Teerã

Trip Start Jan 06, 2010
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Trip End Sep 01, 2010


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Flag of Iran  ,
Sunday, June 13, 2010

               Chegamos cansados ao aeroporto Imam Khomeini, em Teerã, após uma longa escala no Bahrein. Reparamos de imediato no clima seco e os arredores desérticos. Reparamos também na tranqüilidade, sem taxistas frenéticos disputando clientes a tapa, tuk-tuks, preços inflacionados etc. De fato, qualquer lugar que você for depois da Índia vai parecer um Éden de tranqüilidade.

            O Irã é tranquilamente um dos países mais estereotipados do mundo e, por isso, um dos menos compreendidos. O primeiro grande equívoco, muito comum, é achar que os iranianos são árabes. Não são. São persas. Árabes são os egípcios, palestinos, iraquianos, libaneses, sauditas etc.

Os árabes invadiram a Pérsia no séc. VII, pelo qual nunca foram inteiramente perdoados pelos iranianos. O que ambos têm em comum é o fato de serem muçulmanos, sendo que o Irã é a única república islâmica do mundo, isto é, onde quem manda é um clérigo (aiatollah), onde os assuntos de estado são intimamente ligados com a vida religiosa e social.

A identidade iraniana tem como um dos seus pilares um dos maiores impérios que já existiu, o Império Persa. No séc. VII AC o rei de uma das tribos persas, Achaemenes, criou um estado unificado no sul do Irã, dando seu nome ao que viria a ser o primeiro Império Persa, o dos aquemênidas.

Quando o filho de Achaemenes – Ciro, o Grande – subiu ao trono em 559 AC, a Persia já estava ascendendo e dentro de 20 anos viria a ser o maior império que o mundo de então havia conhecido. Ciro governou por 29 anos e era conhecido como um déspota sensível e justo, tendo derrotado a Babilônia e libertado os judeus que lá se encontravam como escravos.

Na época de Ciro foi construída Pasárgada, antes de Ciro e seu exército serem mortos pelo exército da rainha Tomyris, dos Massagetas.

O sucessor de Ciro foi seu filho Cambyses, por sua vez sucedido por Darius I – também "O Grande" – que veio a construir o espetacular centro de Persépolis, a servir como hub cerimonial e religioso ao principal deus persa, Ahura Mazda, ambém venerado pelos zoroastros.

Nessa época, o império era a maior das civilizações do planeta, com ruas pavimentadas de um canto a outro do império; os aquemênidas introduziram o primeiro serviço postal do mundo, diz a história que qualquer correio era entregue, em qualquer canto do império, num prazo máximo de 15 dias, através de uma intricada rede de cavalos e mensageiros.

Quando algumas colônias gregas da Ásia Menor se rebelaram contra o controle persa, Darius I decidiu invadir a Grécia continental, a fim de servir de exemplo a outras colônias; o lance, entretanto, não deu certo e o exército de Darius I foi derrotado em 490 AC, em Marathon, perto de Atenas. Darius I veio a falecer em 486 AC.

Darius I foi sucedido por Xerxes (derrotado em Sparta), Artaxerxes I, Darius II e Artaxerxes II e, na época de Darius III, Alexandre o Grande, rei da Macedônia, já vinha varrendo exércitos persas, como em Issus (Turquia, 333 AC) e Guagamela (Iraque, 331 AC), vindo a chegar em Persépolis, onde chegou a viver alguns meses, antes da capital ser queimada. Ainda hoje se discute se foi um acidente ou se Alexandre quis se vingar da destruição de Atenas por Xerxes.

Os sassanidas vieram em seguida, constituindo o Segundo Império Persa. Os sassanidas lutaram seguidas vezes com os romanos e reformularam o zoroastrismo como religião do estado, adicionando elementos animistas e da cultura grega; também tinham sua própria língua, o Pahlavi, raiz da língua iraniana de hoje, o Farsi.

Em 637 AD, num capítulo crucial da história persa, os árabes derrotaram os sassanidas em Qadisirya, pondo um fim ao Segundo Império Persa. Em 1051 turcos seljuks tomaram Esfahan, engatilhando uma nova era de ouro nas artes, literatura e ciências persas, tendo surgido nessa época o matemático e poeta Omar Khayyam.

Os mongóis – que sempre aparecem nas histórias dos países da Ásia – varreram o plateau iraniano, numa trilha de sangue e destruição, no séc. XIII.

E aí a gente dá um fastforward na história do Irã, até chegar ao governo do shah Mohammed Reza Pahlavi, uma figura altamente impopular devido à brutalidade de sua polícia secreta e sua conivência com a atuação agressiva das empresas americanas e britânicas em solo nacional, como a Anglo-Iranian Oil Company, que mais tarde seria rebatizada de British Petroleum, a BP.

Em 1979, após uma longa história de oposição ao governo do shah, o ayatollah Rhuollah Khomeini, um clérigo xiita e uma figura altamente concentrada, beligerante e controversa, voltou de seu exílio em Paris e liderou a Revolução Islâmica, que transformou o país numa República Islâmica.

Apenas 1 ano depois, em 1980, Saddam Hussein tentou tirar vantagem da situação interna conturbada do Irã lançando uma invasão à província iraniana do Khuzestão (rica em óleo), iniciando a Guerra Irã-Iraque, que iria durar 8 anos e ter um saldo catastrófico de cerca de 500.000 mortos de cada lado.

Ironicamente, a invasão ajudou a solidificar a Revolução Iraniana, providenciando um inimigo externo e unindo diversos setores da sociedade. Em 1982, com a ajuda de um exército fanático disposto a se martirizar pela causa da Revolução, as forças iranianas já haviam repelido o invasor iraquiano de volta à fronteira original entre os países. Entretanto, buscando explorar o bom momento, Khomeini ordenou a ocupação das cidades iraquianas de Najaf e Karbala, importantes sítios históricos xiitas. A manobra se provou um fracasso, com baixas numerosas de ambos os lados e o exército iraquiano, financiado pelo Ocidente temeroso com o caráter radical da nova revolução, conseguiu repelir a contra-invasão iraniana. Um cessar-fogo foi finalmente assinado em 1988.

Sucedendo Khomeini como Líder Supremo após a morte deste em 4 de Junho de 1989, Ali Khamenei manteve a linha dura do regime, havendo momentos mais progressivos como o do presidente Khatami e uma volta à disciplina xiita com a eleição de Ahmadinejad para presidente.

Desde seus primeiros momentos, o regime xiita buscou espalhar sua influência em diversos países muçulmanos, incitando grupos xiitas no Iraque e financiando os grupos armados Hamas (na Palestina) e Hizbollah, no Líbano.

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Nos hospedamos num hotel próximo à Ferdossi Square, na região central de Teerã, um pouco mais a norte. A cidade tem uma nítida divisão econômica, com a parte norte sendo mais próspera e mais “arejada” enquanto que a parte sul é mais antiga e mais conservadora.

A locação aos pés das montanhas Alborz confere um horizonte bonito à cidade, com a vista dos picos com algum gelo. O clima é bastante seco.

Chegamos um dia antes do marco de 1 ano dos protestos da controversa re-eleição do Ahmadinejad, um momento conturbado conhecido como “Revolução Verde”, quando milhares de pessoas tomaram as ruas em protesto contra supostas irregularidades no pleito.

A cidade é bastante organizada e limpa, tivemos uma ótima primeira impressão – à excessão do trânsito, um pouco agressivo.

Por lei, todas as mulheres, gringas ou locais, devem usar véu e não terem partes descobertas do corpo, em público. Desobediências a esses preceitos raramente são vistos, já que a polícia e milícias simpatizantes da Revolução abordam quem quer que não siga essa regra, chegam junto mesmo. Ainda assim, muitas jovens botam o lenço do meio da cabeça pra trás, num eterno embate da juventude contra o regime, onde às vezes o pêndulo tende mais para um lado, às vezes pro outro.

No dia do 1 ano dos protestos, o clima ficou meio tenso, com muitos policiais nas ruas; não chegou a haver um combate generalizado, mas foram registrados confrontos numa universidade.

Nesse dia, fomos abordados num supermercado por 2 caras, que seguraram no meu braço; nos minutos iniciais, pareceram não ter percebido que éramos gringos, mas logo que dissemos que éramos do Brasil fomos liberados na hora.

Também para tirar fotos a coisa não é muito tranqüila, tem sempre alguém observando, é estritamente proibido tirar fotos de prédios públicos, a discrição é recomendada.

Conhecemos a avenida Valiasr, uma das principais da cidade, fomos à praça Valiasr, conhecemos o Bazar de Teerã na parte sul da cidade, um labirinto onde o comércio rola há quase 1000 anos, na parte mais conservadora da cidade, muito mais chadors (um pano preto que cobre todo o corpo da mulher) que singelos lenços na cabeça.

Dentro do Bazar fica a mesquita Imam Khomeini, a mais importante da cidade, acesso a não-muçulmanos é proibido mas dá pra ter uma noção dos hábitos religiosos locais.

Visitamos também o Museu Nacional do Irã, com peças espetaculares retiradas de Persépolis e Pasárgada, artefatos milenares de afirmação do poder dos reis da época. Vimos uma pedra com inscrições do rei Artaxerxes I, atestando a legitimidade de seu poder e sua ascendência aquemênida.

Passamos na antiga embaixada dos EUA, que foi invadida por estudantes na aurora da Revolução Islâmica, sob a bênção de Khomeini, num dos mais radicais episódios da diplomacia internacional, quando 52 diplomatas foram feitos reféns por 444 dias. O local abriga hoje o quartel general da milícia Sepah, uma milícia hard-line que apóia o regime. Os muros são repletos de murais anti-americanos, um deles retratando a Estátua da Liberdade como uma caveira.

Rolou um sentimento forte diante desse lugar com tanta história, ali na frente dos muros, um lugar que influenciou tão decisivamente os acontecimentos históricos que se desdobram até hoje no Oriente Médio, uma contestação radical e frontal ao poderio dos EUA na região. Discretamente, tiramos algumas fotos dos murais e seguimos adiante.

Teerã tem também alguns belos parques, refúgios essenciais do trânsito e do barulho das ruas, como o Park-e-Sharh, com bonitos jardins e um lago.

Estivemos também na grande Praça Imam Khomeini, bem como no Palácio Golestan, nas proximidads desta, um monumento da época da dinastia Qajar, a que antecedeu a subida ao poder dos Reza Pahlavi.

Próximo à ex-embaixada dos EUA estivemos também no Museu Shohada, com exibições de fotos e vídeos de mártires da Guerra Irã-Iraque, bem como da Revolução Islâmica.

Em um outro mercado, a Lígia se dirigiu ao balconista e este não gostou, expressando algo como “quem deve se dirigir a mim é ele”, apontando pra mim.

O clima certamente tem um quê de Big Brother, com a polícia secreta e as milícias operando num clima obscuro, onde a liberdade política e de expressão certamente é uma commodity escassa. Tem-se uma impressão quase palpável do constante choque da força transformadora de juventude com a força de um establishment bastante conservador.

O governo é radical e há uma classe dominante, que mama em suas tetas, que obviamente não quer abrir mão do poder político. Há cidadãos mais conservadores e que não hesitam em dar esporros armagedônicos quando vêem um casal de jovens se beijando na rua, coisa raríssima, um tabu por aqui.

Ainda assim, também é claro que uma grande parcela da população não concorda com os caminhos de enfrentamento seguidos pelo governo, bem como a severidade de algumas das regras. Há muitos que simplesmente acham o Ahmadinejad maluco – como muitos de nós acham no ocidente.

A psique nacional nitidamente tem noção da própria imagem ruim que é projetada no exterior, que se manifesta numa espécie insegurança e vontade permanente de saber do turista o que ele acha do Irã. Enquanto que em muitos outros países as primeiras perguntas que ouvimos são sempre “De onde vocês são? Com o quê vocês trabalham? São casados?”, aqui ouvimos mais “O que vocês acham do Irã?”.

Ao mesmo tempo, o orgulho de seu passado persa é latente, tendo sido um dos maiores e mais culturados impérios que o mundo já conheceu. Os iranianos não gostam de serem confundidos com árabes e se comparam mais aos europeus.

Percebemos que, ao passo que os estereótipos são, muitas das vezes, a única informação que temos de um país, eles são totalmente insuficientes para descrever uma realidade que invariavelmente se apresenta com muito mais nuances, sendo muito mais complexa do que nos livros e nas imagens de TV. A idéia que temos de que as mulheres daqui são reprimidas, por exemplo, é tão equivocada (ou ao menos incompleta) quanto a idéia que as pessoas têm aqui de que as mulheres do ocidente são imorais. As mulheres daqui têm que usar véu, mas têm mais liberdades que em outros países muçulmanos, ou mesmo da Índia, onde seu acesso á educação, por exemplo, é restrito por questões de tradição.

Nesse sentido, é inestimável poder conhecer o lugar, estar presente nele para ver com seus próprios olhos e tirar suas conclusões. Os preconceitos são edificados em cima de medo e principalmente ignorância, no sentido de desconhecer. Temos medo de algumas coisas que não nos são familiares e esse medo nos faz adotar uma postura agressiva e irônica. Estar lá e interagir, perguntar, ver como funciona, ajuda em muito a ter um panorama menos tendencioso.

E assim se foram nossos dias na capital, um dos nomes de cidade mais bonitos do mundo, Teerã. Foi pra nós uma oportunidade excelente estar aqui, conhecer a beleza da cidade e os costumes e hábitos dos tehranis.

Daqui iremos para Esfahan, a “Pérola da Pérsia”, mais ao centro do país. De lá a gente manda mais notícias deste fascinante país !

Um grande abraço a todos !
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