Macau
Trip Start
Jan 06, 2010
1
33
78
Trip End
Sep 01, 2010
Caros amigos,
É difícil descrever a sensação de um português que chega pela primeira vez a Macau; na verdade, a surpresa se estende a qualquer pessoa que vive em algum país que tenha sido colônia de Portugal. Está tudo lá - ruelas estreitas pavimentadas com pedras portuguesas, igrejas católicas, nomes de ruas do tipo Rua do Comércio, Travessa do Paiva, Rua de Sá Lourenço, Av. Almeida Ribeiro, caldo verde e pasteizinhos de Belém, a ocupação territorial escalena (em detrimento à ocupação "retangular" dos espanhóis, por exemplo), arquitetura colonial típica, a Cruz de Gama, o galo de Barcelos etc.
E isso, tipo, "na" China ! Ficamos embasbacados, o senso histórico meio confuso, ali comendo uns pasteizinhos de Belém e tentando escutar a conversa de locais pra ver se eles falavam português ...
No início do séc XVI os portugueses encontraram diversos juncos chineses em Malaca (Península Malásia); se dando conta de que os "chinos", de quem marinheiros e exploradores portugueses já haviam ouvido falar no século anterior, não eram um povo mítico mas sim nativos de Cathay (a terra que Marco Polo havia visitado e descrito, cerca de 250 anos antes), enviaram uma pequena frota para abrir comércio com a China.
Em 1557 oficiais de Guangzhou (Cantão) permitiram aos portugueses construir abrigos temporários na península de Macau, em troca de aluguel e do compromisso de limpar os piratas que atuavam na região.
O nome do lugar deve seu nome à deusa A-ma; de acordo com a lenda, A-ma, uma garotinha local pobre, queria partir pra Guangzhou mas era sempre escorraçada pelos junqueiros prósperos da região; um pescador humilde acolheu a menina e iniciaram a viagem, quando uma tempestade varreu todos os juncos, poupando apenas o junco de A-ma; ao retornarem ao porto, A-ma subiu o Morro da Barra e ascendeu aos céus, envolta em uma aura de luz. Quando os portugueses chegaram e perguntaram aos locais o nome da região, a resposta foi "A-ma-gau". Baía de Ama.
Macau cresceu rapidamente como centro de comércio, devido em parte ao fato de mercadores chineses serem proibidos de saírem da China, por decreto imperial; servindo como agentes, os portugueses escoavam produtos chineses em suas rotas comerciais (Goa, Malaca, chegando posteriormente a Nagasaki).
Pelo fim do séc. XVII a população local era de 40.000 habitantes; Macau era também um centro do Cristianismo na região. Padres e missionários acompanhavam os navios portugueses, ainda que seus interesses nem sempre fossem os mesmos que o dos exploradores. Entre os missionários dos primeiros tempos estava Francisco Xavier, que passou dois anos no Japão, posteriormente voltando seus esforços para a China.
(...)
Em 20 de dezembro de 1999, 2 anos após a entrega de Hong Kong aos chineses pelos britânicos, Macau voltou a pertencer à China, dando fim a 442 anos de domínio português.
Em 28 de fevereiro de 2010, Lígia e Isaac pegaram um ferry de Hong Kong e ainda pela manhã já estavam em Macau, cerca de 1h de travessia :) Começamos nosso passeio no Largo do Senado, onde demos a sorte de chegar no meio das comemorações do Festival das Lanternas, o décimo quinto dia da primeira lua, a cidade repleta de lanternas de papel multi-coloridas, minutos depois de chegarmos o Dragão começou a percorrer as estreitas ruas do centro histórico !
Percorremos as ruas do centro histórico, após o Dragão ter partido, passando pela Igreja de S. Domingos, a Catedral de Macau, subimos ao Monte do Forte, onde fica um enorme e preservado forte que abriga o Museu de Macau.
No forte conhecemos Miguel, um dentista português que passou o carnaval deste ano no Rio, desfilou pela Mangueira, comprou um CD gospel de um PM na Lapa, comprou uma camisa do Mengão e se apaixonou pela cidade (saudades!); Miguel pediu demissão da clínica onde trabalhava, em Londres, e está no começo de sua viagem de 4 meses pela Ásia. "Dinheiro não é tudo", disse o simpático e flamenguista português, afirmando ter escolhido Macau como início de sua viagem pelo fato de ser um choque cultural um pouco menor, pro começo de sua jornada.
Sim, ouvimos locais falando português; almoçamos no Restaurante Platão, cujo dono é um local que trabalhou 25 anos como chef de cozinha do governo português em Macau. Em um português estilo pastelaria chinesa, o gentil chef perguntou à Lígia se preferia suas batatas fritas ou cozidas.
O Miguel nos contou que, em outro restaurante da cidade, conheceu um coroa local ferrenhamente "português", falava o idioma com precisão quase camoniana, amaldiçoava os chineses e batizou todas suas filhas com nomes portugueses.
Mas no geral as pessoas não falam tanto português não, ainda que todos os avisos, placas de ruas e descrições do comércio sejam em português (estabelecimento de comida, edifício, dentista etc.)
No Platão fizemos amizade com um garçon filipino chamado Cortés que nos recomendou fortemente uma visita às Filipinas, à capital Manila e à praia de Boracay, aconselhando que evitemos as ilhas do sul em virtude do Abu Sayyaf, grupo terrorista islâmico que opera na região. Cortés também arranha um português, que lhe ajuda com os clientes brasileiros e portugueses.
Passamos pelas ruínas da Igreja de S. Paulo, construída em 1602, projetada por um jesuíta italiano, completada por cristãos japoneses exilados, com a ajuda de artesãos chineses.
Continuamos nossa caminhada pela cidade, passamos pelo Largo do Lilau, Colégio Salesiano, Paulo Comandante Advogados, Rua da Barra, Rua do Peixe Salgado, concluímos nosso passeio acendendo alguns incensos no Templo de A-ma, já no fim da península, próximo ao Porto Interior, ao Museu Marítimo e ao lago Sai Van.
Passei o dia refletindo sobre a saga dos portugueses, sua ascensão com o pioneirismo na expansão marítima, um feito inacreditável para sua época, um país tão pequeno, as colônias nos pontos mais distantes do globo, a derrocada dando lugar aos espanhóis, holandeses e ingleses; ficamos maravilhados com a pequena colônia de Macau, pensamos em como nos sentiríamos em Goa, em Cabo Verde, em Moçambique, Timor Leste... pensamos no que o Miguel descreveu, atualmente, como uma crise permanente no país, o pensamento das gerações mais antigas, a maior abertura e viagens das novas gerações.
O mundo é um grande e fascinante jogo de Civilization, pensei, já com os olhos marejados, avistando a Baía da Barra do topo do Templo de A-ma.
Amanhã é nosso último dia em Hong Kong; terça partiremos pra Ha Noi, a porta de entrada de mais este fascinante país que é o Vietnã, estou curioso pra ver o que mudou desde a última vez em que estive lá, em 2008, não tem tanto tempo assim.
Abraços calorosos aos amigos, viajantes e garçons do planeta Terra !
É difícil descrever a sensação de um português que chega pela primeira vez a Macau; na verdade, a surpresa se estende a qualquer pessoa que vive em algum país que tenha sido colônia de Portugal. Está tudo lá - ruelas estreitas pavimentadas com pedras portuguesas, igrejas católicas, nomes de ruas do tipo Rua do Comércio, Travessa do Paiva, Rua de Sá Lourenço, Av. Almeida Ribeiro, caldo verde e pasteizinhos de Belém, a ocupação territorial escalena (em detrimento à ocupação "retangular" dos espanhóis, por exemplo), arquitetura colonial típica, a Cruz de Gama, o galo de Barcelos etc.
E isso, tipo, "na" China ! Ficamos embasbacados, o senso histórico meio confuso, ali comendo uns pasteizinhos de Belém e tentando escutar a conversa de locais pra ver se eles falavam português ...
No início do séc XVI os portugueses encontraram diversos juncos chineses em Malaca (Península Malásia); se dando conta de que os "chinos", de quem marinheiros e exploradores portugueses já haviam ouvido falar no século anterior, não eram um povo mítico mas sim nativos de Cathay (a terra que Marco Polo havia visitado e descrito, cerca de 250 anos antes), enviaram uma pequena frota para abrir comércio com a China.
Em 1557 oficiais de Guangzhou (Cantão) permitiram aos portugueses construir abrigos temporários na península de Macau, em troca de aluguel e do compromisso de limpar os piratas que atuavam na região.
O nome do lugar deve seu nome à deusa A-ma; de acordo com a lenda, A-ma, uma garotinha local pobre, queria partir pra Guangzhou mas era sempre escorraçada pelos junqueiros prósperos da região; um pescador humilde acolheu a menina e iniciaram a viagem, quando uma tempestade varreu todos os juncos, poupando apenas o junco de A-ma; ao retornarem ao porto, A-ma subiu o Morro da Barra e ascendeu aos céus, envolta em uma aura de luz. Quando os portugueses chegaram e perguntaram aos locais o nome da região, a resposta foi "A-ma-gau". Baía de Ama.
Macau cresceu rapidamente como centro de comércio, devido em parte ao fato de mercadores chineses serem proibidos de saírem da China, por decreto imperial; servindo como agentes, os portugueses escoavam produtos chineses em suas rotas comerciais (Goa, Malaca, chegando posteriormente a Nagasaki).
Pelo fim do séc. XVII a população local era de 40.000 habitantes; Macau era também um centro do Cristianismo na região. Padres e missionários acompanhavam os navios portugueses, ainda que seus interesses nem sempre fossem os mesmos que o dos exploradores. Entre os missionários dos primeiros tempos estava Francisco Xavier, que passou dois anos no Japão, posteriormente voltando seus esforços para a China.
(...)
Em 20 de dezembro de 1999, 2 anos após a entrega de Hong Kong aos chineses pelos britânicos, Macau voltou a pertencer à China, dando fim a 442 anos de domínio português.
Em 28 de fevereiro de 2010, Lígia e Isaac pegaram um ferry de Hong Kong e ainda pela manhã já estavam em Macau, cerca de 1h de travessia :) Começamos nosso passeio no Largo do Senado, onde demos a sorte de chegar no meio das comemorações do Festival das Lanternas, o décimo quinto dia da primeira lua, a cidade repleta de lanternas de papel multi-coloridas, minutos depois de chegarmos o Dragão começou a percorrer as estreitas ruas do centro histórico !
Percorremos as ruas do centro histórico, após o Dragão ter partido, passando pela Igreja de S. Domingos, a Catedral de Macau, subimos ao Monte do Forte, onde fica um enorme e preservado forte que abriga o Museu de Macau.
No forte conhecemos Miguel, um dentista português que passou o carnaval deste ano no Rio, desfilou pela Mangueira, comprou um CD gospel de um PM na Lapa, comprou uma camisa do Mengão e se apaixonou pela cidade (saudades!); Miguel pediu demissão da clínica onde trabalhava, em Londres, e está no começo de sua viagem de 4 meses pela Ásia. "Dinheiro não é tudo", disse o simpático e flamenguista português, afirmando ter escolhido Macau como início de sua viagem pelo fato de ser um choque cultural um pouco menor, pro começo de sua jornada.
Sim, ouvimos locais falando português; almoçamos no Restaurante Platão, cujo dono é um local que trabalhou 25 anos como chef de cozinha do governo português em Macau. Em um português estilo pastelaria chinesa, o gentil chef perguntou à Lígia se preferia suas batatas fritas ou cozidas.
O Miguel nos contou que, em outro restaurante da cidade, conheceu um coroa local ferrenhamente "português", falava o idioma com precisão quase camoniana, amaldiçoava os chineses e batizou todas suas filhas com nomes portugueses.
Mas no geral as pessoas não falam tanto português não, ainda que todos os avisos, placas de ruas e descrições do comércio sejam em português (estabelecimento de comida, edifício, dentista etc.)
No Platão fizemos amizade com um garçon filipino chamado Cortés que nos recomendou fortemente uma visita às Filipinas, à capital Manila e à praia de Boracay, aconselhando que evitemos as ilhas do sul em virtude do Abu Sayyaf, grupo terrorista islâmico que opera na região. Cortés também arranha um português, que lhe ajuda com os clientes brasileiros e portugueses.
Passamos pelas ruínas da Igreja de S. Paulo, construída em 1602, projetada por um jesuíta italiano, completada por cristãos japoneses exilados, com a ajuda de artesãos chineses.
Continuamos nossa caminhada pela cidade, passamos pelo Largo do Lilau, Colégio Salesiano, Paulo Comandante Advogados, Rua da Barra, Rua do Peixe Salgado, concluímos nosso passeio acendendo alguns incensos no Templo de A-ma, já no fim da península, próximo ao Porto Interior, ao Museu Marítimo e ao lago Sai Van.
Passei o dia refletindo sobre a saga dos portugueses, sua ascensão com o pioneirismo na expansão marítima, um feito inacreditável para sua época, um país tão pequeno, as colônias nos pontos mais distantes do globo, a derrocada dando lugar aos espanhóis, holandeses e ingleses; ficamos maravilhados com a pequena colônia de Macau, pensamos em como nos sentiríamos em Goa, em Cabo Verde, em Moçambique, Timor Leste... pensamos no que o Miguel descreveu, atualmente, como uma crise permanente no país, o pensamento das gerações mais antigas, a maior abertura e viagens das novas gerações.
O mundo é um grande e fascinante jogo de Civilization, pensei, já com os olhos marejados, avistando a Baía da Barra do topo do Templo de A-ma.
Amanhã é nosso último dia em Hong Kong; terça partiremos pra Ha Noi, a porta de entrada de mais este fascinante país que é o Vietnã, estou curioso pra ver o que mudou desde a última vez em que estive lá, em 2008, não tem tanto tempo assim.
Abraços calorosos aos amigos, viajantes e garçons do planeta Terra !



Comments
Adoraria ter feito uma viagem dessas....beijinhos....
Esse relato de Macau foi sensacional!!!
Keep walking!
adorei a discriçao de macau
beijos mae,, i keep on reading over and over again,, cant get enough
beijos
mae
Estou a apreciar imenso este caderno de viagens. Parabéns. Vou continuar a ler e a seguir o vosso percurso e recomendarei este blog a uma sobrinha que está a acabar um estágio em Macau e que irá começar tb uma viagem pelo sudeste asiático dentro de 2 semanas. Talvez ela aproveite as vossas experiências e dicas.