Surpresas dos ultimos capitulos

Trip Start Oct 01, 2007
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Trip End Ongoing


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Wednesday, August 20, 2008

Voltei pra Inglaterra ja bem mais tranquilo do que antes. Mas, como eu ja disse antes, as ultimas semanas ainda aguardavam algumas surpresas. Algumas delas ate bem grandes, como a tambem ja citada mudanca de rumo na direcao da africa, no lugar da India.

Assim que voltei passei um tempo meio "solitario". Enquanto eu ja tinha terminado de juntar o dinheiro que precisava, a maior parte do meu time ainda estava "na batalha". Passei a maior parte dos dias sozinho na escola atras de um computador lendo textos para fazer as ultimas "tasks" que precisava para completar os pontos de estudo. Sem duvida aproveitei a rara oportunidade de acordar um pouco mais tarde alguns dias e em outros ate conseguia tirar uns cochilos pela tarde.

Quando nao estava no computador estudando, estava no quarto tentando acabar a serie de livros de Harry Potter. Nada para se ter muito orgulho, claro, mas confesso que a medida que foi lendo os livros me interessei pela historia e nao queria ir para Africa, na verdade India, ja que nessa fase eu ainda nao havia decidido pela troca, com varios livros 600 e poucas paginas na mochila.

Faltando aproximadamente duas semanas para terminar o programa, o meu time voltou todo para a escola. Alguns ainda faltavam algumas centenas de Libras para juntar, outros ja haviam terminado ou quase. Foi ai que tivemos uma surpresa que acabou mudando os acontecimentos. Enquanto tentavamos decidir qual seria a melhor distribuicao de tempo para as proximas semanas (divisao entre estudos e trabalhos) descobrimos que duas pessoas do grupo, um casal, faltavam mais da metade do dinheiro necessario. Somando o que todos do time faltavam, 14 pessoas juntas precisariam juntar uma determinada quantia e 60% desse valor era desse casal. Foi ai que surgiu o problema, se eles nao conseguiram fazer nem metade do que precisavam em quase seis meses, como iriam fazer ainda mais em duas semanas?

Isso causou uma enorme divisao entre o time. Alguns achavam que todos deveriam trabalhar para juntar esse dinheiro, que a meta deveria ser, agora, do time. Outros nao estavam muito felizes com o fato de trabalhar para pagar "as dividas" dos outros. Era algo como a divisao entre os "bonzinhos" e os "malvados", com direito a emails emotivos e cheios de lagrimas virtuais dos "bonzinhos" para tentar defender as suas ideias.

Depois dessas ironias imagino que voces ja devem ter percebido que eu estava no grupo dos "malvados". Pois eh, meu coracao de pedra nao se sensibilizou com os emails nem com a decisao do casal, de que sairiam do programa caso nao pudesem ir mais com o time. Isso porque a escola propos a eles de trocarem de time, passando mais dois meses na inglaterra, onde poderiam tentar fazer o dinheiro que faltava. Par minha surpresa eles nao aceitaram a proposta (que eu considerava o mais normal a se fazer). No lugar disso optaram por tentar ficar no time e "tentar" juntar o dinheiro a tempo. Este "tentar" esta entre aspas porque, ao menos no que parecia para mim, seria imporssivel para eles fazer o dinheiro. Assim sobraria para o time fazer que faltava.

Eu ja havia trabalhado mais do que eu precisava e o dinheiro extra desse trabalho ja estava na conta do time. Eu poderia, facilmente, trabalhar mais (desde que nao fosse vendendo as revistas, que, como ja disse, estava fora do meu alcance). Mas poderia trabalhar mais, para pessoas que eu creio que houvessem se esforcado. Eu nao tinha como nao pensar que, enquanto eu encurtei o tempo de ferias que eu tinha disponivel (quando fui para a Italia) para nao perder a oportunidade de ir para a Dinamarca trabalhar, esse mesmo casal preferiu nao ir para la e ainda alargou o seu tempo de ferias, passando quase duas semanas a mais do que o normal fora da escola. Enquanto eu estava carregando peso e derrubando parede eles estavam passeando.

Mas talvez esse nao fosse nem o maior motivo pelo qual eu me inclui no grupo dos "malvados". O pior eh que faltando duas semanas para o final do programa e sem se quer ter conseguido metade da meta, eles dois pareciam estar totalmente despreocupados. Os integrantes do "time dos bonzinhos" pareciam mais apreensivos com a situacao deles do que eles mesmos. Enquanto a gente tentava marcar uma reuniao para saber como estava a a arrecadacao de cada um do grupo - a mesma em que descobrimos o quanto eles faltavam - eles estavam pacificamente sentados na sala de estar, assistindo filmes. Enquanto as pessoas que faltavam um quarto do que eles faltavam estavam preocupadas com achar uma forma de fazer esse dinheiro nas semanas que faltavam, eles se preocupavam com qual seria o proximo filme que eles iriam assistir.

Eu estava disposto a ajudar, sim, mas a ajudar quem estava trabalhando. Ajudar quem estava disposto a trabalhar mas que, por nao ter tido a sorte e as oportunidades que eu tive, nao tinham conseguido.

Foi assim que, faltando apenas duas semanas para terminar o programa, o casal desistiu e o grupo se dividiu. Uma pena, sem duvida. Mas nao havia nada que pudesse ser feito. Eu preferi evitar debates com os integrates do "grupo dos bonzinhos". Achei que nao adiantaria de nada. Ate tive que ler emails dizendo coisas como "como voces querem ir para Africa ajudar os outros quando nem se quer ajudam as pessoas daqui". Fiquei tentado em dizer que ajudar nao eh fazer o trabalho pela pessoa. Se a pessoa nao faz algo por falta de interesse ou responsabilidade, eh obrigacao dos "homens de bem" fazer o trabalho por eles e passar a mao em suas cabecas?
Eu acho que nao.

Me lembro que quando ainda estava nos primeiros passos dessa ideia de fazer um voluntariado, comentei com um amigo o que pretendia fazer. Disse que queria fazer algo como voluntario, mas nao sabia nem o que nem como. Comentei que algumas pessoas que conheci viajando fizeram servicos dos mais variados, incluindo ajudar a construir casas em paises mais pobres. Esse amigo disse que eu seria mais util usando o meu conhecimento tecnico trabalhando e ganhando um bom salario, podendo, assim, dedicar uma parte desse salario para construir muito mais casas do que eu poderia construir com minhas maos. De certo modo esses dois pontos de vista sobre "ajudar" (o do meu amigo sobre construir casas e o do "grupo dos bonzinhos" sobre trabalhar pelo grupo) me parecem bem similares. Me parece algo como "dar esmolas" no lugar de tentar resolver o problema. Nao que eu ache que ajudando uma familia pobre a levantar a propria casa eu estarei mudando algo na vida delas. Mas creio que existe mais coisas que posso fazer, inclusive enquanto estiver preparando o cimento ou descansando apos carregar os tijolos, que podem ajudar, nem que apenas um pouco. Acho que se eu estivesse apenas mandando dinheiro para essas pessoas eu nao chegaria, nunca, a entender como elas vivem. Creio que ajudando a construir a casa voce esta dividindo algo muito mais precioso do que o seu salario.

Pra terminar vale lembrar que as pessoas do "time do bem", antes de expressar em voz alta a sua intencao de ajudar, expressaram os porens. "Eu ajudo, mas nao vendo mais revistas", disse um, "Assim que eu terminar os meus estudos eu vou ajudar", disse outro, e estes dois eram os "lideres" dos bons samaritanos. Creio que eles, mesmo dizendo isso, nao preceberam que ajuda deles nao era tao incondicional como eles pensavam (ou queriam mostrar).

Depois que o casal foi embora ficou um "climao" na escola. Coisa que so piorou depois que eu mudei do projeto na India para a Africa (para uma das vagas recem abertas pela saida do casal). Eles nunca comentaram, mas me pareceu que eles associaram a minha decisao de "nao ajudar" a ideia de que eu queria, com isso, "ficar com a vaga deles".

Teriam sido dias calmos, mas acabaram sendo mais estranhos do que o previsto.

Mas... tudo bem... afinal, cada dia que se passava eu comecava a me preocupar mais com os proximos passos... na Africa.
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