Neve e mais neve

Trip Start Jan 15, 2011
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Trip End Dec 24, 2011


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Flag of Austria  , Austrian Alps,
Tuesday, January 31, 2012

Dizem que a tradição já não é o que era, e este meu Natal parece ter comprovado isso mesmo. Sim, estou rodeado de belas montanhas, os Alpes austríacos, que se encontram cobertos de neve. A pequena povoação onde vivo está também coberta de um manto branco, e os flocos de neve a cair na noite da Consoada dão um belo efeito, parece um daqueles natais que se vêem nos filmes. Mas...
Mas é difícil sentir qualquer espírito natalício por estes lados, já que, com 8 horas de trabalho em cada um dos dias 24 e 25 sobra pouco tempo para festejar. A família querida foi substituída por holandeses desconhecidos, e a actividade típica do dia de Natal, contar centenas de euros em moedas, foi substituída por ajustar Skis para estes holandeses desconhecidos.
E porquê holandeses? Ninguém sabe. A verdade é que por aqui se encontram muitos. Mesmo muitos. Na escola de Ski para onde trabalho, por exemplo, 75% dos instructores são dos países baixos (um facto curioso, já que o pais é mesmo baixo – a colina mais alta não chega aos 350 metros de altitude). Os visitantes são, por sua vez, em grande parte também holandeses. Será que vêm para esta estância por existirem por cá tantos instructores seus compatriotas, ou o contrário? É o problema do ovo e da galinha outra vez, versão laranja.
Esta gente (holandesa ou não) que vem esquiar do dia de Natal é uma nova espécie para mim. Como bom português, sou da opinião que esta época é dedicada à família. Sendo assim, de onde vem esta gente toda, que chega na véspera deste dia tão importante para uma semana de Ski?! Sendo europeus, e portanto de cultura cristã, festejarão concerteza o Natal. Não têm famílias em casa, com quem partilhar este dia? Abandonaram-nos, ou vieram todos juntos? A primeira opção é deplorável, mas a segunda parece não funcionar, já que no dia 25 de manhã ouvi uma senhora queixar-se de que estava sozinha porque os filhos tinham bebido demais na noite anterior e estavam portanto a dormir para curar a ressaca. Que bela maneira de passar o Natal no estrangeiro em família.
Outra questão, será que esta gente traz o equivalente ao nosso bacalhau, para o jantar? Aposto que não, é mais uma desfeita à tradição. Isto é, com excepção dos italianos, que podem comer pizza na noite da Consoada, como aliás eu fiz. Aposto que é mais um preconceito sem qualquer fundamento, mas não consigo imaginar como é que este não será o jantar de Natal dessa gente. Foi de facto a única coisa boa que ganhei deste assunto todo – livrei-me do bacalhau cozido da minha (querida) mãezinha!

A tradição de facto já não é o que era, como descrevi. Sem família, com comidas e actividades diferentes, e sem prendas... Minto, recebi uma prenda: um par de meias. Mas não são umas meias quaisquer: são especiais para esquiar, são diferentes para cada pé (ou seja, há uma meia esquerda e uma direita) e custam 30€ o par e. Afinal, meias pelo Natal podem ser uma boa prenda.
Para quebrar ainda mais com a tradição, tive ainda oportunidade de, no final do dia, ir fazer um pouco de Snowboard, difícil para quem mora em Lisboa (ou em qualquer lado do país – duvido que na nossa Serra da Estrela tenham pistas com iluminação nocturna, ou quaisquer pistas, para dizer a verdade). A acabar a noite houve ainda tempo para assistir ao embate entre Homem e Natureza, na forma de um grande incêndio que destruiu a parte superior de um hotel. Durante horas, os bombeiros combateram as chamas sob o olhar dos turistas (como não podia deixar de ser – parece que não somos os únicos a fazer isto). Sirenes, ambulâncias, camiões, bombeiros e polícias em grande número ocuparam a rua principal até de manhã, enquanto alguns prédios ao lado os holandeses continuavam em festa, com muito alcóol e música alta. Interessante contraste.

O contraste continua nos hábitos e modos desta gente. Para começar, é tudo em alemão, o que seria no entanto de esperar. Este é, no entanto, um alemão diferente do da Alemanha, que eu falo e entendo, já que se trata do dialecto da província de Pinzgauer. Uma vez que por aqui há uma tradição de quintas, fazendeiros e coisas do género, o sotaque ganhou aquela intensidade que os sotaques ganham foram das grandes cidades. Calculo que seja semelhante a comparar a ausência de sotaque de Lisboa (onde falamos o português mais puro do mundo, obviamente) com o de um açoriano "a sério": se para nós é difícil entender, é fácil de imaginar o quão difícil será para um estrangeiro, por mais bem que fale a nossa língua.
Vários outros hábitos são interessantes de referir, entre os quais as boas maneiras à hora da refeição. Não falo em não pôr a faca na boca ou não cantar à mesa, mas nos cumprimentos: se alguém chega a um restaurante onde um dos seus conhecidos (ou por vezes nem precisa de o ser) almoça, não se diz "Olá" ou "Bom Dia", mas sim "Mahlzeit", que se traduz para "bom apetite". O mesmo se aplica nas despedidas: se está na hora para eu ir almoçar, despeço-me dos colegas que ficam com um "malhzeit" e recebo o mesmo em resposta. Ao chegar ao restaurante, repetem-se as boas maneiras. Acho interessante, a substituição do "Olá" por um "bom apetite": directo ao assunto, com eficácia germânica.
Outra coisa importada da Alemanha são as gorjetas, que não são pagas depois de se receber o troco, deixando na mesa, como nós fazemos. Ao invés disso, dá-se logo gorjeta quando se paga, informando o empregado de quanto "extra" queremos dar. Se, por exemplo, o almoço custou 6,5€, ao dar a nota de 10€ o cliente diz "faz isso a 7€", e está feita a gorjeta de 50 cêntimos. Modos interessantes.
À mesa, as novidades continuam na comida em si. Como seria de esperar de um país sem acesso ao mar, come-se muito pouco peixe por aqui, apenas uns panados de vez em quando, o que significa que carne (e batatas fritas) estão assim quase sempre no menu. Como entrada costuma haver uma pequena sopa, que grande parte das vezes inclui spaguetti (não estilo massa em forma de letras, como nós, mas fios curtos) ou pão, ou ainda umas bolas crocantes não sei bem de quê. Numa situação à mesa que achei interessante, o holandês que comigo almoçava estranhou o meu modo de usar molhos: fi-lo como fazia antigamente na hamburgueria do Shopping de Massamá (a melhor do mundo, por sinal), ou seja, despejando o conteúdo dos pacotes de kechup e maionese aleatoriamente sobre as batatas fritas, indo da esquerda para a direita, de cima para baixo. O holandês ficou então a olhar para isto, começou a rir e a dizer que nunca tinha visto tal coisa, deve ser "como se faz em Portugal". Achei interessante, o facto de ele achar estranho este meu pequeno gesto, e como o associou aos diferentes países de origem: pequenas diferenças entre pátrias que só se captam ao viajar.

Deixando os estabelecimentos do ramo da restauração e passando aos de diversão nocturna, é preciso referir o "nageln", um jogo simples mas potencialmente perigoso que existe  em alguns bares. Nestes existe então uma secção de um grande tronco, com cerca de meio metro de diâmetro, pregos e um martelo. O objectivo é simples: depois de todos os participantes garantirem que o prego se mantém na vertical sobre o tronco, com a ajuda de algumas (mas poucas!) marteladas, o último a conseguir à martelada meter o prego todo para dentro, paga uma rodada a todos os jogadores. Mas como isto seria fácil de mais, os austríacos decidiram que o jogo é para ser jogado não com a cabeça do martelo, mas sim com o lado contrário (que, segundo a Wikipedia se chama "orelha"). Por aqui, esse lado não tem aquela fenda no meio (como nós temos, para retirar pregos), mas não deixa de ser uma pequena superfície de contacto. Assim se vai jogando então, com tentativa após tentativa de acertar no raio do prego, o que posso garantir que não é fácil! Outra regra, provavelmente para garantir que os clientes têm mais diversão do que bebida (e para deste modo evitar acidentes), é a que não se pode apontar directamente sobre o prego: ou seja, é batota  pôr o martelo sobre o prego, levantar o braço e martelar, isto seria fácil de mais! A técnica mais comum é então a de encostar a cabeça do martelo ao tronco, com o cabo perpendicular ao lado do tronco e praticar umas quantas vezes a distância e movimento necessário para chegar desta posição até ao prego em si. Com tudo estudado, martelar então rapidamente, partindo do lado do tronco até (se feito com perícia) o topo do prego. Os profissionais de nageln gostam, no entanto, de dar nas vistas: pegam no martelo na cabeça, batem com o cabo uma ou duas vezes no lado do tronco, atiram o martelo pelo ar com uma pequena pirueta, agarram no braço do mesmo e acertam em cheio no prego (mas nem sempre). Exibicionistas!

No que toca ao meu trabalho em si, posso relatar que as primeiras semanas foram bastante interessantes, já que tive que aprender tudo sobre esta nova área. Aliado ao facto de tudo ser em alemão, andei meio perdido por estes tempos. Acho que vou recordar para sempre a cara do primeiro cliente a quem ofereci Skis: olhou para eles assim com um ar de meio espantado meio enojado e disse "isto são Skis de senhora". Ups...
Para os interessados, o procedimento habitual para quando um cliente chega à loja é o seguinte:
1. Cumprimentar e, depois de garantir que necessita de botas, Skis ou ambos, dirigi-lo até um dos 4 computadores, onde o cliente poderá efectuar o Check-in, introduzindo os seus dados pessoais.
2. Feito o check-in, ajudar o cliente a escolher botas. Começa-se por medir o pé e encontrar depois a bota certa no tamanho certo. Por aqui, convém saber quais são os modelos mais apertados e mais finos, dependendo de quão grande é o pé e a perna do senhor. Convém também garantir que o tamanho é o adequado, ou seja, que o cliente consegue mexer os dedos, que o pé não fica a "nadar" dentro da bota, etc.
3. Com as botas escolhidas, faltam os Skis. Antes de mais, é preciso ter em conta a altura do cliente, já que o Ski deve ficar entre o queixo e o nariz, aproximadamente. Dependendo do nível do cliente,  há Skis para principiantes e outros para Pros, que convém reconhecer. Esta foi a parte mais complicado ao início, já que não sabia muito de Skis. Entretanto fui aprendendo e consigo agora escolher Skis bastante bem. Por vezes, quando se metem com muitas perguntas, basta falar com confiança que eles tomam a minha palavra de Expert como inquestionável.
4. Com o Ski escolhido, há que o ajustar para o cliente em si, ao nível do valor de "libertação" das bindings, ou fixações em português. Passo a explicar: as bindings são o que liga os Skis em si às botas e, em caso de queda, estas devem-se libertar, permitindo à pessoa cair sem ter os Skis agarrados aos pés (o que pode ter consequências indesejáveis, especialmente no que toca aos joelhos). Este valor é calculado pelo computador e é ajustado de acordo com o peso, altura e tamanho de botas do cliente, de maneira a que os Skis não sejam libertados nem cedo demais nem tarde de mais.
5. Com tudo"personalizado", oferecer o material todo ao cliente, desejar um bom dia e gritar "PRÓXIMO". Pedir agora desculpa ao cliente por me ter esquecido dos sticks, dar-lhe os do tamanho certo (ao segurar o stick, com este no chão, o ombro deve fazer um ângulo de aproximadamente 90º) e voltar a gritar "PRÓXIMO".

    Em termos de rotina semanal, temos o Sábado à tarde e o domingo de manhã como os dias com mais movimento, já que é quando toda a gente chega à estância. Aqui há que ajustar muitos Skis e encontrar muitas botas (as quais afinal não são assim tão confortáveis, havendo que as trocar segunda-feira de manhã). O resto da semana passa sem grandes incidentes (costumamos ter as nossas folgas neste período) e à sexta feira é novamente o Pânico (com letra grande, atenção), quando toda a gente vem devolver o material, já que está na altura de voltar a casa. O dia é então passado a fechar as botas, desinfectá-las e pôr na prateleira certa. No dia seguinte,  o ciclo recomeça...
O trabalho entretanto virou aborrecido, já que já aprendi tudo o que havia a aprender e agora é quase só rotina. Temos sempre, no entanto, clientes interessantes. Antes de mais, é preciso referir os russos e ucranianos. Pelo nosso país, vemos esta gente de leste maioritariamente a estacionar carros ou nas obras, sempre em dificuldades financeiras e nunca muito bem de vida. Por aqui o contraste não podia ser maior: os russos vêm e pagam tudo a pronto, com dinheiro sacado do seu maço de (muitas) notas de 500€. Ficam em hotéis de 5 estrelas e, quando os informo que aqueles Skis são mais caros do que os outros, dizem-me "wallet no problem". São esquisitos, querem Skis e botas de uma certa cor, que combina com o seu casaco: a qualidade do Ski em si, se é adequado para o seu nível ou não, isto não é importante, é preciso é ser "fashion". Em termos de boa educação, a maioria desta gente parece não a ter: são brutos e exigentes, querem tudo à sua maneira e "pagam o que for preciso". Toda a gente sabe que não gosto de generalizar pessoas de acordo com o país de origem, mas parece mesmo ser o caso, de que a maioria dos russos são, simplesmente, má gente. Parece ser revelador do tipo de país que eles têm o facto de que só se sai de lá para um hotel de 5 estrelas ou para uma rua portuguesa. Triste...

Temos, no entanto, também óptimos clientes, como o senhor idoso inglês que, ao devolver o material, fez questão de vir ter comigo e agradecer a atenção, dizendo que já esquia há 20 anos e a nossa foi a melhor loja de aluguer que já viu. Sabe sempre bem ouvir elogios destes! Ou os clientes que me viram com o olho inchado (fruto de um pequeno incidente com uma árvore) e, uma semana depois, vêm ver como estou e ficam contentes por ver que o olho sarou quase completamente. Os clientes mais pequenos, na forma de crianças, são também sempre engraçados. Tenho vindo a notar que existem dois tipos, as expansivas e as envergonhadas. Estas últimas não são muito interessantes, ficando a olhar para mim quando falo com elas, sem responder, ou simplesmente fugindo de mim. Com as expansivas, no entanto, é um prazer conversar: elas riem, saltam e contam-me histórias, por vezes em línguas que não entendo como o romeno (quando lhe disse que não falava a língua dela, a pequena criança disse que não havia problema, que havia de aprender – que doçura!). Outro jovem inglês, quando lhe disse que podia agarrar numa bola de neve e passar a alta velocidade junto de alguém e atirar-lhe a bola, virou-se para um amigo com ar maquiavélico e disse "tenho um plano". Estas pequenas interacções fazem-me sempre pensar que gostaria muito de ser tio, já que gosto de crianças mas sou jovem demais para ser pai. A minha querida irmã insiste no entanto que é jovem de mais para ser mãe. Egoísta! Falando em idades, posso reportar que os esquiadores começam aos 3 anos de idade e vão, pelo menos, até aos 76. Respeito! Ainda mais respeito pela senhora de 73 anos que disse precisar de um esqui mais calmo, pois teve na época passada um acidente ao fazer heli-skiing. Repito, heli-skiing: esta actividade consiste em ir com um helicóptero até ao topo de uma montanha e esquiar até à base da mesmo, em trilhos sempre novos, com muita neve virgem, onde ninguém mais esquia. Muito Respeito!

    Mesmo com muito trabalho (cheguei a fazer 63,5 horas numa semana!) tenho sempre tempo e vontade de estar na prancha e na neve. Por aqui temos a sorte de ter uma pista iluminada à noite, e é por lá que me vou divertindo após o trabalho. Nos dias de folga posso finalmente ir curtir pela estância toda, e tenho andado a dedicar-me ao melhor que há: "surfar" (quase literalmente) neve fresca numa prancha de Snowboard, que é das melhores sensações que há. Descobri que estar nas pistas é aborrecido: muito melhor é procurar o chamado off-piste, ou seja, procurar novos trilhos, por "mares nunca dantes navegados" (a analogia ao Surf continua, portanto). A minha nova paixão é fazer Snowboard entre árvores! É mesmo um espectáculo, seguir sobre neve fresquíssima, onde nos afundamos até aos joelhos (ou mais!), onde a prancha não faz barulho e não dói cair, desviando-me de árvores e usando pequenos amontoados de neve como plataforma de lançamento para um salto. Por vezes entusiasmo-me e faço asneira, mas como se costuma dizer, "no risk no fun". Que o diga quem me viu depois de me espetar contra o ramo de uma árvore. Acontece!...
    Espalhado pela estância existem muitas pequenas cabanas que servem de restaurantes, e que têm sempre um aspecto super tradicional. São quase sempre todas de madeira  e de decoração tradicional, com Skis velhos pendurados nas paredes, ferramentas de uma qualquer ocupação alpina, lareiras com lenha a arder e uma maravilhosa vista das montanhas à volta. Os preços, no entanto, não são como antigamente, já que depois de pagar mais de 5€ por uma sopa, fui obrigado a pagar 2,5€ por um copo de água da torneira...

    Quanto à gente com quem por aqui me dou, temos a do trabalho e os instructores de Ski. No trabalho temos 3 austríacas, um alemão, um sueco e um holandês, três dos quais estão no meio dos trinta, os outros três no início dos vinte. Tudo gente porreira, o que significa que temos um bom ambiente, sempre divertido e relaxado. Temos uma chefe porreira (aliás, uma mulher do chefe) que regularmente nos oferece almoço no nosso sítio habitual, e por vezes temos também jantares pagos, em bons restaurantes e com boa comida! A outra gente com quem me dou são os instructores de Ski, que moram no mesmo edifício que eu. É, no entanto, um grupo onde é difícil eu me integrar, já que são todos holandeses e metem-se a falar a (horrível) língua deles, que embora eu vá entendendo um pouco, não me permite conversar. Alguns são a excepção, e costumo ir muitas vezes fazer Snowboard à noite com o Stephan, um estudante de Engenharia Mecânica (para comprovar que eu não sou o único universitário idiota que por aqui anda) e, até agora, o único instructor de Ski que parece mesmo gostar de esquiar, já que é o único que usa a pista nocturna. Claro, pensam vocês, passam o dia todo na montanha e à noite já não dá mais vontade. Seria verdade, se eles de facto passassem o dia na montanha: a maioria destes instructores novos estão no seu primeiro ano, e dão por isso aulas a crianças de 3 ou 4 anos, não saindo de uma pequena área com inclinação quase nula o dia todo. Se eu fizesse isto o dia todo, acho que teria vontade de à noite ir curtir por mim próprio, mas como o Stephan costuma dizer, eles gostam mais do "Après-Skis" do que do Ski em si. Para quem não sabe, já agora, Après-Skis é  a actividade que consiste em ir beber uns copos imediamente depois do Ski, entre as 4 e 6 da tarde, na maior parte das vezes ainda com o equipamento todo. E é portanto isto que os instructores gostam de fazer, em detrimento do Ski em si. Triste...

Uma pergunta habitual por aqui é "o que fazes no Verão?". Uma vez que só se pode ser instructor de Ski nos meses de inverno, ou seja, uns três meses por ano, é preciso encontrar um emprego de verão. Não como nos filmes americanos, onde o "Summer Job" significa ir entregar jornais numa bicicleta para ganhar uns trocos para comprar livros de banda-desenhada, mas um emprego a sério, que já agora seja só de verão, para que na próxima época se possa voltar a ser esquiador. Temos várias possíveis ocupações: o instructor holandês que trabalha por vezes na loja (e que parece ter trinta anos mas que afinal tem 44) é instructor de Ténis na sua terra natal. Este é um dos tipos mais engraçados que já conheci e parece impossível estar triste ao pé dele. Ele gosta de dizer que ou se nasce instructor, ou nada a fazer, já que não é algo que se possa aprender. O que ele quer dizer é que aquele jeito de ser, a paciência para ensinar e boa disposição para motivrs os alunos é intrínseca aos bons instructor – e ele é de facto muito bom no que faz. Há outros que no verão seguem para o hemisfério sul e são assim instructores em grande parte do ano, viajando um pouco pelo meio. E há ainda os que tiraram um ano sabático antes da Universidade (ou durante, como o Stephan) e que ficam apenas uma época, voltando aos estudos em Setembro. Por fim, há o português que ainda não sabe o que faz no verão.

Há umas semanas, como muitos outros locais na Europa, fomos atingidos por uma vaga de frio que levou os termómetros até aos 20 graus negativos. O número, de facto, assusta: -20!! E o que é, sentir este frio todo? Congelamos imediatamente?! Óbvio que não. Ao sair de casa, ainda quentes e bem agasalhados, pensa-se que "afinal isto não é assim tão frio". Basta apenas um minuto para que mudemos de ideias: subitamente a cara está mesmo muito fria, e por mais que enfiemos o queixo dentro da gola do casaco, custa muito sentir o frio na face. As calças de ganga afinal não são assim tão confortáveis como eram à questão de minutos, e parecem ter congelado: está dura e a cada movimento da perna, ao tocar nas mesmas, sente-se o frio todo. Felizmente que as distâncias por aqui são curtas e há sempre uma divisão quente à espera do outro lado. Por aqui, percebo também finalmente como é que os ingleses saiem à noite de t-shirt, mesmo com temperaturas negativas: uma corrida até ao bar mais próximo e já não nos precisamos de preocupar com casacos, pagar para os pôr no guarda-roupas ou ter que prestar atenção a noite toda, não vá alguém "por acidente" levá-lo para casa.

A época tem sido excelente e nevou muito mais do que no ano passado, segundo a opinião generalizada. Há muita neve virgem, as árvores estão todas cobertas de branco, assim como os telhados dos edifício na povoação. Isto oferece, no entanto, um perigo desconhecido para nós portugueses: avalanches de telhado! Todos sabemos o que são avalanches e como são perigosas nas montanhas, mas nenhum de nós se lembraria de ter em atenção a neve que cai dos telhados. Mas devíamos! Quando cai, não é razão para brincadeiras e pode muito bem magoar alguém a sério. Como dizia um colega, nós portugueses conhecemos o mar e as ondas, eles austríacos conhecem as montanhas e a neve. Está-lhes no sangue.

E por aqui ando, por vezes com frio, muitas vezes aborrecido no trabalho, mas sempre com a certeza de que vale a pena aqui estar. Tenho lindas montanhas cobertas de neve à minha espera, uma prancha de Snowboard e uma grande vontade de a usar. Que se lixe o frio, vamos a isto!
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