Bela Nova Zelândia

Trip Start Jan 15, 2011
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Trip End Dec 24, 2011


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Flag of New Zealand  , North Island,
Wednesday, May 25, 2011

Kia Ora!

Escrevo-vos da terra dos Maori, o povo cuja linguagem usei para a saudação! Cheguei finalmente ao outro lado do mundo: é impossível ir mais longe de Portugal do que a Nova Zelândia, e este facto agrada-me imenso! Estou no que, em geografia, se chama a antípoda, ou seja, o ponto situado no exacto oposto do mundo. Ok, estou perto disso: se cavasse um buraco aqui mesmo ia parar ao sul de Espanha, algures ao pé de Sevilha. Mas se alguém do lado português fizesse o mesmo em, digamos, Arcos de Valdevez (conheço boa gente de lá que talvez esteja interessada em vir ensinar esta malta a fazer bom vinho hehe), iria parar ao topo da ilha do sul, mesmo aqui ao lado. Força nisso!

Lá deixei então a Austrália para trás e parti para este belo país. Aterrei de manhã cedinho e, depois das minhas bananas terem sido confiscadas na alfândega (armas biológicas?), meti-me então num autocarro. O meu destino: a casa do Mike, um couchsurfer porreiro que aceitou receber-me. Lá cheguei então e, depois de uma breve conversa ele lá teve que seguir para o trabalho (pobre coitado). Passado algumas horas ao computador (a nova diferença horária colocou-me na Internet ao mesmo tempo que muita gente em casa), lá fui então descobrir esta cidade. Segui a rota que o Mike sugeriu por uma rua bastante interessante, cheia de bares e cafés porreiros, incluindo vários estilo café-livraria ao mesmo tempo (dos quais já tinha visto alguns exemplares na Austrália) e café-loja-de-discos, algo novo e, na minha opinião, bastante original.

Depois de deambular pela cidade, meti-me rapidamente nos jardins para cortar caminho e ir ter com o Mike, que me ofereceu um almoço pequeno (mas bastante bom). Com ele estava também a Sue (escocesa) que está em casa dele há 5 semanas (sem pagar! viva o couchsurfng hehe), e juntos tivemos então um almoço calminho.

Por sugestão deles segui então para o Museu de Auckland. Este museu, com entrada gratuita mas doação sugerida (e quase forçada - dei 10$ para não me chatearem hehe) foi bastante interessante e foi o meu primeiro confronto com a cultura (e neste caso arte) Maori. Por lá vi então várias estátuas esculpidas em madeira e com o que vim a perceber é a temática comum deles: figuras semi-humanas com caras meio contorcidas e normalmente com a língua de fora. Pois é, para quem conhece o Haka dos All Black (já lá volto, para quem não sabe do que fale), parece que foi daqui que veio a inspiração. São de facto estátuas espantosas e fiquei meio fascinado com a cultura deles, no entanto. Neste local existe também uma bela Haka (canoa) de guerra, uma coisa enorme que levava uns 100 guerreiros de cada vez. Além disto, vários outros artefactos como escudos, lanças e machados fizeram-me passar horas a admirar esta gente. Por último, os andares superiores do museu falam de guerras nas quais a Nova Zelândia participou, nomeadamente a primeira e segunda guerras (ambas enquanto ainda fazia parte do Reino Unido, já que a separação oficial só ocorreu em 1947).

No dia seguinte fui a correr para tentar apanhar uma demonstração do Haka, chegando no entanto tarde demais... O Haka, ao contrário do que possam pensar, não é uma dança de guerra. O Haka significa apenas "dança", sendo por isso interpretado por homens ou mulheres, em ocasiões festivas ou não. O Haka mais conhecido é o que os All Black (a equipa de Rugby neo-zelandesa) fazem antes de cada partida, este sim um Haka de guerra. Estes eram usados, antigamente, para tentar assustar os inimigos com uma demonstração de força e poder pessoal, além de um montão de caretas feias (as tais inspiradas pelas estátuas). Aproveitei também para passear pelo centro da cidade, que embora mais movimentado que fora do mesmo, continua a ser algo calmo, pelo menos quando comparado com as grandes metrópoles australianas que visitei (Melbourne e Sydney).

Uma vez que o Mike "precisava de algum espaço", mudei então de sofa para um amigo dele, o Thomas, que mora numa bonita zona, junto à praia, a norte de Auckland (chama-se Takapuna, para quem quiser verificar o mapa). O Thomas mora numa casa meio desorganizada, com parentes e amigos a entrarem e saírem, a dormirem por lá (no chão, camas ou sofás) e alguma desarrumação, mas é um gajo porreiro (assim como os irmãos dele que também por lá moram) e aceitou receber-me por lá. O bom da área dele é, como disse, ser junto à praia, pelo que no dia seguinte meti-me a caminho da mesma. Cheguei lá e, sabendo estar a norte da cidade e que a praia estava voltada para este, decidi ir para a direita a tentar ter uma vista da cidade. Lá caminhei pela praia, rochedos, areia, mais rochedos, passando por algumas praias a sério (com entradas etc), sempre a pensar "a seguir àquele rochedo vou conseguir ver a cidade!". Caminhei um bom par de horas, sozinho, a apreciar o tempo agradável (com intervalos de chuva ligeira) e a bela vista, com a ilha Rangitoto à minha esquerda. Como talvez consigam identificar pela foto, trata-se um antigo vulcão, cuja última erupção (há uns 600 anos) foi precensiada pelos nativos, que por isso apelidaram a ilha acabada de formar de "céu vermelho-sangue". Ninguém habita na ilha, mas existe um ferry que vai até lá e alguns trilhos para subir até ao topo da mesma, que eu sinceramente tneho vontade de visitar! Talvez por ignorância minha, mas não sabia que este belo país tem tantos trilhos para caminhadas, indo desde algumas horas até 3 ou 4 dias. Vim na altura errada para esta actividade (já que o Inverno está a começar), mas acreditem-me quando digo que hei-de voltar no Verão para fazer estas caminhadas!

Entretanto, na minha pequena caminhada pela praia, lá cheguei a uma pequena montanha com um forte no topo, que decidi trepar, ainda à procura da minha vista sobre a cidade. Lá cheguei então ao topo, onde existe um antigo forte militar que controla a entrada do porto (e portanto a chegada à cidade), e que pelos vistos foi construído com medo dos russos?! Parece que quando esta gente contruiu o porto de Vladivostok (que, calculo eu assim de cabeça, deve estar a uns 10.000kms), os neo-zelandeses decidiram precavir-se contra uma eventual invasão. Parece um pouco extremista, especialmente naquelas dias (no final do Século XVIII) quando demoraria algum tempo a chegar (e/ou invadir) terras tão distantes. Enfim...

Sentado no topo da montanha (que se revelou ser outro antigo vulcão. Talvez seja importante referir que Auckland se encontra num campo vulcânico activo - mas cuja última erupção foi há uns 250 anos -, rodeada de 47 vulcões adormecidos), obtive finalmente a minha vista! E que bela vista! Em baixo de mim, Devonport, uma parte engraçada da cidade, com cafés e livrarias e um ambiente calmo, ideal para sentar e relaxar. Atrás de mim, a vista sobre as praias sobre as quais tinha andado algumas horas atrás. E à minha frente, a cidade, com a sua Skytower, os subúrbios de moradis elegantes a extenderem-se até onde o olho alcança, e no horizonte as montanhas. Como disse, que bela vista! Por lá me sentei a apreciar a mesma durante quase uma hora, com um enorme sorriso estampado na cara. Este foi mais um sítio onde voltei a pensar: que sorte tenho de estar aqui! O sorriso na minha cara vem também do facto de me ter lembrado a mim mesmo: "conseguiste! Estás exactamente do outro lado do mundo de Portugal e não consegues ir mais longe daqui. Parabéns!". :-)

Depois de algum (mas pouco) planeamento, no dia a seguir parti à aventura com o Mike e o Jaini (ou algo do género, não sei escrever o nome dele), um amigo francês (também do couchsurfing), em direcção ao norte. A primeira vista dos campos para lá da cidade não desapontou em nada: este é de facto um belo país, com verde em toda a parte, nos campos com vaquinhas (e ovelhas, a primeira vez que as vi - facto interessante, num país com 10 vezes mais ovelhas que habitantes) e nas muitas montanhas pelo caminho. Sempre com vista para o mar, fiquei de facto impressionado com a beleza simples do país, fez-me lembrar tipo a Suíça ou algo do género. Não tive a oportunidade de visitar muito da Suíça, mas é aquele tipo de paisagem, com os campos e as montanhas (talvez um pouco mais pequenas por este lado) que na minha imaginação são tal e qual como a Suíça.

De qualquer das maneiras, depois de algumas horas rumo ao norte, chegámos ao primeiro destino, a Goat Island (literalmente, a ilha das cabras). Este local é muito frequentado no verão por gente que vem fazer snorkelling, já que por lá se vêm muitos peixinhos e coisas do género, sendo que a ilha protege as pessoas das marés e tudo mais. Lá nos equipámos a rigor, com fato de mergulho, "meias de mergulho", barbatanas e até um gorro (estilo piloto de Fórmula 1), prontos para enfrentar as águas por agora frias (pelos vistos estavam a 17º, não parece muito frio, pois não?). Dentro de água vimos de facto muito peixinho, incluindo uns com umas pintas azuis algo "brilhantes" e por isso engraçados. Está certo que a vista por ali não consegue bater a das Whitsundays, na Austrália, com os corais coloridos e os peixes de todas as cores possíveis e imaginárias, mas por lá vi 2 coisas que não tinha visto: umas lagostas bastante grandes (que pelos vistos por cá eles chamam de Crayfish - e não de lobster, como seria de esperar), escondidas nuns buracos mas a sofrerem da falha que os gatos sofrem quando se escondem e deixam a causa à vista: neste caso, as tais lagostas estão bem escondidas mas deixam aquelas antenas de fora. Para as encontrar, basta então procurar umas antenas vermelhas a saírem das rochas e seguir até à base das mesmas. A outra coisa que vimos (e que eu descobri, comprovando que a minha estratégia de andar a vaguear sozinho é uma boa ideia) foi uma raia! Era bastante pequena (devia ter uns 40 centímetros de diâmetro) e andava a deambular sozinha (parece que as grandes atingem uns 2 metros - infelizmente não encontrámos a mãe desta), "pairando" pela água. São de facto uns animais majestosos na sua forma de nadar, e foi óptimo de seguir a raia enquanto esta nadava. O importante aqui é manter a distância! Alguém sabe quem é o Steve Irwin? Investiguem, se quiserem. Conhecem o Crocodile Dundee? O Steve Irwin era um australiano que fazia o que ele faz, com uma pequena diferença: é um gajo verdadeiro e não um personagem num filme! Pois é, brincava com crocodilos e outras coisas perigosas, até ao dia em que foi picado por uma raia, o que normalmente não mata ninguém. Neste caso, a raia conseguiu acertar no coração e matou o verdadeiro Crocodile Dundee. Conseguem imaginar portanto o porquê de eu manter a distância destes bichos.

Abandonando os nosso fatos de mergulho para trás (o que foi uma pena, já que ficavam a matar), voltámos ao carro em rumo ao norte, em direcção à Bay of Islands, ou (em português) Baía das Ilhas. Esta área é, mais uma vez, bastante frequentada no verão por uma simples razão: é lindíssima! Pois é, vejam as fotos (que como é costume em sítios belíssimo não lhe fazem justiça) e tentam imaginar uma pequena povoação à beira mar com ilhas e baías e cabos a toda a volta. É o paraíso dos barcos à vela, cujas silhuetas se vêm no horizonte, circulando de cá para lá ao sabor do vento.

Hospedámo-nos em Paihia, a principal cidadezita desta zona, e depois de uma noite de festa com novos amigos no hostel (nunca falta animação desde que haja um baralho de cartas e umas quantas cervejas), fomos então ver as vistas. Sem eu saber, estávamos num local importantíssimo na história deste país, o sítio que é considerado como o berço desta nação, a Guimarães deles. Aqui vai então, um pouco de história (da qual, como certamente sabem, sou fã incondicional):

Pensa-se que os Maori, gentes da polinésia, chegaram a estas terras em grandes canoas por volta dos anos de 1200 ou 1300 (DC). Quando cá chegaram, encontraram terras mais frias do que as que haviam deixado, habitadas maioritamente por pássaros, muitos dos quais não voavam (um exemplo disto é o Kiwi, o símbolo nacional deles que hoje em dia está em vias de extinção). Segundo aprendi no museu de Auckland, parece que a separação da Nova Zelândia do resto dos continentes (há alguns milhões de anos) foi cedo o suficiente para impedir que as cobras e répteis vindos da Ásia não cá chegassem (ao contrário, como todos sabem, da vizinha Austrália). Sem predadores à espreita, os pássaros habituaram-se então a passear pelo chão e foram perdendo a habilidade de voar.

De qualquer das maneiras, os Maori por cá ficaram, chamando à terra Aotearoa (que ainda é, hoje em dia, o nome Maoria desde país). Em 1642, o holandês Abel Tasman tornou-se no primeiro europeu a chegar à Nova Zelândia, assim como (calculo eu) tenha sido o primeiro a atingir a Tasmânia (daí o nome). O encontro com os Maori não correu muito bem e o senhor não chegou sequer a pôr os pés em terra, mas deixou uma marca no país: o nome Nova Zelândia vem então de uma províndia holandesa chamada Zeeland.

Ninguém mais se aventurou por estes lados até 1769, quando o grande navegador inglês James Cook (que, parece, descobriu meio mundo sozinho) por cá chegou, sendo que desta vez estabeleceu contacto com os povos indígenas, os quais apelidaram os britânicos de Pakeha, palavra que ainda hoje é usada para referir os neo-zelandeses brancos (por oposição aos neo-zelandeses Maori).

Nos 50 anos seguintes foram então aparecendo muitas comunidades de europeus na costa neo-zelandesa, dedicadas a caça de focas e baleias, e do abate das enormes árvores Kauri (das quais falarei mais tarde) para madeira. Junto desta gente vieram cá parar alguns prisioneiros fugidos da Austrália, que transformaram a bonita zona de Russel (que visitarei mais tarde) no "Inferno do Pacífico".

Em 1831, fartos dos estrangeiros a invadirem o seu país, um grupo de chefes Maori escreveu uma carta à coroa inglesa a pedir que esta se transformasse num amigo e protector destas ilhas. Daqui resultou, em 1840, o tratado de Waitangi, cujo sítio onde foi assinado visitei então ao pé da Paihia. Este tratado, como disse considerado então o berço da nação, ditou então que a Nova Zelândia pertencia ao Reino Unido, sendo que os Maori retinham os direitos no que toca às terras que possuíam. O conceito de perda de soberania para os britânicos foi algo que os Maori não entenderam muito bem (parece que o significa disto depende também da versão do documento que se lê, a escrita em inglês ou a em Maori), e que ao longo dos anos (e até aos dias de hoje) causou algum mal-estar aos povos indígenas.

De qualquer das maneiras, foi esta então a criação deste país. Pelo caminho houve algumas guerras entre Maori e Pakeha (devido à venda forçada de terras, etc) e entre a Nova Zelândia e outros país nas 2 guerras mundiais (como referi anteriormente), sendo que este país se tornou completamente independente do Reino Unido apenas em 1947. Uma nota interessante: foram o primeiro país a dar às mulheres o direito total de voto, em 1893.

Voltando ao presente, visitei então os campos onde o tratado foi assinado, um sítio onde quase se consegue sentir a história, ao observar a enorme waka (canoa) e a "casa de reuniões" (meeting house?), espectacularmente repleta de estátuas lindíssimas (à sua maneira, já que são Maori e mostram por isso habitualmente figuras semi-humanas com línguas de fora). Este estilo de edifício, muito sagrado para os Maori (sendo que tive que, por exemplo, tirar os sapatos para entrar), é então onde esta gente se reúne. Cada estátuas representa um ou mais antepassados (o pai, o pai do pai, etc) e, olhando para estas, os Maori contam então a história dos seus pais, história esta que é transmitida apenas oralmente. Como disse, são de facto umas belas estátuas!

O Mike revelou-se, por esta altura, um óptimo guia. Embora seja completamente pakeha (e por completamente quero dizer que é mesmo branquinho hehe), interessa-se imenso pela cultura Maori, sendo que aprendeu voluntariamente a língua deles. Ele contou-me então o mito da criação segundo os Maori: no início, existia o pai-céu (Ranginui) e a mãe-terra (Papatuanuku), que tiveram muitos filhos (também eles deuses). Estava tudo escuro, no início, e os irmãos discutiram entre si se deviam separar os pais e criar luz. Tawhirimatae, o deus dos ventos, opunha-se à ideia e fugiu então para os céus, onde ainda hoje em dia sentimos a recusa e ira dele, sob a forma de trovões e tempestades. Tane Mahuta, deus da floresta, sucedeu em separar os pais e criou então luz, o que causou grande tristeza no pai-céu, cujas lágrimas criaram os oceanos e ainda hoje podemos ver sob a forma de chuva.

Muitos anos mais tarde, o semi-deus Maui encontrava-se a pescar e, usando o seu anzol mágico, pescou então um enorme peixe, que conseguiu adormecer com uma incantação. Este peixe tornar-se-ia na ilha norte da Nova Zelândia, cujo nome Maori é então "Te ika a Maui", ou seja, o "peixe do Maui". A ilha do sul é então a canoa que Maui usou, ou "Te waka a Maui". Se olharem para a forma das ilhas, a do norte pode de facto ser um peixe (com o bico voltado para o sul, a cauda para o norte e 2 barbatanas a este e a oeste) e a do sul, algo rectangular, parece-se de facto com uma canoa.

Depois de algum  deambular, eu o Mike e o Jaini deixámos então a lenda para trás e partimos para Russel de ferry, já que fica do outro lado da baía. Esta cidade pequeníssima (que foi, no entanto, a primeira capital do país) acabou por se revelar bem mais agradável que um inferno. Depois de visitar a bandeira no topo de uma colina com uma vista simplesmente linda, sentámo-nos num cafézinho, com uma boa vista sob a baía e boa comida, a aproveitar o óptimo sol e calor que se fazia sentir. Por lá ficámos várias horas à conversa, relaxadamente a aproveitar os prazeres simples da vida, bom tempo e bons amigos.

Por esta altura, e incentivado pelo bom tempo, decidi ficar por cá mais tempo. O Mike e o Jaini, com o início de semana e portanto trabalho à espera, voltaram então a Auckland, enquanto que eu voltei ao meu hostel, com o plano de contacto um senhor que mora nesta zona e que precisa de ajuda com computadores, a troco de alojamento.

Não consegui contactar o senhor nesse dia, pelo que decidi meter-me numa visita guiada no dia seguinte, rumo ao norte. A tour foi de facto muito interessante, sendo que o condutor (que eu calculo que fosse Maori) nos contou milhentas coisas sobre o país e os Maori, que eu entretanto, e como seria de esperar, já me esqueci. Não me esqueci, no entanto, da canção que ele cantou: trata-se de uma tradição Maori, uma maneira muito original de dar as boas-vindas aos visitantes, e ele lá cantou a sua canção. Revelou-se uma bela canção: não compreendi uma única palavra, como calculam, mas parece que a língua Maori foi feita de uma maneira que as palavras positivas soam bem, enquanto que as negativas soam mal. Sendo esta uma canção de boas-vindas soou então muito bem, soou a uma canção muito "índia", estilo Pocahontas (sem ofensa nenhuma, estou apenas a tentar explicar a que soa a língua). Foi um prazer ouvir!

Depois de algumas horas de viagem e de uma passagem por nova auto-estrada na praia (tal e qual a ilha Fraser), parámos então numa belas dunas de areia que fazem lembrar o deserto do Sahara. Por lá fizemos algo de novo e extremamente divertido: sandboarding! Pois é, lá subimos (a pé, algo lentamente) as dunas e descemos as mesmas, desta vez deitados em pranchas (estilo bodyboard) e a alta velocidade. Que adrenalina! É uma óptima sensação, dependendo do quanto se trava com ops pés (no meu caso, nada), vai-se de facto muito rápido a cortar o vento e areia! No fim, ainda teive tempo de tentar surfar a areia, que o guia havia desaconselhado (estraga-prazeres). Fiz isso apenas na parte menos íngreme e só por alguns metros (o raio da prancha não deslizava o suficiente), e tive finalmente que abondar a minha demanda já que o autocarro todo estava à espera de mim e do holandês que comigo brincava ao surf.

Voltámos então ao autocarro e seguimos, mais uma vez, rumo ao norte. O destino? O cabo Reinga, a ponta norte da ilha do norte! Trata-se, como não podia deixar de ser, de um sítio lindo. Há algo de especial em estar na ponta mais a norte deste país, o sítio onde o oceano pacífico encontra o mar da Tasmânia. Consegui evitar os muitos turistas que por lá passeavam saltando o muro junto ao farol (na ponta do cabo) e indo-me sentir a uns 30 metros deles, sozinho a contemplar o mar. Por lá fiquei a apreciar a bela vista, a ver os mares e algumas ilhotas que neles se encontram, a apreciar o sentimento de estar, ao que parecia, sozinho em frente a milhares e milhares de água, sem nada sem ser água. Belo!

Este cabo é de facto especial, e não apenas para mim: tem um significado muito especial e sagrado para os Maori, que acreditam (ou acreditavam, pelo menos) que os espíritos dos falecidos viajam ilha acima e abandonam a Aotearoa neste ponto, mergulhando nas águas junto a uma árvore sagrada que se vê do cabo. Junto às Three King Islands (as tais ilhotas que eu via no horizonte) os espíritos voltam acima e choram uma última vez pela sua terra de origem que abandonam então para a eternidade. Bonita lenda, não?

De volta ao autocarro e depois de mais algumas horas de viagem (passei de facto o dia quase todo dentro dele), parámos numa das poucas zonas do país onde ainda exitem árvores Kauri. Embora os Maori usassem estas árvores na construção das Waka, faziam-no de forma cerimonial, escolhendo a árvore, proferindo algumas incantações e cortando-as depois, foi a chegada dos colonos europeus que fez com que hoje em dia existam apenas 3% das árvores que existiam antigamente. As árvores eram então cortadas aos milhões pelos colonos, que usavam a sua madeira para mastros de barcos e na construção de casas, por exemplo. Restam então poucos exemplos das árvores, mas felizmente alguns bons, como a da foto: trata-se (se não me engano) da Tane Mahuta, ou "Senhor da Floresta", uma árvore enorme e com, imagine-se, 2000 anos de idade! Com tantos anos de vida, não admira que fosse sagrada para os Maori...

Lá voltei a Paihia para a minha última noite, que começou mal. Por esta altura tinha-me apercebido que tinha perdido a minha máquina fotográfica no dia anterior e fui então a todos os sítios que tinha estado à procura da mesma, incluindo o ferry (ond eme lembro claramente de ter tirado fotos), o balcão de informação da agência onde comprei a visita ao cabo Reinga, 2 supermercados, o hostel e a polícia. Ninguém tinha visto a minha máquina e fiquei então muito irritado comigo mesmo por a ter perdido (memória da treta - no mesmo dia perdi também o meu shampoo). No dia seguinte, estava eu a abandonar o hostel pela última vez, resignado à minha maldita sorte, quando o dono do mesmo aparece com a câmara! Parece que o guarda nocturno a encontrou abandonada num parapeito à entrada do hostel, a meio da noite. O que parece que aconteceu foi que, estando a máquina no meu bolso das calças, caiu do mesmo quando estava sentado no sofá a ver TV. Alguém a apanhou, contente consigo mesmo por tal achado e por eu ter abandonado o hostel para sempre (o que eu contava ter feito). Quando eu voltei, no dia seguinte e à procura da câmara, esta pessoa ficou com remorsos e quis devolver a câmara, sendo que não conseguia fazê-lo em pessoa por vergonha, jáque teria que explicar porque não o fez antes. Abandonou então o aparelho onde sabia que havia de ser encontrado. É bom ver que ainda há pessoas que, mesmo pelas razões erradas, deixam que os remorsos corrijam as suas acções... Por outro lado, acabei por ter uma sorte tramada!

Abandonei finalmente o hostel e fui ter com o Geoff, o tal senhor que precisa da minha ajuda com computadores e, ao que parece, de um chaffeur hehe. Lá o conduzi o dia todo, enquanto foi ao tribunal, ao mecânico, à casa de um homem cujo carro queria comprar, a uma agência que vende propriedades, etc etc. Ao final da tarde chegámos finalmente à quinta dela, localizada num sítio lindo, se bem que algo isolado, mas junto à água e às muitas ilhas e baías desta zona.

O tal Geoff tem (entre outros) um negócio de compra/venda de propriedades, o que ele chama de land+house (se bem que as casas ainda não estão construídas). Passei então o dia a tentar perceber o negócio dele (ele é um pouco desorganizado, para dizer o menos) e a tentar perceber o que ele quer de mim. Acabei por brincar um pouco com um programa para gerir os contactos dele e a mandar mails para os potenciais clientes, entre outras coisas. Por cá está também um casal que vem das ilhas Fiji, gente simpatíssima que cozinha óptima comida e que, para algum embaraço meu, é muito cristã e reza antes das refeições. Felizmente que o fazem com os olhos fechados e, calculo eu, não possam notar no meu ar de "o que faço agora", mas são de facto gente boa, que me incluiu a mim e à minha família nas suas orações antes da comida. Note-se que agradeço sinceramente o gesto, mesmo sem acreditar no mesmo que eles. Não deixa de ser um belo gesto! Fora isto são gente boa e ensinaram-me um pouco da cultura Fiji'ense, sendo que estou desde já convidado a visitar  a ilha deles, algo que adoraria!! Um ideia, irei certamente lá.

Tive também a sorte de vir parar ao que parece ser o paraíso dos barcos à vela! Como disse anteriormente, esta zona está repleta destes, sendo que tive ainda mais sorte, já que o Geoff, assim como a família toda dele (que é grande, ele tem 11 irmãos) são completamente viciados em barcos à vela! Já há algum tempo que tenho vontade de aprender esta bela arte, e foi por isso óptimo ouvir as história desta gente, especialmente do irmão do Geoff, que com 18 anos partiu, num barco sem bússola ou GPS (que nem sequer existia, há uns 30 ou 40 anos...) até às ilhas Fiji, que atingiu depois de 10 dias, ao que parece, apenas a seguir a origem de um sinal de rádio! Há uns 4 anos, meteu-se mais uma vez num barco e, 40 dias depois, chegou, imaginem, ao Alaska!! Pois é, esta maravilhosa zona está cheia do que eles chamam de "yatchies" (gente que gosta de velejar), e no caminho para cá parei então com o Geoff numa marina, onde ele (depois de eu lhe falar na minha vontade de aprender a velejar) estava já a tentar por-me num barco à vela até às ilhas Fiji, Tahiti ou para um qualquer outro destino! Não funcionou desta vez, mas ele parece conhecer muito boa gente que veleja e diz que me arranja lugar num barco, sendo que estou agora seriamente a pensar em adiar a minha saída deste belo país! Não só para tentar meter-me num barco, mas também porque quanto mais leio (achei um guia de viagem) sobre os sítios a visitar, mais vontade tenho de ir a correr para lá! Por outro lado, quero aproveitar o inverno para fazer tanto snowboard quanto conseguir, e arranjei um sítio óptimo para tal, um hostel onde mais uma vez precisam de ajuda com computadores a troco de alojamento. Planeio ficar um mês por lá, se for tão bom quanto parece, mas isso deixa-me apenas umas 2 ou 3 semanas para o resto, o que parece pouco. Porque não adiar a passagem, ficar mais tempo na neve e ter mais tempo para ver o resto?! Há que pensar no assunto :)

Deixo-vos então por agora, infelizmente sem uma canção de despedida ao estilo Maori (que o condutor da visita ao cabo Reinga cantou também no final da mesma).

Cumprimentos da terra dos kiwis, ovelhas e Maori,

o vosso Daniel
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Comments

PI on

Daniel

Gostei de te ver,,e do comentário. Força,,,boa experiência,,boa vida.
Tudo corra do melhor,,,Abraço.

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