Persepolis e Pasargada (prox. Shiraz)
Trip Start
Jan 06, 2010
1
67
78
Trip End
Sep 01, 2010
O ponto alto de qualquer visita a Shiraz (pop. 1.750.000 / elev. 1.531m) é, sem dúvida, o passeio às ruínas de Persepolis, a capital do antigo império persa.
Shiraz em si é uma cidade mais moderna que Esfahan e com menos tensão política que Teerã mas também menos bonita que ambas. Conhecida por sua educação, poesia e vinho (este, só bem dichavado, após o advento da Revolução Islâmica), a cidade chegou a ser uma das mais importantes no mundo islâmico e foi capital do Irã durante a dinastia Zand (1747-79 AD).
Shiraz é mencionada em escrituras elamitas de cerca de 2000 AC e foi um importante centro regional durante os sassanidas. No começo do séc. XI diz-se que a cidade rivalizava com Baghdad em importância; poucos séculos depois a cidade foi poupada da destruição pelos mongóis, pois seus governantes tiveram a sábia escolha de se submeter e pagar os tributos, em detrimento à destruição em massa promovida pelos mongóis a quem não se dobrava.
Durante o período Safavida (sécs. XVI a XVIII), mercadores europeus exportavam para a Europa o famoso vinho de Shiraz.
Sem grande importância estratégica, religiosa ou industrial, Shiraz é hoje um centro administrativo e mais conhecida por suas universidades, que também conferem um clima mais avant-garde e menos conservador à cidade, comparada a Teerã e Qom, por exemplo.
As ruínas de Persepolis, a cerca de 1h de carro do centro, formam um monumento espetacular, facilmente comparável a monumentos como o Coliseu, em Roma, e os Guerreiros de Terra-cota, em Xi´an, por exemplo.
O complexo, bastante preservado, evoca a imponência do império persa em seu auge, deixando pouca dúvida sobre a grandeza da cidade que um dia foi - e a total dominância do império que aqui sediou sua capital. As escadarias, portais com enormes figuras entalhadas e gigantescas colunas são representações artísticas dos diversos povos e nações assimilados pelo primeiro império persa, em seu auge mais ou menos entre 550-330 AC.
De acordo com o especialista Arthur Upham Pope, "sentimentos humanos encontraram expressão na nobreza e pura beleza das construções (de Persepolis): mais racional e graciosa que os monumentos assírios e hititas, mais lúcida e humana que os egípcios. A beleza de Persepolis não é meramente o produto de seu tamanho e visual; é o resultado da beleza sendo especificamente reconhecida como um valor soberano."
O trabalho de construção da cidade começou no reinado de Darius I o Grande, quando este subiu ao trono, em 518AC. Novas construções foram sendo agregadas nos períodos dos reis que vieram em seguida, como Xerxes I e II, Artaxerxes I, II e III, ao longo de um período de mais de 150 anos.
As ruínas ficaram longo tempo cobertas de areia, até 1930 quando começaram extensos trabalhos de escavação.
Entre as partes mais impressionantes de Persepolis estão o Portal de Xerxes, com as famosas figuras em forma de touros alados e com rostos de longas barbas e fortes feições assírias; as escadarias com relevos de figuras de diversos povos trazendo tributos a Persepolis e as figuras de soldados persas com escudos e longas barbas, protegendo Ahura Mazda, o deus Zoroastro, representado como um anel alado; as figuras de tigres devorando cavalos e as colunas que restaram do surreal Palácio das 100 colunas, onde a elite militar do império era recebida.
Algumas citações nas pedras, escritas em elamita, persa antigo e neo-babilônio, fazem referência a Ahura Mazda; os persas eram adeptos do zoroastrismo, até o séc. VII quando houve a invasão árabe que iniciou a conversão gradual do povo ao islamismo.
O crepúsculo de Persepolis aconteceu em 330AC, com a chegada de Alexandre o Grande, líder dos macedônicos, que incendiou a cidade, dando fim ao primeiro império persa. Acredita-se que os telhados e juntas eram feitos de metais preciosos e cobre, daí o fato de um incêndio ter causado tanto estrago, derretendo os metais e ajudando a colapsar as estruturas de pedra.
Uma visão detalhada e reconstituída de Persepolis, esplêndida, pode ser vista no site www.persepolis3d.com.
Após a destruição com a chegada de Alexandre, os persas ainda tiveram as dinastias Selêucida, Parthian e Sassanida, estes constituindo o segundo império persa, antes da chegada dos árabes, no séc. VII.
Os árabes governaram, grosso modo, entre os séculos VII e XI, quando chegaram os turcos Seljuques, seguidos dos mongóis e outros tantos; seguidas invasões e governos de origem tão distintas certamente influenciaram a psique iraniana, sendo um povo geralmente pouco assertivo e mais indireto, hospitaleiro e com um arcabouço cultural extenso.
Visitamos também as ruínas de Pasargada, cuja construção foi iniciada em 546AC por Ciro o Grande (o primeiro rei aquemênida, precursor do primeiro império persa) e onde fica a tumba deste; as ruínas de Pasárgada não são nem de longe preservadas e imponentes como as de Persepolis mas também possuem sua importância histórica.
As ruínas são espalhadas por um grande sítio histórico, onde ficavam o palácio de audiências e o palácio privado de Ciro.
Ainda no mesmo passeio visitamos Naqsh-e Rostam, um impressionante legado histórico composto das tumbas de Darius I e II, Xerxes I e Artaxerxes I encravadas em enormes reentrâncias esculpidas nas montanhas. O local é pouco visitado e silencioso, conferindo uma atmosfera ritualística enquanto você fica olhando, estarrecido com a mera enormidade das reentrâncias e a idade das mesmas, ali encravadas no meio das montanhas.
Pelas razões que já conhecemos, o Irã é um país pouco visitado e se, por um lado, é uma pena que Persepolis, Pasargada e as tumbas de Naqsh-e Rostam sejam tão pouco visitadas, em comparação com ícones como as Pirâmides do Egito, a Muralha da China e as ruínas de Roma, em contrapartida o pouco fluxo de turistas faz do passeio uma experiência memorável e intimista, sendo inexistentes as distrações de vendedores e total o foco nas respectivas contextualizações históricas dos monumentos.
No centro de Shiraz fomos a Arg-e Karim Khan, um grande forte que serviu de corte real durante o período Zand (1750-1795), com um pátio e jardim agradável e uma exposição curiosa de fotos de Shiraz do fim do séc. XIX e início do séc. XX.
Fomos ao Bagh-e Nazar e Pars Museum, outra construção do período Zand (no período desta dinastia, citado acima e que só teve 2 reis, a capital era em Shiraz) com incríveis pinturas em seu domo e uma pequena coleção de objetos de Karim Khan, o primeiro dos reis Zand.
Conhecemos a mesquita Vakil, ao estilo estupefaciante das demais mesquitas que conhecemos no país, com seu pátio enorme e portais ultra-adornados, arabescos e com detalhes mil, outro belo exemplo de arquitetura islâmica.
Andamos pelo bazaar da cidade, onde esbarramos com dois cariocas – Nelson e Henrique, que nos identificaram pela camisa da Seleção que eu estava vestindo. Os dois gente-finas dos raros, tranquilaços, estavam viajando pelo Irã, varando o país no sentido Sul-Norte de carro, Nelson tendo visitado diversos países e Henrique registrando esta viagem com sua filmadora, tendo produzido diversos documentários anteriormente. Foi ótimo ter encontrado esses amigos, voltar a falar um pouco de português, trocar nossas impressões sobre o Irã, rir da etiqueta de “maluco” que têm as pessoas que pra cá viajam, trocar dicas de países já visitados e a visitar. Boa viagem, Nelson e Henrique!
E assim findou nossa estadia em Shiraz e no Irã; estamos de partida pro Egito, com nova escala em Bahrein, será nossa primeira “pisada” na África, esse continente intrigante que planejamos um dia conhecer melhor. Será também nosso primeiro contato com o mundo árabe, de onde só sairemos após o Líbano (ou a Síria, se conseguirmos os vistos). Fizemos um estágio (religioso) aqui no Irã e pro lado de lá o aspecto religioso deverá ser um pouco mais light que aqui.
Um grande abraço aos amigos, nos vemos em Cairo !
Shiraz em si é uma cidade mais moderna que Esfahan e com menos tensão política que Teerã mas também menos bonita que ambas. Conhecida por sua educação, poesia e vinho (este, só bem dichavado, após o advento da Revolução Islâmica), a cidade chegou a ser uma das mais importantes no mundo islâmico e foi capital do Irã durante a dinastia Zand (1747-79 AD).
Shiraz é mencionada em escrituras elamitas de cerca de 2000 AC e foi um importante centro regional durante os sassanidas. No começo do séc. XI diz-se que a cidade rivalizava com Baghdad em importância; poucos séculos depois a cidade foi poupada da destruição pelos mongóis, pois seus governantes tiveram a sábia escolha de se submeter e pagar os tributos, em detrimento à destruição em massa promovida pelos mongóis a quem não se dobrava.
Durante o período Safavida (sécs. XVI a XVIII), mercadores europeus exportavam para a Europa o famoso vinho de Shiraz.
Sem grande importância estratégica, religiosa ou industrial, Shiraz é hoje um centro administrativo e mais conhecida por suas universidades, que também conferem um clima mais avant-garde e menos conservador à cidade, comparada a Teerã e Qom, por exemplo.
As ruínas de Persepolis, a cerca de 1h de carro do centro, formam um monumento espetacular, facilmente comparável a monumentos como o Coliseu, em Roma, e os Guerreiros de Terra-cota, em Xi´an, por exemplo.
O complexo, bastante preservado, evoca a imponência do império persa em seu auge, deixando pouca dúvida sobre a grandeza da cidade que um dia foi - e a total dominância do império que aqui sediou sua capital. As escadarias, portais com enormes figuras entalhadas e gigantescas colunas são representações artísticas dos diversos povos e nações assimilados pelo primeiro império persa, em seu auge mais ou menos entre 550-330 AC.
De acordo com o especialista Arthur Upham Pope, "sentimentos humanos encontraram expressão na nobreza e pura beleza das construções (de Persepolis): mais racional e graciosa que os monumentos assírios e hititas, mais lúcida e humana que os egípcios. A beleza de Persepolis não é meramente o produto de seu tamanho e visual; é o resultado da beleza sendo especificamente reconhecida como um valor soberano."
O trabalho de construção da cidade começou no reinado de Darius I o Grande, quando este subiu ao trono, em 518AC. Novas construções foram sendo agregadas nos períodos dos reis que vieram em seguida, como Xerxes I e II, Artaxerxes I, II e III, ao longo de um período de mais de 150 anos.
As ruínas ficaram longo tempo cobertas de areia, até 1930 quando começaram extensos trabalhos de escavação.
Entre as partes mais impressionantes de Persepolis estão o Portal de Xerxes, com as famosas figuras em forma de touros alados e com rostos de longas barbas e fortes feições assírias; as escadarias com relevos de figuras de diversos povos trazendo tributos a Persepolis e as figuras de soldados persas com escudos e longas barbas, protegendo Ahura Mazda, o deus Zoroastro, representado como um anel alado; as figuras de tigres devorando cavalos e as colunas que restaram do surreal Palácio das 100 colunas, onde a elite militar do império era recebida.
Algumas citações nas pedras, escritas em elamita, persa antigo e neo-babilônio, fazem referência a Ahura Mazda; os persas eram adeptos do zoroastrismo, até o séc. VII quando houve a invasão árabe que iniciou a conversão gradual do povo ao islamismo.
O crepúsculo de Persepolis aconteceu em 330AC, com a chegada de Alexandre o Grande, líder dos macedônicos, que incendiou a cidade, dando fim ao primeiro império persa. Acredita-se que os telhados e juntas eram feitos de metais preciosos e cobre, daí o fato de um incêndio ter causado tanto estrago, derretendo os metais e ajudando a colapsar as estruturas de pedra.
Uma visão detalhada e reconstituída de Persepolis, esplêndida, pode ser vista no site www.persepolis3d.com.
Após a destruição com a chegada de Alexandre, os persas ainda tiveram as dinastias Selêucida, Parthian e Sassanida, estes constituindo o segundo império persa, antes da chegada dos árabes, no séc. VII.
Os árabes governaram, grosso modo, entre os séculos VII e XI, quando chegaram os turcos Seljuques, seguidos dos mongóis e outros tantos; seguidas invasões e governos de origem tão distintas certamente influenciaram a psique iraniana, sendo um povo geralmente pouco assertivo e mais indireto, hospitaleiro e com um arcabouço cultural extenso.
Visitamos também as ruínas de Pasargada, cuja construção foi iniciada em 546AC por Ciro o Grande (o primeiro rei aquemênida, precursor do primeiro império persa) e onde fica a tumba deste; as ruínas de Pasárgada não são nem de longe preservadas e imponentes como as de Persepolis mas também possuem sua importância histórica.
As ruínas são espalhadas por um grande sítio histórico, onde ficavam o palácio de audiências e o palácio privado de Ciro.
Ainda no mesmo passeio visitamos Naqsh-e Rostam, um impressionante legado histórico composto das tumbas de Darius I e II, Xerxes I e Artaxerxes I encravadas em enormes reentrâncias esculpidas nas montanhas. O local é pouco visitado e silencioso, conferindo uma atmosfera ritualística enquanto você fica olhando, estarrecido com a mera enormidade das reentrâncias e a idade das mesmas, ali encravadas no meio das montanhas.
Pelas razões que já conhecemos, o Irã é um país pouco visitado e se, por um lado, é uma pena que Persepolis, Pasargada e as tumbas de Naqsh-e Rostam sejam tão pouco visitadas, em comparação com ícones como as Pirâmides do Egito, a Muralha da China e as ruínas de Roma, em contrapartida o pouco fluxo de turistas faz do passeio uma experiência memorável e intimista, sendo inexistentes as distrações de vendedores e total o foco nas respectivas contextualizações históricas dos monumentos.
No centro de Shiraz fomos a Arg-e Karim Khan, um grande forte que serviu de corte real durante o período Zand (1750-1795), com um pátio e jardim agradável e uma exposição curiosa de fotos de Shiraz do fim do séc. XIX e início do séc. XX.
Fomos ao Bagh-e Nazar e Pars Museum, outra construção do período Zand (no período desta dinastia, citado acima e que só teve 2 reis, a capital era em Shiraz) com incríveis pinturas em seu domo e uma pequena coleção de objetos de Karim Khan, o primeiro dos reis Zand.
Conhecemos a mesquita Vakil, ao estilo estupefaciante das demais mesquitas que conhecemos no país, com seu pátio enorme e portais ultra-adornados, arabescos e com detalhes mil, outro belo exemplo de arquitetura islâmica.
Andamos pelo bazaar da cidade, onde esbarramos com dois cariocas – Nelson e Henrique, que nos identificaram pela camisa da Seleção que eu estava vestindo. Os dois gente-finas dos raros, tranquilaços, estavam viajando pelo Irã, varando o país no sentido Sul-Norte de carro, Nelson tendo visitado diversos países e Henrique registrando esta viagem com sua filmadora, tendo produzido diversos documentários anteriormente. Foi ótimo ter encontrado esses amigos, voltar a falar um pouco de português, trocar nossas impressões sobre o Irã, rir da etiqueta de “maluco” que têm as pessoas que pra cá viajam, trocar dicas de países já visitados e a visitar. Boa viagem, Nelson e Henrique!
E assim findou nossa estadia em Shiraz e no Irã; estamos de partida pro Egito, com nova escala em Bahrein, será nossa primeira “pisada” na África, esse continente intrigante que planejamos um dia conhecer melhor. Será também nosso primeiro contato com o mundo árabe, de onde só sairemos após o Líbano (ou a Síria, se conseguirmos os vistos). Fizemos um estágio (religioso) aqui no Irã e pro lado de lá o aspecto religioso deverá ser um pouco mais light que aqui.
Um grande abraço aos amigos, nos vemos em Cairo !




Comments
uffffff finally my heart in peace
Pucha que diversidade de cultura! uma pessoa até fica cansada de andar viajando por entre os posts que vão colocando!! Obrigada por mostrarem mais uma parte do mundo que desconheço!! Beijosss
Iris
P.s- Mano tens seguido o mundial?? ehehe
Um dos lugares mais belos e ricos da jornada!
Mudei minha maneira de pensar em relação ao Irã.
Beijos e abraços
Oi Isaac ,Ligia,
Espero que estejam bem , e estejam curtindo o Egito , nós chegamos bem , e como voces haviam adiantado Esfahan é a joia da Persia.
estarei acompanhando a viagem de voces , desbravadores desse mundo fantastico.
Saudações cariocas , nesse sabado lindo e gostoso aqui no Rio de volta a casa.
Que voces aproveitem muuuiiiittttooooo.
abs,
nelson
Só fui ler agora a passagem pelo Irã. Ótimos textos, impressões surpreendentes para nós que não conhecemos nada do país. Valeu!