Bukhara, mas dá pra pechinchar

Trip Start Aug 01, 2010
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Trip End Aug 19, 2010


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Where I stayed

Flag of Uzbekistan  ,
Thursday, August 12, 2010

Finalmente chegamos a Bukhara, uma das duas cidades (a outra é Samarkanda) das quais tínhamos maiores expectativas, talvez os pontos altos de nossa viagem à Ásia Central. A cidade tem importância econômica central em sua região, desde sua fundação, tendo sido capital do Estado soberano de mesmo nome até meados do século XIX, conseguiu manter sua parte antiga, mas cresceu e tem uma parte moderna. Moderna, mas bem feia e pobrinha.

Buxoro
 (em cirílico) é, até hoje, um destacado centro de comercialização de tapetes, mesmo que eles não sejam produzidos lá. É mais ou menos com o café "tipo Santos", batizado como o nome do porto onde ele é vendido, mesmo que a cidade não tenha um pé de rubiácia pra chamar de seu. Bukhara centraliza o comércio de tapetes da região, onde foi criado o estilo “Bukhara”, que na verdade é turcomano (também conhecido como “pé de elefante”, mesmo que também não haja nenhum elefante por perto). Todas essas informações, e muitas mais, ouvimos de Dília, nossa guia em Bukhara. Nossa exploração estilo Rock Star está saindo muito melhor do que a encomenda. Nossa guia aqui, assim como nosso hotel, os passeios e as explicações dadas, estão dignas de exploradores ingleses na Índia. Estou me sentindo como se fossem perguntar a qualquer momento quando que o meu conglomerado industrial começará a investir no país, tamanha a atenção que temos recebido.

Logo cedo, Dília foi ao nosso hotel para iniciarmos nossas investigações sócio-antropológico-econômico-histórico-arquitetônico-religioso-gastronômico-culturais. De cara, ela nos contou que nosso hotel, de fronte ao Liaby (uma fonte repleta de restaurantes e madrassahs) era a antiga residência de um grande comerciante judeu e que, de tão grande, foi transformada em hotel. Bukhara, aliás, nos mostrou um pouquinho mais da organização do país. A cidade era toda dividida em bairros “temáticos”: bairro russo, bairro judeu, bairro árabe, até bairro uzbeque tinha! Isso eu achei esquisitíssimo, como uma cidade uzbeque vai ter um “bairro uzbeque”? O país é uma colcha de retalhos que foi costurada pelos soviéticos para ser o que é hoje. A união dos três principais reinos, Khorazm, Bukhara e Samarkand os pôs no mesmo país, mas também deixou de fora várias de suas antigos territórios, que hoje estão espalhados no Turcomenistão, Tadjiquistão, Afeganistão e Quirguistão. Cada um com sua língua e cultura difetentes. O que resultou é um país (Uzbequistão) relativamente novo e extremamente diverso, com várias línguas e subculturas, dependendo da região onde se vá. A maior parte das pessoas usa o russo para se comunicar no dia a dia, como era o caso de nossa guia, que apesar de etnicamente não ser russa, foi educada nessa língua no período soviético e a tem como língua materna (usando-a em casa com os filhos, inclusive). A língua uzbeque é minoritariamente usada dentro de seu próprio país.

Outro reflexo da mistura de tantas culturas e povos no mesmo país é a diluição de tudo o que foi jogado nessa grande sopa (perdoe-me, caro leitor, pelo meu momento “Cozinha Maravilhosa de Ofélia”). Nada é levado tão a ferro e fogo quanto eu suporia antes de chegar aqui. Neste aspecto, o que mais me chamou a atenção foi a religiosidade do país. É um país muçulmano, sem dúvida, mas não é, nem de longe, um lugar onde a intolerância esteja presente, como acontece com alguns de seus vizinhos próximos. As mulheres não usam véu, não reparei nenhuma mudança nos hábitos das pessoas durante o Ramadã, não ouvimos o chamado para a reza nas mesquitas e havia bebida alcóolica em tudo que era restaurante. O principal, porém, foi que vimos, nas mesquitas e lojas de tapetes, infindáveis representações de animais, plantas e pessoas, o que é proibidíssimo pelo Corão. Em outras palavras, muitas pessoas nos disseram que, no Uzbequistão, o islamismo é uma “religião IBGE” (a galera responde no censo, mas não pratica direito). Isso ficou muito claro, também, pela quantidade infindável de “desejos” que pudemos fazer pelo país. Tudo era motivo para uma “simpatia”, pra pedir proteção, etc, etc. Eu já nem sabia mais o que pedir, depois de tantas oportunidades de conexão direta com o além. E nisso valia de tudo, entrava mártir católico, relíquia muçulmana, etc. (Pé-de-pato-mangalô-três-vezes!)

Nosso primeiro sítio histórico do dia no mostrou algo bastante raro: um mausoléu preservado desde o período pré-mongol (Mausoléu dos Samonitas – não confundir com “Samunique”, que é um filé do Beirute – o bar na SQN 107, não a cidade no oriente). Quando Gengis Khan, o hooligan da Ásia Central, chegou ao Uzbequistão, ele fez o que sabia de melhor: destruiu absolutamente tudo. Todas as atrações históricas do país são do período pós-mongol, iniciado pelo nosso já conhecido Amir Timur (que também não era dois mais progressistas, mas que, perto do nosso irascível Temujin, era uma flor de pessoa). As poucas coisas que sobreviveram ao ímpeto “Pereira Passos“ da besta de Gobi foram poupadas por conta de eventual utilidade militar (como alguns minaretes usados como torre de observação) ou por pura sorte, como esse mausoléu, que ficou soterrado por séculos no meio de milhares de lápides e de areia,sendo poupado da destruição. Adicionalmente, diz-se que Gengis Khan tinha receio de destruir cemitérios, daí outro possível motivo para sua preservação. O principal ponto de interesse desses prédios do período pré-mongol é a forma como eles eram feitos antes da invasão cultural (e dos avanços tecnológicos que se seguiram). No caso desse Mausoléu, o melhor era a textura das paredes, todas feitas de tijolos trançados, formando intrincada rede de desenhos, muitos anos antes da introdução dos meus queridos azulejos.

Em nossas andanças pela cidade, passamos por várias piscinas públicas no meio das praças da cidade, como a de Lyabi, perto de nosso hotel. Dília nos explicou que eram parte do sistema de reserva de água da cidade durante o século XV. Como o único rio que abastecia a região passava antes por Samarkanda, em momentos de escassez os samarkandenses (alô meu povo samarkandense!) simplesmente fechavam o rio e “que se dane” quem estivesse depois. Bukhara, então, desenvolveu o sistema de reservatórios de água fresca em fontes públicas que garantiam água limpa à população nessas horas de aperto. O negócio, dizem, funcionou muito bem até o período soviético, quando avacalharem o sistema de drenagem e circulação da água e transformaram, involuntariamente, as piscinas em berçários de Aedes Aegypt. Hoje várias foram aterradas e as poucas que sobraram têm utilidade apenas turística (com show de águas e luzes a la Disneylandia à noite).

Um local bastante interessante que conhecemos em Bukhara foi a cidadela. Um forte no meio da cidade, que, depois de sucessivas destruições e reconstruções, foi ficando com o solo mais alto que o resto da cidade, como se fosse uma colina. Ali vivia o soberano da cidade, no estilo “Cidade Proibida”, com sua corte, concubinas, amazeados e puxa-sacos variados. Os restos de muitas mesquitas, palácios e salas de tesouro da cidadela podem ser conferidos, com legendas, no slide show deste relato, por uma quantia negociável (a ser depositada na minha conta).

A propósito, esse negócio de “negociável” é um pé no saco! Nós já sabíamos, desde nosso papo com o Timur (guia de Khiva, o gente boa, não Amir, o arranca-toco) que tínhamos de negociar tudo, até a compra de uma reles garrafinha de água (o que acontecia 45 vezes por dia). Do contrário o vendedor “não nos respeitaria como homens” ou nos acharia meio babacas pela atitude eu-tenho-dinheiro-merrrmo-e-pago-o-preço-que-for-porque-me-acho-fodão. O lance da água a gente já fazia no automático:

- Quanto é?

- 2000 Sums 
(lembre-se: isso dava 3 reais por meio litro, calor de 40 graus, sem sombra, ou seja, tava louco pra pagar logo)

(teatrinho) – O QUÊ?! Que deboche, que sacanagem, que absurdo!! Abuso!! Pago 500 e olhe lá!!

- 1000?

- Oba! Me vê duas.


Era divertidinho, e eu gostava do esporte. Já saía pela cidade só no Nice, i like, how much? (grande Borat!), mesmo que não tivesse o menor interesse em comprar o negócio. Aliás, se não tivesse interesse era melhor ainda! Eu podia pechinchar até o talo. Teve coisa que eu acabei comprando só porque o preço acabou ficando muito ridículo! Mas chega uma hora em que isso enche o saco. O meu encheu na hora em que resolvi que ia comprar uns tapetes. Eu já estava vendo tapete pela cidade inteira, estava cansado, querendo ir pro hotel, quando entramos numa loja mais bem fornida, em que a Dília nos levou. Resolvi que ia ser lá mesmo. Minha vontade era pagar a porcaria do tapete e dar o wazari, mas ainda tinha a famosa 'barganhação' árabe pela frente, com o agravante de que a Dília tinha posto o sarrafo lá em cima para mim, dizendo que eu não tinha que aceitar pagar mais do que 50% do preço inicial do sujeito (segundo o Timur de Khiva, o desconto de 20% já tava bonito). A pior coisa, caro leitor, é negociar quando você já tomou a decisão de comprar o negócio. Nunca faça isso! Apesar do cansaço e da vontade de resolver logo esse assunto de uma vez por todas, eu não me permitia imaginar o tapete no chão lá de casa, por que, assim como os cães farejam o medo (grande Falcão!), vendedores de tapete farejam que você decidiu comprar o negócio e fincam o pé na hora de abaixar o preço. Apesar de ter decidido comprar algum tapete ali, acho que até enganei direitinho, porque já estava me comportando como um tremendo dum babaca. Nos quase 40 minutos antes de escolher alguma coisa, mandei ver no teatrinho. Olhava um tapete, olhava outro, ignorava o vendedor. Perguntava o preço, virava as costas, falava português, dava risada, olhava foto na máquina. Conversava com a guia. Perguntava outro preço, ouvia desconto sem ter pedido. Dizia que tava muito caro. Mais enrolação. Brazilian-rivaldo-capoeira-embaixadinha. Fingia que tava indo embora, fazia uma oferta de 15% do preço inicial, virava as costas antes da resposta, dava risada de outra coisa. Em resumo, era quase o rito do acasalamento do rinoceronte albino da abicássia, cheio de circunlóquios. Pra encurtar o relato: consegui os 50% de redução do preço inicial. Mas como esse negócio é chato, quando você não está brincando! (e é claro que o vendedor de ter conseguido enrolar mais um turista que se achou malandro, nesse caso, eu)

No fim do dia, pra comemorar, resolvemos tomar uma Sarbast (cerva uzebque, muito boa) num “fashion show” que ia acontecer numa madrassah. Era um show de música, roupas e danças típicas. Conforme o esperado, o nosso show-de-mulatas-pra-turista foi tão misturado quanto arroz de carreteiro (to falando tanto de comida que acho que vou acender uma vela pra Ofélia hoje). 
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Comments

Diogenes Valença on

Cara, muito bom esse relato!! Estou muito afim de fazer uma viagem parecida ano que vem. Vc tem um roteiro da sua viagem pela Ásia Central? Se puder me mandar, fico muito agradecido. diogenesvalenca@hotmail.com Abraço!!

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