Estar de Volta

Trip Start Jan 15, 2011
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Trip End Dec 24, 2011


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Flag of Portugal  , Estremadura,
Monday, December 5, 2011

Que estranho sentimento, este, de estar de volta depois de tanto tempo fora... Inevitavelmente, nos últimos dias antes do regresso, o viajante sente a impaciência de chegar, a pressa de estar no conforto do lar, a vontade de rever as paisagens de sempre. Ao chegar, no entanto, estas sensações dão desde logo lugar ao desconforto de estar novamente em casa, numa casa que já não parece totalmente "a nossa". Para quem se ausenta do seu país por outras razões, a saudade vai apertando e é sempre maravilhoso estar de volta, voltar à rotina. Mas para quem se ausenta voluntariamente, devido a uma vontade insaciável de ver o resto do mundo, e fez disso o seu dia-a-dia...
Vi escrito algures que o objectivo de viajar não é apenas ver terras estrangeiras, mas sim ver o próprio país de origem como se de uma terra estrangeira se tratasse. Quer seja o objectivo ou uma consequência disso, a verdade é que o regresso de uma longa viagem parece causar de facto este sentimento: é difícil dizer se está tudo igual ou tudo totalmente diferente. Obviamente que as coisas não mudaram assim tanto, os antigos amigos ainda cá andam, os hábitos mantiveram-se e as paisagens estão como sempre estiveram. Reconheço assim que este é de facto o meu país de origem, onde cresci e vivi a maior parte da minha vida. Por outro lado, tudo parece diferente: os carros (cujas marcas e modelos estranho) parecem circular no lado errado da estrada, as caras das pessoas são diferentes das habituais, e a sua língua soa-me estranha (até mesmo quando sou eu a usá-la - parece que ganhei sotaque, fruto de tão pouca prática que dei ao nosso Português). Sinto falta de sentir falta de casa, de estar onde não é comum estarmos, de quando falar pessoalmente com um compatriota é um acontecimento notável. Sinto-me, deste modo, estrangeiro neste país.

É incrível pensar que a apenas algumas semanas atrás estava literalmente do outro lado do mundo. Expressão curiosa, esta, de estar "do outro lado do mundo": antigamente tratava-se de algo abstracto, um conceito, uma ideia, algo que se encontrava tão longe que era difícil de imaginar, um mundo à parte. Agora é, no entanto, algo de concreto. Já não imagino só o mapa ou os conhecidos monumentos daqueles países, como num postal: sento-me nesta "ocidental praia lusitana" e revejo os sítios por onde passei e a experiências que vivi e os amigos que fiz e as conversas que tive. Na minha memória, sento-me noutras praias por onde passei e por onde me sentei, algumas semelhantes a esta, outras nem por isso. Volto a medir o tamanho daquela imponente montanha e volto a pasmar na imensa beleza daquele vulcão. Sou transportado para outro local, onde passo dias óptimos na companhia de novos amigos, que fazem das noites ainda melhores.
Por outro lado, recordo-me dos belos dias passados no conforto do nosso belo país, onde o trabalho sério não se metia no caminho da diversão. Vejo a água límpida da Arrábida e volto a provar os nosso pastéis de Belém. Revivo inúmeras noites no Bairro Alto, com muitas gargalhadas e amigos, e os jantares animados que as precederam.
Esta luta vai assim decorrendo dentro de mim: o prazer da companhia de velhos amigos, ou a procura de novos? As (lindas) paisagens habituais, ou a busca da próxima vista maravilhosa? A certeza da rotina ou o desconhecido da aventura? Estas perguntas assaltam-me, mas a resposta surge quase instantaneamente: mais viagens! O "travel bug" contagiou-me em força e, estando em casa, não consigo deixar de pensar no tempo "desperdiçado", nos locais novos e excitantes que poderia estar a visitar, na malta porreira que poderia estar a conhecer, nas aventuras nas quais me poderia estar a meter. Há sempre um novo sítio a descobrir, e eu quero lá estar.
Compreendo, finalmente, o Gonçalho Cadilhe quando diz que o destino que mais gosta é "o próximo". Estando on-the-go, todos os locais são novos e excitantes, incluindo aquele onde nos encontramos, e por isso o próximo poderá nem ser o mais apetecido. Mas estando em casa, em virtude das boas memórias dos tempos passados no estrangeiro e da tal vontade insaciável de conhecer o mundo inteiro, o próximo destino, qualquer que seja, vira o preferido. Vou já fazer a mala.
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Comments

Mãe on

Caco, ADOREI!
Foi o teu melhor escrito, na minha opinião, com o coração!
Vai e sê feliz, que é o que uma mãe só quer para os seus filhotes! Que eles cresçam, amadureçam e estejam bem, onde quer que se encontrem!
Aperto-te nos meus braços com muitos beijinhos, mãe

Pai on

Querido filhote, o meu comentário foi já feito em privado. Mesmo assim obrigado por seres meu filho. ABjs

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