.
Finalmente, avisto algo que me acalma e mostra que isto é mais seguro do que aparenta: na minha direcção dirige-se um snow mobile, um estilo de mota de neve, com duas pessoas a bordo. Se isto aguenta o peso da mota, há-de aguentar o meu. Com o aproximar do veículo, no entanto, voltam as dúvidas: a tal moto tem bóias de lado, pelo que está safa caso o gelo se parta. Como se isso não bastasse, os dois passageiros dedicam-se agora a esburacar o gelo com uma moto-serra, arriscando, a meu ver, a integridade estrutural do lago. Com certeza estão só a medir a profundidade de gelo e a garantir que é seguro, mas precisavam de fazer isto à minha frente?!
Tento distrair-me e vou então observando a paisagem. A meio da aventura, junto a uma árvore, vejo um placard que me dá as boas-vindas a um restaurante e anuncia o seu horário de funcionamento. Infelizmente, a segunda-feira é dia de descanso do pessoal, pelo que fico sem saber se o tal restaurante serve refeições ali mesmo, no meio do lago.
O sol sai detrás de uma nuvem e aparece finalmente, causando um sentimento contraditório: estou rodeado de neve e em cima de um lago congelado, mas sinto calor. Vejo flocos de neve a flutuar ao sabor do vento, mas quero tirar o casaco. A nuvem volta a esconder o astro celeste e decido portanto ignorar tais ideias.

Chego por fim ao outro lado do lago, depois de uma caminhada de cerca de meia hora, com os pés encharcados. Terá valido a pena? Acredito que sim. Vale sempre a pena "sair da margem" e "caminhar pelo lago", mesmo que acabemos por "molhar os pés", se deste modo possamos viver uma nova experiência, tentar algo novo, aventurar pelo desconhecido. Transportando a lição para a vida real, que haja sempre coragem para que consigamos partir com a rotina e o rumo esperado da vida (as nossas "margens") e tentar algo diferente, mesmo que exista o risco de que nem tudo corra bem e acabemos por "molhar os pés". O frio e desconforto nos pés desvanece rapidamente, a lição e a aventura ficam guardadas na memória para sempre.
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Comments

Carla Salgado (mamã) on

Adorei, filhotinho!
Estás cada vez melhor, a escrever!
Espero que a vida te leve sempre para sítios melhores, quando resolveres sair fora do trilho! E eu esterei sempre à tua espera, com uma comida gostosa e uma manta quentinha! Um Xi-coração muito apertadinho, daqueles que tu não achas lá muita graça... e muitos beijinhos repenicados...

Pai on

Filhote estás com a caneta afiada. Bonito o texto, escrito provavelmente com Bic. Gosto das interrogações e desafios propostos. Até eu, que já sou velho, tenho essas dúvuidas e ansiedades. Porque não avançar??? É a questão que se levanta sempre!!!!!
Para já, dada a tua tenra idade, avança e logo verás. Se possível sempre com os pés em terra, a menos que andes de avião.
Bjs e abraços do
Velhote ( com orgulho) Paínho

Filipe Amorim on

Tá visto..o rapaz tem jeito! Pensava que era sóvaidade maternalm, mas afinal não! Dá-lhe com força Daniel! Tudo de bom para ti, e vai sempre tendo coragem para descobrir coisas novas...se possível cpm os pés assentes em terra...

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